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Drops » The book thief

coded by ctellier | tags: , , | Posted On sexta-feira, 17 de janeiro de 2014 at 23:47

meteorologia: chuvas de verão
pecado da gula: pizza
teor alcoolico: 1 murphy's red
audio: cup song in gaelic
video: corrida no ar

The book thief (2013) - A menina que roubava livros
roteiro: Michael Petroni
direção: Brian Percival
★ ★ ★ ★ ★

Sinopse:
Baseado no livro best-seller, A Menina Que Roubava Livros conta a história de Liesel, uma garotinha extraordinária e corajosa, que foi viver com uma família adotiva durante a Segunda Guerra, na Alemanha. Ela aprende a ler, encorajada por sua nova família, e Max, um refugiado judeu, que elas escondem embaixo da escada. Para Liesel e Max, o poder das palavras e da imaginação se tornam a única escapatória do caos que está acontecendo em volta deles. A Menina Que Roubava Livros é uma história sobre a capacidade de sobrevivência e resistência do espírito humano.

Mais uma adaptação de livro que decepcionou. O filme é mediano - a nota correta seria 2,5 - e a experiência de assisti-lo foi a pior que tive nos últimos anos. Acostumei-me ao sossego das cabines de imprensa, com 30 a 40 pessoas dispersas numa sala de 300 lugares, e já há algum tempo não enfrentava um cinema lotado - superlotado para ser mais exata.

Devo agradecer à Editora Intrínseca que concedeu aos blogs parceiros a oportunidade de ir assistir à pré-estreia. E a parte boa da história termina aqui. Retirei o convite com a equipe da editora por volta das 20:00. A sessão seria às 21:00 e os ingressos deveriam ser retirados na bilheteria a partir das 20:30, o que não ocorreu. Houve uma mudança da programação ou o cinema informou incorretamente como seria feito. Bom, havia uma fila gigante, que saía da entrada do Cinemark, descia a escadaria que fica em frente até o piso térreo do Market Place.

Detalhe: já que não havia ingressos, obviamente não havia lugares marcados. Depois de enfrentar a muvuca na fila e a falta de educação - infelizmente corriqueira - no local onde era distribuída a pipoca e o refrigerante de cortesia, consegui entrar na sala e encontrar um lugar razoavelmente bem posicionado. Mas minha satisfação durou pouco. À minha direita, duas senhoras que passaram quase todo o filme soltando exclamações de surpresa ou consternação e que, no final, começaram a soluçar e chorar ruidosamente. À minha esquerda, um casal que passou o filme todo tecendo comentários. Todo mundo deve conhecer pessoas assim, que assistem e vão comentando o que se passa no filme - "olha! fulano fez isso", "nossa! sicrano fez aquilo". Tive de conter a vontade de perguntar se algum deles era cego e necessitava que o outro lhe descrevesse o que se passava na tela. Para completar, o indivíduo sentado à minha frente, parecia estar com formigas dentro da cueca, já que não parava de se mexer na poltrona, obstruindo minha visão das legendas.

Como se já não bastasse isso, o filme não foi excepcionalmente bom a ponto de conseguir compensar todo esse desconforto. O livro é muito, muito bom. É um daqueles que dá vontade de reler. Seu grande trunfo é ser narrado pela própria morte, o que confere à trama um ponto de vista único, incomum. Além do narrador, o mais interessante do livro é o contraponto entre o encantamento de Liesel pela leitura e suas experiências com a morte. Há nele um quê de Fahrenheit 451 e de Precious, ao focar no poder transformador, libertador, redentor da leitura e da escrita. Devido a um roteiro que se preocupou apenas em pinçar os eventos - mas não as reflexões - que ocorrem no livro, esse enfoque se perdeu totalmente. E o filme se tornou apenas mais um (melo)drama de guerra. Uma pena.



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Top 10 - 2013

coded by ctellier | tags: , , , , , | Posted On domingo, 5 de janeiro de 2014 at 21:39

meteorologia: calor abafado
pecado da gula: chipas
teor alcoolico: nada ainda
audio: enya
video: homeland

Eu tinha pensado em fazer um post para cada categoria. Mas bateu aquela preguiça domingueira e acabou ficando um post só.

Seguem os meus eleitos.
(não estão em ordem de preferência)


Séries


  • Breaking Bad
  • Homeland
  • House of cards
  • Orange is the new black
  • Game of thrones
  • Hannibal
  • Sherlock
  • The fall
  • In the flesh
  • Les revenants



Filmes


  • Django unchained (Django)
    roteiro e direção: Quentin Tarantino
  • Amour (Amor)
    roteiro e direção: Michael Haneke
  • Prisoners (Os suspeitos)
    roteiro: Aaron Guzikowski | direção: Dennis Villeneuve
  • Before midnight (Antes da meia-noite)
    roteiro: Richard Linklater, Julie Delpy | direção: Richard Linklater
  • Killer Joe (Matador de aluguel)
    roteiro: Tracy Letts | direção: William Friedkin
  • The master (O mestre)
    roteiro e direção: Paul Thomas Anderson
  • Gravity (Gravidade)
    roteiro: Alfonso Cuarón, Jonás Cuarón | direção: Alfonso Cuarón
  • Zero Dark Thirty (A hora mas escura)
    roteiro: Mark Boal | direção: Kathryn Bigelow
  • De rouille et d'os (Ferrugem e ossos)
    roteiro: Jacques Audiard, Thomas Bidegain | direção: Jacques Audiard
  • Jagten (A caça)
    roteiro: Tobias Lindholm, Thomas Vinterberg | direção: Thomas Vinterberg

