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Uma tragicomédia em família

coded by ctellier | tags: , , | Posted On quarta-feira, 14 de novembro de 2012 at 18:15

meteorologia: nublado ainda
pecado da gula: muito macarrão
teor alcoolico: nada ainda
audio: tom jobim
video: breakfast at tiffany's

Fun home
Alison Bechdel

Quando criança, sempre fui leitora assídua de quadrinhos. Tio Patinhas e Turma da Mônica, principalmente. Sou mais uma das milhares de crianças que adquiriram o hábito da leitura acompanhando as aventuras dos personagens de Maurício de Souza. Mas, depois de “virar gente grande”, parei de ler HQs. Não me desfiz das minhas, apenas parei de comprá-las - ou melhor, de pedir para que comprassem para mim. Com a nem tão recente assim onda de adaptações de HQs para o cinema, meu interesse retornou e comecei a consumir HQs adultas, as chamadas graphic novels. Por esse motivo, resolvi incluir uma categoria “Graphic Novel” no Desafio literário.

Não consegui lembrar onde havia lido sobre este livro. Mas me deixou suficientemente interessada para incluí-lo no desafio - que eu não finalizei, mea culpa. O desafio “embolou” antes mesmo de eu chegar à metade da lista. Empaquei no segundo volume de Os irmãos Karamazov. Vários outros livros foram cortando a fila e o desafio foi “pras cucuias”. Mas estou num período em que leituras mais breves, mas nem sempre muito leves, têm me interessado mais. E foi nesse contexto que Fun home se encaixou, apenas um mês depois do programado (apesar de eu ter “pulado” todos os outros livros desde maio). Antes de continuar, segue a sinopse.

Fun Home é um dos maiores fenômenos literários desta década. Eleito o "livro do ano" em 2006 pela revistaTime, figurou na lista de livros mais vendidos do The New York Times e faturou diversos prêmios (entre eles, o Eisner Awards de Melhor Não-Ficção). O álbum é um livro de memórias, onde a quadrinista Alison Bechdel revisita a sua infância e adolescência - especialmente a descoberta de sua homossexualidade e a difícil relação com seu pai Bruce Bechdel. Homossexual não-assumido, Bruce passava mais tempo cuidando e reformando o casarão vitoriano que moravam do que dando atenção à família.
(fonte: site Loja Conrad)

Ao iniciar a leitura, logo percebi que não era uma HQ como as outras, com quadros desenhados e balões de diálogos e pensamentos. Lógico, há isso também, mas não apenas isso. De uma maneira bastante criativa, a autora faz uso de inúmeros outros recursos visuais para contar sua estória. Desde caixas de texto com setas para apontar certos detalhes até reproduções de páginas de livros - dicionários, principalmente -, passando por recortes de jornais ou revistas e trechos manuscritos de cartas ou diários. E o resultado final é que o leitor fica imerso na estória enquanto tenta encontrar todos os detalhes de cada quadro. Na grande maioria das vezes, o que está escrito é complementar, mas não explicativo, do que está desenhando. E, por vezes, o texto até contradiz o desenho numa ironia ácida que permeia toda a trama.

Além do diferencial no estilo narrativo, para os leitores “hard-core” há um atrativo a mais. Há inúmeras referências, inferências, citações e correlações a várias obras literárias e autores. Em vários momentos, a autora relaciona eventos a trechos de livros, fazendo correspondência entre personagens reais e fictícias. Há Marcel Proust, James Joyce, Virginia Woolf, Albert Camus, Oscar Wilde, além do mito de Dédalo e Ícaro, que a autora compara a seu pai e ela. E é importante ressaltar que nenhuma das citações é gratuita. Todas se encaixam perfeitamente no contexto, principalmente por não serem apenas um recurso de suporte à narrativa, mas por terem efetivamente feito parte da formação intelectual da autora.

Num primeiro momento, pode parecer que uma biografia em quadrinhos é, justamente pelo formato, obrigatoriamente superficial. Mas Fun home está muito longe disso. A autora consegue conferir complexidade e um nível de detalhes que garantem uma experiência de leitura que pode ser tudo, menos superficial. Como já afirmei neste post sobre a biografia de Clarice Lispector, biografias não fazem parte da minha lista de categorias literárias prediletas, muito ao contrário. Mas o formato diferenciado ou, mais especificamente, inusitado desta autobiografia chamou minha atenção e despertou minha curiosidade. E devo afirmar que não me arrependi de lê-la. Aliás, recomendo-a fortemente.


 
 
Sobre a autora
Alison Bechdel nasceu em 1960 em Lock Haven, no estado da Pensilvânia. Desde 1983, desenha a tira Dykes to Watch Out For, publicada em diversos jornais alternativos, traduzida para várias línguas e compiladas em uma bem-sucedida série de livros.

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Drops » Imaginários

coded by ctellier | tags: , , , | Posted On domingo, 26 de agosto de 2012 at 19:20

meteorologia: sol, calor e ar seco
pecado da gula: misto quente
teor alcoolico: 1 east indian pale ale
audio: dannycast #112
video: bones

"Imaginários"
Organizado por Tibor Moricz, Saint‑Clair Stockler e Eric Novello

Quem acompanha o blog já deve ter percebido que o Desafio Literário (quase) foi pras cucuias - seja lá qual for a origem desse termo. Digo quase, pois ainda tenho um fiozinho de esperança de retomá-lo antes do ano acabar.

O que aconteceu foi que minha fila de leitura foi totalmente subvertida. Não terminei de ler o livro de maio, "Os irmãos Karamazov". Iniciei o segundo volume, mas fui "atraída" para a leitura de um livro de física de um autor já meu conhecido - "A realidade oculta", de Brian Greene. Depois disso, o que se viu foi uma sucessão de livros cortando a fila. "Geração Subzero", "Granta" e "Alice: Edição comentada" - que ainda não terminei (nem um nem outro), "A Captura de Cérbero" e "O Incidente da Bola de Cachorro" - que li durante a espera numa fila da bienal (post aqui) e, finalmente, "Imaginários".

Este último é uma coletânea de "contos de fantasia, ficção científica e terror" (conforme a capa), todos de autores brasileiros.

  • "Coleira do amor", de Gerson Lodi-Ribeiro
    ficção científica
  • "Eu, a sogra", de Giulia Moon
    fantasia urbana
  • "Veio... novamente", de Jorge Luiz Calife
    ficção científica
  • "A encruzilhada", de Ana Lúcia Merege
    fantasia medieval
  • "Por toda a eternidade", de Carlos Orsi
    ficção científica
  • "Twist in my sobriety", de Flávio Medeiros
    ficção científica
  • "Um toque do real: óleo sobre tela", de Roberto de Sousa Causo
    fantasia
  • "Alma", de Osíris Reis
    ficção científica
  • "Contingência, ou Tô pouco ligando", de Martha Argel
    ficção científica
  • "Tensão Superficial", de Davi M. Gonzales
    fantasia
  • "Planeta Incorruptível", de Richard Diegues
    ficção científica

Apesar de me lembrar de ter lido algo a respeito em algum blog literário (não lembro qual), não estava na minha "lista de compras". Vi-o, aliás, vi toda a coleção exposta no estande da Vermelho Marinho. Gosto muito de coleções, assim como gosto muito de contos e ficção científica - "all in one". Mas resisti à tentação e comprei apenas o volume 1, para um test-drive - queria ver se o tom e o estilo das estórias eram do meu agrado antes de levar todos pra casa. Bem, antes mesmo de ter lido todos os contos, já estava decidida a ler os outros volumes (cinco no total).

Não é minha intenção resenhar todos os contos. Para quem se interessar, há duas boas resenhas no Aguarrás e no Leitora Viciada. Não concordo 100%, mas ambas dão uma boa ideia sobre o conteúdo do livro. Os textos de que mais gostei foram: "Coleira do amor", "Eu, a sogra", "Twist in my sobriety" e "Por toda a eternidade". Os demais são bons também, mas havia algo na forma, na estrutura ou na ideia em si que deixavam a desejar.

Enfim, vale a leitura. Pretendo ler os demais, mas não agora, pois minha fila continua gigante.

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Drops » On the road

coded by ctellier | tags: , , | Posted On domingo, 5 de agosto de 2012 at 16:20

meteorologia: nublado
pecado da gula: esfihas
teor alcoolico: 1 flensburger pilsener
audio: quadrimcast #26
video: london 2012 - maratona feminina

On the road (Na estrada) - 2012
Roteiro: Jose Rivera
Direção: Walter Salles

Sinopse:
A vida do jovem escritor Sal Paradise é sacudida pela chegada de Dean Moriarty, um jovem libertário e contagiante, a Nova York. Juntos, Sal e Dean cruzam os EUA.
Fonte: Guia da Folha - Cinema

Minha segunda incursão não programada ao cinema foi bem mais satisfatória.
"On the road" é baseado no livro homônimo de Jack Kerouac que, durante muito tempo, foi considerado "infilmável". E, indo assistir a este filme, contrariei duplamente meus princípios: fui ao cinema totalmente sem planejamento prévio e assisti ao filme antes de ler o livro - mesmo sabendo que este (o livro) está no meu desafio literário. Contudo, não me arrependi.

Já que, como acabei de falar, ainda não li o livro, não tenho como saber se foi uma boa adaptação da obra. Sei que o protagonista, Sal, é o alter-ego do autor, assim como alguns personagens são referências a amigos do escritor. Sei que a estória é praticamente autobiográfica, narrando as andanças do autor e sua vivência da geração beat. E sei que o texto é escrito sem parágrafos e quase sem pontuação, num fluxo de pensamento que refletiria o modo como a estória seria narrada verbalmente pelo personagem - há uma referência a isso numa das cenas finais do filme. O pouco que sei está no filme, mas certamente há muito mais.

Não ficou muito claro no filme - e não sei se fica no livro - qual a relevância da geração beat. Aliás, a menos que se saiba que aquela é a geração beat, não há como identificar que houvesse uma "corrente cultural" em que aqueles jovens estivessem imersos. O que parece - e espero que no livro não seja assim - é que são apenas um bando de moças e rapazes que passeiam de carro pelo país, buscando aventuras e diversão, bebendo (muito), se drogando (muito) e praticando sexo (muito). "Sexo, drogas e jazz, muito jazz". Tem-se a impressão de que são totalmente inconsequentes, principalmente Dean Moriarty.

E há que se destacar a atuação de Garrett Hedlund, como Dean. A atuação é tão convincente que dá vontade de expressar verbalmente a irritação com o fato de ele ser um "fanfarrão", que faz uso do seu charme para conseguir tudo o que quer de todos. Mas em alguns instantes, a expressão do personagem dá a entender que ele não está assim tão satisfeito com seu modo de levar a vida. Que há mais por trás daquele olhar cafajeste. Sam Riley (não sei por quê, mas eu o acho parecido com o DiCaprio mais novo), como Sal, também está bem, mas fica meio apagado ao contracenar com Hedlund ou Viggo Mortensen. E mesmo Kristen Stewart, consegue nos fazer esquecer da atuação insípida na série Crepúsculo.

Achei o filme longo, fiquei impaciente na última meia hora de exibição. Achei que algumas das subtramas, estorietas dos personagens que Sal encontra em suas viagens, poderiam não ter sido tão extensas. Mas, provavelmente, se tivesse lido o livro, não incomodaria. Apesar disso, saí do cinema satisfeita e pretendo rever o filme depois de ler o livro.


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42 students remaining

coded by ctellier | tags: , | Posted On segunda-feira, 7 de maio de 2012 at 18:49

meteorologia: friozinho
pecado da gula: pão doce
teor alcoolico: nada ainda
audio: contra-relógio no ar #50
video: fringe

Battle Royale
Koushun Takami

Este foi o livro do mês de abril, do Desafio Literário.
Antes de mais nada, sinto-me na obrigação de avisar que li a versão em inglês já que, infelizmente, não existe uma versão traduzida para o português. Meu inglês é bom, mas está longe de ser perfeito, não tenho domínio completo do idioma. Sendo assim, possivelmente, ou melhor, certamente, alguns detalhes da trama passaram despercebidos. Entendam, quando leio num idioma que não é o nativo (português ou francês), há vários termos que desconheço, mas sigo lendo e entendendo o sentido das frases pelo contexto. Eventualmente, quando não consigo ou quando alguma palavra me chama a atenção, recorro a um dicionário.

(Um parênteses, já escrevi aqui no blog sobre minha preferência por livros em papel. Mas lendo este, pela primeira vez vi que haveria vantagem se eu estivesse lendo a versão eletrônica num e-book. A possibilidade de marcar as palavras desconhecidas e ir procurando o significado à medida que a leitura avança realmente é um ponto a favor desse formato.)

Adicional ao idioma do exemplar que eu estava lendo, houve outra pequena dificuldade. O livro foi escrito originalmente em japonês e confesso que a falta de familiariadade com a língua gerou uma certa confusão na hora de memorizar os nomes dos personagens. Por várias vezes, confundi-me e tive de reler alguns trechos pois achava que o autor se referia a um aluno, quando na verdade era a outro. Contudo, apesar dos percalços, a leitura foi mais que satisfatória. Realmente acima da expectativa.

Antes de continuar, uma sinopse:
Em um futuro não muito distante, num Japão imperialista (no livro chamado de Grande Republica do Leste Asiático), os jovens tornam-se rebeldes demais - do ponto de vista do governo. É criada uma lei chamada “Ato BR” (ou “O programa”), sob o pretexto de cumprir uma demanda social, quando na verdade o intuito é aterrorizar a população e conter essa onda reacionária. Essa lei define que uma classe de alunos do 3o. ano será sorteada aleatoriamente, sendo “sequestrada” e levada a um local isolado (uma ilha), para participar de um jogo transmitido parcialmente pela tv, em que devem matar uns aos outros até que reste apenas um. Neste ano, a classe de Shuya Nanahara é a sorteada. Os 42 alunos (21 rapazes e 21 moças) são soltos na ilha apenas com a roupa do corpo (o uniforme), sua mochila de estudante e uma bolsa contendo alguns mantimentos, água, um mapa da ilha e uma arma qualquer (que pode ir de uma tampa de panela a uma Uzi). A ilha é dividida em quadrantes que se tornam “proibidos” em determinados horários. Todos os alunos portam um colar que, além de conter um rastreador indicando sua posição, contém um dispositivo explosivo. Caso um aluno esteja numa zona proibida, o colar explode. Caso alguém tente fugir da ilha, o explosivo do colar também é ativado. Caso ninguém morra durante 24 horas, colares explodem aleatoriamente. E, como o jogo tem um prazo para terminar, caso em 72 horas não haja um vencedor, todos os colares remanescentes serão acionados.

Soou familiar? Se o leitor pensou em “Jogos vorazes”, de Suzanne Collins, bem... Não há como negar, a semelhança nas linhas gerais da trama é quase comprometedora. É lógico que o autor, Takami, não tirou esse plot da cartola. Pessoas, crianças, adolescentes sacrificados pelo bem da sociedade não são novidade - vide os jovens (7 rapazes e 7 moças) sacrificados ao Minotauro. Afinal, o leitor contumaz tem consciência de que todas as estórias já foram contadas. Não existe mais a possibilidade de se criar algo totalmente original. Mas há sempre um modo diferente de se contar a mesma estória. E foi o que fez Takami. Já Collins, mesmo afirmando ter tirado sua inspiração dos jogos de gladiadores, da popularidade dos reality shows, não me convence que não tenha lido “Battle Royale” (o livro ou o mangá) e de lá extraído suas ideias.

Desconhecia a existência deste livro até ler uma resenha de “Jogos vorazes”, no blog Leitura Escrita, da @anacarolinars. Depois disso, li em vários sites e blogs que “Jogos vorazes” é uma versão light de “Battle Royale”. Concordo em parte. Apesar de a sinopse de ambos ser bem semelhante, o enfoque é bem distinto. Collins floreou e amenizou bastante a trama original, tornando-a palatável para os padrões norte-americanos. Gostei do livro dela (post aqui), mas o texto de Takami é muito mais cru e visceral, o que contrasta com o modo quase suave como a narrativa flui, deixando o livro extremamente envolvente. O intuito deste post não é comparar os dois. Mas, eventualmente, algumas comparações serão inevitáveis.

Como comentei anteriormente, gostei de “Jogos vorazes”. É um bom livro YA. Nem mesmo a narração em primeira pessoa compromete muito o desenrolar da estória. Mas ainda assim, “Battle Royale” tem alguns trunfos que o tornam superior e de leitura muito mais empolgante. Um pequeno detalhe que certamente faz o leitor avançar na leitura, quase compelido a continuar, é a contagem a cada final de capítulo. Ao término de cada um havia: “N students remaining”, com N sendo substituído pelo total de estudantes ainda vivos. Várias vezes me peguei espiando o capítulo seguinte, para saber se haveria alguma fatalidade. E muitas vezes continuei a leitura ao ver que a quantidade diminuíra, confesso. Eu sei, soa mórbido, mas é natural querer saber se aquele personagem que o leitor acabou de aprender a gostar, continua vivo até o fim do próximo capítulo.

O que me leva a outra característica que torna o livro muito bom: os personagens. Muito bem construídos, verossímeis e não só isso. Até os personagens que são aparentemente secundários são carismáticos o bastante para conquistar o leitor e fazer com que o seu destino passe a importar. Utilizando-se de flashbacks e fluxos de consciência, o autor leva o leitor a conhecer um pouco do passado e do caráter de cada um dos estudantes, entendendo as motivações de cada um. E o essencial, ninguém é 100% bandido ou mocinho, o que deixa tudo ainda mais convincente, já que no dia-a-dia todos somos gradações desses arquétipos. Algo que acredito enriquecer bastante a trama é o fato de que, diferente de “Jogos Vorazes”, os jovens eram colegas de escola. Boa parte deles se conhecia desde a infância. O que torna a decisão de tomar parte no jogo (ou não) ainda mais conflituosa. Não é apenas sobreviver, sendo obrigado a matar outras pessoas. Trata-se de sobreviver sendo obrigado a matar pessoas com que se conviveu durante muito tempo. Amigos de infância, colegas de treino, namorados. E não há apenas o conflito sobre matar ou não. Há a eterna questão sobre quem é confiável. O quanto cada um conhece dos demais para saber em quem confiar? E esses dilemas são explorados pelo autor de modo bastante eficaz. Tanto que durante a leitura, é frequente o leitor parar e se perguntar “E se fosse comigo?”.

Houve certa polêmica ao redor do livro devido à violência extrema presente no texto. É inegável que as cenas dos assassinatos são descritas de modo bastante detalhado. E, dada a variedade de armas distribuídas aos estudantes, há mortes das mais diversas maneiras. Em “Jogos Vorazes”, como a narração é em primeira pessoa, são descritas apenas as mortes testemunhadas pela personagem, daí a diferença. Neste, todas são narradas, com extrema crueza e riqueza de detalhes. E sou obrigada a parabenizar o autor pela criatividade. Exceto pelas mortes por armas de fogo, em que não há muito o que “inventar”, as demais foram engendradas de modo bastante criativo.
(Spoilers à frente) Para leitores mais observadores, a ausência de detalhes nas mortes que definem o ganhador do jogo, são um bom indício do que realmente aconteceu e do que virá a seguir.

O livro, lançado em 1999, foi adaptado para duas outras mídias: cinema e mangá. O mangá possui 15 volumes, dos quais apenas 12 foram publicados aqui no Brasil. O filme, de 2009, não é tão fiel ao livro. É compreensível, já que transcrever quase 600 páginas em 2 horas de filme não é tarefa das mais simples. Além disso, o diretor e o roteirista optaram por dar mais destaque a alguns personagens e enfatizar a crítica a sociedades anti-democráticas e opressoras. E há ainda um agravante: a performance dos atores japoneses parece histérica demais aos nossos olhos ocidentais, o que atrapalha a imersão no universo da estória. O filme não é ruim, mas deixa a desejar para o espectador que também leu o livro.

Enfim, indico a leitura, mesmo para os que não tem muita intimidade com a língua inglesa. Aliás, ler um texto tão instigante é ótimo para combater a vontade de interromper a leitura, e ainda aprender algumas palavras novas (agora eu sei o que é “nunchucks”). Para quem leu e gostou de “Jogos Vorazes”, não é preciso deixar de gostar. Mas “Battle Royale” é, certamente, a “versão original sem cortes” que merece ser conferida.

P.S.: como sempre o Google matou minha curiosidade acerca do título do livro. O nome veio de uma modalidade de combate do tempo dos gladiadores de Roma. Bem no estilo Highlander, todos era colocados na arena e deveriam combater entre si até que restasse apenas um.

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"Calix meus inebrians"

coded by ctellier | tags: , | Posted On quinta-feira, 5 de abril de 2012 at 00:46

meteorologia: nem calor nem frio
pecado da gula: feijoada
teor alcoolico: 2 smirnoff ice
audio: contra-relógio no ar
video: mundo de beakman

O andarilho (Vagabond)
Bernard Cornwell

Cheguei ao final do mês sem ter terminado de ler o livro proposto do Desafio Literário. E eu no domingão, primeiro de abril, sem nem lembrar de inventar alguma peça para pregar em alguém, fiquei quase o dia todo fazendo uma das atividades que mais me agrada: lendo. Terminei o livro uns 10 minutos antes de a segunda temporado de Game of Thrones se iniciar na HBO - mas a série é assunto para outro post.

Manipulei o desafio a fim de encaixar este livro. A proposta do mês de março era “Lendas universais”. Forcei um pouquinho ao considerar a lenda do Graal como universal, mas está valendo. O intuito de ler um livro por mês foi atingido. E minha vontade de continuar lendo a trilogia “A Busca do Graal” foi saciada. “O andarilho” é o segundo volume dessa trilogia. Li o primeiro - “O arqueiro” - já há algum tempo. Assim que o li, procurei o segundo volume nas livrarias e não o encontrava. Depois de algum tempo, adquiri-o, mas estava lendo outro e assim, o livro foi ficando para o final da fila - problema resolvido com sua inclusão no desafio.

Para aqueles que - assim como eu - se encantaram e se deliciaram com o primeiro volume principalmente devido à narração bastante crua e detalhada de guerras, lutas e contendas, certamente acharão o segundo volume bem menos empolgante. A ação ocorre de maneira bem mais lenta, até contida. Nos dois primeiros terços do livro, quase não há lutas - e as que ocorrem não são muito grandiosas, o que talvez desanime alguns leitores - eu inclusive. Mas persisti. E fui recompensada. O último terço mostrou-se tão interessante quanto a narrativa do primeiro volume.

Sinopse (fonte: www.siciliano.com.br):
A série Em busca do Graal traz como cenário a Guerra dos Cem Anos, um conflito dinástico iniciado em 1337, com Eduardo III reivindicando a coroa da França, e que terminou com a tomada de Bordeaux pelos franceses, em 19 de outubro de 1453. As tramas, os homens e as histórias por trás da luta pela coroa francesa confirmam Cornwell como um dos principais escritores históricos da atualidade.
Neste novo romance, a aventura começa em 1346. Os ingleses invadiram a França e os escoceses a Inglaterra. São tempos incertos e obscuros, e o primeiro que encontrasse o Santo Graal - uma espécie de tesouro guardado por anjos e procurado por demônios - seria considerado vitorioso.
Thomas de Hookham, jovem arqueiro inglês, que aos 18 anos viu o pai morrer em seus braços após um ataque de surpresa, deixa a França, seguindo para as Ilhas Britânicas em busca do cálice e do assassino de seu progenitor. Filho bastardo do homem que dizem ter chegado mais perto que qualquer outro do cálice, Thomas tem uma grande e secreta vantagem sobre todos. Um diário escrito em latim, hebraico e grego - uma espécie de código - deixado por seu pai, que parece conter informações sobre o esconderijo do tesouro.

Especialista em história militar, Cornwell é conhecido por conseguir mesclar muito bem fatos históricos e ficção. E a trilogia do Graal não é diferente. Alterando o período em que costumeiramente a busca pelo Graal é situada - período arturiano - e tirando proveito da lenda de que hereges cátaros tiveram a relíquia em seu poder, consegue construir uma narrativa atraente e bastante sedutora, apesar da crueza e do tom extremamente realista de algumas descrições - talvez justamente por esses motivos, seja tão atraente para boa parte dos leitores.

Neste livro, mesmo os dois terços iniciais não tendo tanta ação, valem a leitura pela aula de história. Os detalhes sobre a Igreja e a Inquisição são bem explorados e garantem alguns bons momentos da estória. O trecho abaixo é um bom exemplo, ótima introdução para o que vai se seguir na estória:

A inquisição, tal como a ordem de frades dominicanos, era dedicada à erradicação da heresia, e para isso empregava fogo e sofrimento. Eles não podiam derramar sangue, porque isso era contra a lei de Deus, mas qualquer sofrimento provocado sem derramamento de sangue era permitido, e a inquisição sabia bem que o fogo cauterizava o sangramento e que a tortura não perfurava a pele de um herege e que grandes pesos colocados sobre o peito de um homem não rompiam veia alguma.

A tríade “sangue, suor e fezes”, forma carinhosa a que os fãs de Cornwell se referem à sua maneira de escrever, está ali como sempre. A crueza e a violência não deixam de se fazer presentes mesmo quando a narrativa se arrasta um pouco, entre uma luta e outra. Mas o último terço do livro compensa tudo. A espera é recompensada com a narração de mais uma batalha que simplesmente impede o leitor de abandonar a leitura antes de terminar. Até chegar a esse trecho eu tinha dúvidas se seria capaz de terminar a leitura antes de findar o domingo. Mas depois, a única preocupação era terminar antes das 22:00 - horário de exibição de Game of Thrones - simplesmente para não ter de interromper a leitura.

Terminei de ler o livro bastante satisfeita. Satisfeita comigo, por ter cumprido o desafio, mesmo que com um dia de atraso. Satisfeita com o livro, que me deixou com vontade de ler logo o terceiro volume da trilogia.


(*) tradução do título: "Meu cálice me embriaga" (brasão da família Vexille)

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A esfinge

coded by ctellier | tags: , | Posted On quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012 at 19:07

meteorologia: calor, sem chuva até agora
pecado da gula: pão de queijo
teor alcoolico: nada ainda
audio: riverdance
video: life on mars

Clarice, (Why this world)
Benjamin Moser

Quem me conhece, ou melhor, quem conhece meu apetite literário sabe que meu gosto é variado. Indo de sci-fi a literatura fantástica, de suspense a policial, de clássicos a relatos de viagem, passando por física, astronomia e neurociência. Leio qualquer coisa. Nem que seja para falar mal depois. Mas há algumas seções nas livrarias que eu nunca ou raramente visito. Auto-ajuda, psicologia e biografias estão entre elas. Imagino que, neste momento, alguns leitores devem estar se perguntando “então por que cargas d’água este post é sobre a biografia de Clarice Lispector?”

Explico-me. Confesso que a compra foi feita totalmente por impulso. Havia acabado de ler “Clarice na cabeceira” (post aqui) e vi em alguma revista algo sobre o lançamento dessa biografia, mas não cheguei a ler qualquer resenha. Numa das minhas excursões à Fnac, o livro estava exposto ostensivamente. Tão ostensivamente que me foi impossível resistir à vontade de tê-lo em mãos. E é preciso reconhecer, a edição é primorosa. Qualquer leitor inveterado se encantaria. Capa-dura, papel pólen e aquelas fitinhas marcadoras de página. Enfim, impecável, praticamente impossível de resistir. E foi o que ocorreu. Eu não resisti e comprei. Não me arrependi da compra, mas fiquei longamente ponderando que era bem alta a probabilidade de eu nunca vir a ler - ou, se iniciasse a leitura, de eu não terminar.

Antes de continuar e falar sobre o livro e minha experiência ao lê-lo, gostaria de esclarecer o motivo pelo qual biografias não me atraem. Eu sou extremamente reservada. Minha vida pessoal é literalmente isso “pessoal e intransferível”. E, assim como não gosto de me expôr, pouco me atrai saber detalhes da vida pessoal dos demais. E considero ler biografias como algo bastante invasivo. Independente de quem seja o objeto do meu interesse, meu interesse é essencialmente pela obra - literária, musical, científica. É indiferente se a pessoa em questão só se vestia de azul, se perdeu o primeiro dente de leite ao cair de bicicleta, se só fumava charutos de determinada marca, se tricotava meias ou se bebia apenas uísque com soda antes do jantar. Para mim, é irrelevante esse tipo de informação. É lógico que compreendo que alguns fatos marcantes da vida da pessoa certamente tenham tido influência em sua obra, contudo não me interessa ir além disso. Entendo e respeito quem gosta desse estilo literário, mas ele simplesmente não é para mim.

Apesar de minhas ressalvas ao estilo, aproveitei o Desafio literário para incluir o livro na lista, obrigando-me ao menos a iniciar a leitura. Fevereiro chegou e eu estava disposta a encarar o desafio - literalmente. Já que eu não havia lido nada sobre a biografia, minha primeira “surpresa” foi perceber que o autor não era brasileiro. Achei bastante interessante o fato de Clarice ser tão conhecida internacionalmente a ponto de um autor norte-americano decidir escrever sua biografia. Sou fã da obra de Clarice, sei o quanto ela é reconhecida no Brasil - mas incomoda-me o uso abusivo que fazem de seus textos em redes sociais, além de atribuir-lhe citações que simplesmente nada têm a ver com ela. E, ao notar que este livro vinha “de fora”, senti aquela pontinha de orgulho ufanista ao perceber que sua obra transcedeu as fronteiras do idioma e fez sucesso em outros países.

O título nacional, a princípio, deixou-me intrigada. Mas lembrei-me depois de ter lido em algum artigo que uma de suas obras, “Uma aprendizagem”, inicia-se com uma vírgula e, possivelmente a vírgula do título seja uma referência. Na introdução do livro, encontrei a melhor descrição de Clarice que já li. Havia lido em vários textos o comentário do tradutor Gregory Rabassa, que afirma que Clarice “era parecida com Marlene Dietrich e escrevia como Virginia Woolf”. Mas esta não faz jus à complexidade de Clarice. A declaração da escritora francesa Hélène Cixous é, de longe, a melhor:
“Clarice Lispector era o que Kafka teria sido se fosse mulher, ou se Rilke fosse uma judia brasileira nascida na Ucrânia. Se Rimbaud fosse mãe, se tivesse chegado aos cinquenta. Se Heidegger deixasse de ser alemão”.

Foi a introdução que me levou a crer que talvez eu conseguiria terminá-lo, caso o tom da narrativa se mantivesse aquele. E, várias vezes, enquanto avançava na leitura, comentei com um amigo o quanto estava surpresa por chegar tão longe. Cem, duzentas, trezentas páginas lidas e eu ainda não tivera uma vez sequer o impulso de abandoná-lo. Com certeza, o que me reteve foi o fato de o autor abordar os acontecimentos da vida de Clarice a partir de suas obras.

Apesar de alguns trechos - que eu apelidei de aulas de história - serem mais extensos do que eu gostaria, o texto não é cansativo. Entendo que seja necessário situar a persona num contexto histórico, mas História não é algo do meu interesse. Sendo assim, esses trechos do livro foram os que mais me entediaram e não tenho vergonha alguma em admitir que li-os aos pulos, saltando alguns tantos parágrafos. Porém, quando a narrativa voltava-se novamente para Clarice e a encaixava no contexto, a leitura passava a fluir novamente.

Além disso, a enorme quantidade de citações de trechos de romances, crônicas, contos, entrevistas, colunas foram um atrativo e tanto. Conhecer alguns detalhes de obras que eu ainda não li foi muito bom, além de servir para me deixar ainda mais propensa a lê-las. E não há como negar, Moser escreve bem. Sua narrativa é envolvente. E, mesmo incluindo detalhes mais íntimos da vida de Clarice (que me deixaram com a sensação momentânea de estar lendo a revista "Caras"), conseguiu manter meu interesse até o final. Percebe-se pelo tom da escrita o quanto ele respeita e admira tanto a obra quanto a pessoa de Clarice Lispector. Isso transparece no modo deferente como ele aborda cada uma das etapas de sua vida, e também no cuidado na escolha dos títulos dos capítulos.

É claro que achei interessante tomar conhecimento de alguns fatos - a veracidade de um de meus contos prediletos, “Felicidade clandestina”, ou como ela sobreviveu a um incêndio em seu apartamento, ou seu relacionamento com alguns autores que também admiro. Mas ainda assim, minha opinião, como fã, não se alterou. Não há como negar que o fato de ter perdido a mãe muito nova, de ter tido uma infância paupérrima no Recife ou de ter encarado a vida de esposa de diplomata sejam acontecimentos que se refletiram em sua obra. Mas saber disso não alterou o quanto eu gosto de seus escritos nem o quanto admiro o modo como expõe a alma feminina neles (nem para mais nem para menos). A leitura valeu principalmente por poder conhecer mais da sua obra. E, apesar do meu receio inicial, eu gostei muito do livro. Mérito do autor.

Enfim, se você gosta de biografias ou se gosta de Clarice Lispector, é uma ótima sugestão de leitura. Eu indico.


    Veja também:
  • Entrevista com Clarice Lispector
    No programa Panorama Especial, transmitida pela TV Cultura em 1977
  • Leitura de "Felicidade clandestina"

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"Winter is coming"

coded by ctellier | tags: , | Posted On quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012 at 21:21

meteorologia: chuva de verão (que verão?)
pecado da gula: quindim
teor alcoolico: 2 smirnoff ice
audio: braincast
video: dexter

Desafio literário - Jan/2012 – Literatura Fantástica

A Game of Thrones, George R. R. Martin
A Song of Ice and Fire #1
(A guerra dos tronos
As crônicas de gelo e fogo - livro 1)


Desde que vi pela primeira vez o volume 1 desta coleção, eu me encontro num dilema. Vi-o na prateleira da livraria, interessei-me pela capa, peguei o livro, li a contracapa, a segunda orelha, folheei-o e resisti bravamente à tentação de adquiri-lo.

Ao procurar mais informações sobre a obra e o autor, descobri que a coleção já contava com 3 volumes publicados, num total de 7 previstos. Isso me desanimou na hora. Os livros têm, em média, 600 páginas e eu não estava muito disposta a encarar a leitura dos já publicados e ainda aguardar a publicação dos demais - por mais interessante que me parecesse a estória. Descobri ainda, que a HBO estava produzindo uma série de tv baseada nos livros. Foi a gota d’água para eu desistir de bom grado dessa leitura.

Mas, nem sempre acontece o que planejamos. Minha resolução foi arruinada no meu último aniversário, ao ser presenteada com o livro por um amigo muito estimado. Não que eu esteja reclamando, eu adorei o presente. Tinha-me convencido a não comprar e, portanto, abdicado da leitura. Mas já que era um presente, não havia mal algum em lê-lo. Aliás, ansiava pelo início da leitura.

O livro foi para a fila, já que na época já tinha outros iniciados. Porém, comecei a assistir a série. O que me deixou novamente num dilema. Estava muito a fim de ler o livro, afinal tinha despertado bastante meu interesse e, além disso, tinha sido um presente. Mas a série é tão boa e, segundo os que já haviam lido, tão fiel à obra que fez esmorecer minha vontade de lê-lo. O impasse foi resolvido ao ver um post da @anacarolinars, do site Leitura Escrita, sobre um desafio literário para 2012. Topei o desafio (post aqui) principalmente para fazer andar minha fila de livros não lidos, começando por este.

Bom, terminei de lê-lo ontem, graças a um chá de cadeira na sala de espera do ortopedista. Agora, vamos às minhas considerações. Sei que tendemos a sempre julgar como melhor o livro mais recente. Mas este é, sem sombra de dúvida, um dos melhores livros de fantasia que li nos últimos anos. São inevitáveis as comparações a Tolkien. Pela grandiosidade da obra (em tamanho mesmo). Pelo uso das iniciais no nome (impossível não lembrar disso). Pela diversidade de personagens. Pela ambientação num mundo que parece mas não é o nosso. Pela presença dos mapas dos reinos e da genealogia detalhada dos personagens. Porém, no meu entender, as similaridades terminam aí. Não corroboro da opinião dos que consideram J.R.R.Martin como o Tolkien americano.

O texto de Tolkien é quase contemplativo, com extensas descrições e uma imensidão de detalhes que consegue imergir o leitor no ambiente. No entanto, é um estilo que chega a ser cansativo em alguns momentos, apesar de a trama ser fascinante. Em contrapartida, o texto de Martin é voltado ao movimento, às ações. É bastante perceptível a experiência do autor como roteirista. Basta assistir à série e ver que algumas cenas e diálogos foram transpostas ipsis literis do livro para a tela. A narrativa do livro é estruturada basicamente como um roteiro de filme. Situa-se a ação - quando e onde -, informa-se quem participa e segue-se a ação/diálogo em si. Lógico que nada tão sintético assim. Mas é como se fosse um roteiro escrito em prosa. E a escrita de Martin é muito fluida, conduzindo o leitor de conflito em conflito, raramente deixando cair o ritmo da narrativa.

Outra característica da obra, que a torna bastante interessante - eu, particularmente, gosto muito deste recurso - é a utilização de vários pontos de vista. Mesmo sendo narrada em 3a.pessoa, vemos a trama se desenrolar através dos olhos de personagens diferentes a cada capítulo. Não é como em “Rashomon”, de Kurosawa, em que cada personagem conta sua versão dos mesmos fatos. A cada capítulo, seguimos a estória pelo ponto de vista de personagens diferentes. Essa técnica, além de tornar a narrativa bastante dinâmica - já que a alternância de personagens nos faz querer continuar até que aquele personagem apareça novamente - permite ao leitor conhecer alguns deles com mais profundidade. Note-se que nem todos têm a honra de ser “o personagem da vez”. Neste volume, seguimos os passos de oito deles:
- alguns membros da família Stark: Eddard (Ned), Catelyn, Arya, Sansa, Bran e Jon Snow (filho bastardo de Ned)
- Daenerys Targaryen
- Tyrion Lannister (na minha opinião, o personagem mais interessante)

Mais um detalhe em que Martin difere de Tolkien: ninguém é 100% bandido ou mocinho. Quem parece ser bom pode ter um defeito, um pecado, um segredo macabro, ser capaz de em algum momento agir apenas em proveito próprio. Quem é mau pode ter uma qualidade, um dom, ser capaz de agir pelo bem alheio. Em Westeros, vale o mote: “Nunca diga nunca”. Enfim, os personagens são menos idílicos que os de Tolkien. Há violência, sexo, palavrões, assassinato, incesto. Não há floreios ou meias-palavras.

Além disso, a trama de Martin tem muito mais teor político do que a de "The lord of the rings". Há um enfoque maior nas intrigas da corte, na politicagem, na troca de favores, nas alianças, nos jogos de interesse. Não deixa de ser literatura fantástica, afinal, mesmo a trama sendo bastante realista, há dragões, bruxarias, deuses, fantasmas e o povo além da Muralha - que ainda nem sabemos quem ou o que são.

A única ressalva ao livro é a tradução, adaptada ao português brasileiro a partir da edição portuguesa. Nada que interfira demais, mas em alguns momentos certas expressões soam meio estranhas aos olhos do leitor. Parece que a editora deu ouvidos aos comentários dos leitores e dispensou uma atenção maior a esse detalhe nos volumes seguintes da coleção.

Minha fila de leitura continua tão grande que tão cedo não devo me aventurar a ler os demais. Principalmente, porque a série retorna, com a segunda temporada, no início do mês de abril.

Enfim, recomendo.
Quem curtir e tiver disponibilidade, pegue um final de semana chuvoso e leia quase tudo de uma “sentada” só. É diversão garantida.

P.S.: Sem ser ufanista... A capa da edição nacional dá de dez a zero na edição original (antes da exibição da série). Depois, utilizaram uma foto de Ned Stark, mas ainda assim prefiro a capa da edição brasileira.

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Desafio literário

coded by ctellier | tags: , | Posted On segunda-feira, 5 de dezembro de 2011 at 20:14

meteorologia: frio e garoa... cadê o calor???
pecado da gula: bombom com avelã
teor alcoolico: 1 smirnoff ice
audio: podcast pipoca e nanquim 53
video: breaking bad

Depois de ler este post no Leitura Escrita, cheguei à conclusão de que a sugestão do Desafio Literário seria uma ótima oportunidade para (tentar) zerar minha fila de leitura. A ideia é ler um livro por mês, o que não é difícil. Mais difícil é resistir às tentações e não adquirir outros.

O primeiro desafio foi listar todos os livros ganhos ou adquiridos, e não lidos, espalhados pela casa. O segundo, conseguir encaixar os itens da minha lista nos temas de cada mês. E não foi possível. Consegui apenas quatro. Então desencanei e alterei os demais temas a fim de adaptar a lista aos meus livros.

E ficou assim:

Jan/2012 – Literatura Fantástica
Guerra dos Tronos
J.R.R.Martin

leitura ✔
post ✔
"Winter is coming"





Fev/2012 – Nome Próprio (de pessoas)
Clarice,
Benjamin Moser

leitura ✔
post ✔
A esfinge





Mar/2012 – Lendas universais
O andarilho - Trilogia do Graal (vol.2)
Bernard Cornwell

leitura ✔
post ✔
"Calix meus inebrians"





Abr/2012 – Escritor(a) oriental
Battle Royale
Koushun Takami

leitura ✔
post ✔






Mai/2012 – Escritor(a) russo(a)
Os irmãos Karamazov
Fiodor Dostoievski

leitura
post






Jun/2012 – Livro que virou desenho animado
As viagens de Gulliver
Jonathan Swift

leitura
post






Jul/2012 – Neurociência
Do que é feito o pensamento
Steven Pinker

leitura
post






Ago/2012 – Terror
Shining
Stephen King

leitura
post






Set/2012 – Geração Beat
On the road
Jack Kerouac

leitura
post






Out/2012 – Graphic Novel
Fun Home
Alison Bechdel

leitura
post






Nov/2012 – Livro que virou filme
Contato
Carl Sagan

leitura
post






Dez/2012 – Policial
Sherlock Holmes - Edição completa
Arthur Conan Doyle

leitura
post






Lendo esses 12, ainda restam 14, que eu tenho certeza serão acrescidos por várias compras por necessidade, ou melhor, impulso. Já que, para quem ainda não percebeu, além de leitora eu sou uma colecionadora de livros compulsiva. E, para completar, estou certa de que algum deles vai acabar furando a fila e sendo lido antes do previsto.

P.S.: A intenção é, não apenas ler mas também, escrever um post sobre cada livro lido. Acho que esse é o desafio maior.

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