Livros

(os top 5 estão no Cafeína Literária, adicionei outros 5 para completar a lista)

  • Os homens que não amavam as mulheres – Stieg Larsson
  • Laranja mecânica – Anthony Burgess
  • O oceano no fim do caminho – Neil Gaiman
  • Primavera num espelho partido – Mario Benedetti
  • Sobrevivente – Chuck Palahniuk
  • Pantaleão e as visitadoras - Mario Vargas Llosa
  • Garota exemplar - Gillian Flynn
  • Barba ensopada de sangue - Daniel Galera
  • Deixa ela entrar - John Ajvide Lindqvist
  • Turma da Mônica - Laços - Lu & Vítor Cafaggi



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"May I come in?"

coded by ctellier | tags: , | Posted On sábado, 15 de junho de 2013 at 09:02

meteorologia: solzinho e vento frio
pecado da gula: pizza amanhecida
teor alcoolico: nada ainda
audio: máquina do mempo fusion #004
video: the fall

Låt den rätte komma in (Let the Right One In) (2008) - Deixa ela entrar
roteiro: John Ajvide Lindqvist
direção: Tomas Alfredson
★ ★ ★ ★ ★

Let me in (2011) - Deixe-me entrar
roteiro: Matt Reeves, John Ajvide Lindqvist
direção: Matt Reeves
★ ★ ★ ★ ★

Antes de mais nada, gostaria de deixar claro que este post tem mais impressões de espectadora (e leitora) e menos observações técnicas sobre o filme.

Sei - e já afirmei isso em outros textos - que um filme baseado em livro deve bastar-se como obra e que, justamente por serem mídias diferentes, não se deve esperar que o filme seja ipsis literis o livro. É inevitável que ocorram perdas e que sejam feitas alterações na transcrição. Este post não é uma comparação livro versus filme, mas filme versus remake, analisando não qual deles é uma adaptacão mais fiel do livro e sim qual conseguiu manter a essência dele, o que a meu haver é o mais importante.

Fui assistir aos dois filmes motivada pelo término da leitura do livro (resenha aqui). Assisti à versão sueca, de 2008, depois ao remake norte-americano (lógico), de 2011. E, posso afirmar, apesar de serem bem semelhantes, o clima do livro está presente apenas no segundo.

O livro é um thriller de terror dos mais eficientes, daqueles de roer as unhas e se encolher na poltrona. Sua narrativa é brutal, crua, chocante até em alguns momentos. E, em várias cenas - por já saber da existência dos filmes - parava a leitura e ficava pensando: “Powtz! Vai ser legal demais ver esta cena no filme!”. Em muitos momentos, a leitura desperta sensações de asco, estranhamento e, lógico, susto. E, na versão sueca, não há praticamente nada disso. O filme não é ruim, mas é morno, lento, quase sonolento. Enquanto que o remake, ainda que tenha mais ou menos o mesmo ritmo, consegue ter cenas mais impactantes e criar muito mais tensão.

trecho do livro
“Virginia consegiu ficar de pé de novo, rodopiou e tentou se livrar daquilo que estava em suas costas.
Era algo que mastigava seu pescoço e sua gargata, e o sangue que jorrou foi lhe descendo por entre os seios. Ela berrou tentando arrancar o animal das costas, e continuou gritando enquanto caía de novo na neve.
Até que alguma coisa dura tocou a boca de Virginia. A mão de alguém.
Na bochecha, garras que se enterraram na carne macia... e que continuaram, até atingirem o osso da face.”
(p.238)

Apesar de em várias cenas, a versão sueca ser mais fiel ao livro, o remake aproveita as cenas para evidenciar alguma característica do personagem. Como quando Eli (Abby) ataca Virginia, por exemplo (acima). A violência do ataque e a força de Eli (Abby) segurando a vítima, detalhes bem evidenciados em outros pontos do livro, e que julgo essenciais para entender a essência do personagem, são atenuados na versão sueca. Sim, no livro, Lacke (Larry) afasta Eli (Abby) com apenas um chute. Mas o que não se sabe é o que ocorre antes disso (descrito em detalhes no livro) e que o remake utiliza para dar força à cena.

Não quer dizer que a estória não tenha elementos eternecedores e tocantes por sua sensibilidade. O relacionamento entre Oskar (Owen) e Eli (Abby) evoluiu calmamente e com sutileza ímpar. E isso está presente em ambos os filmes. Apesar de Chloë Grace Moretz conseguir dar a Abby um ar mais ingênuo e infantil que reflete com mais acuidade a psique da personagem, Lina Leandersson também constrói Eli de forma bastante adequada.

Não me incomodou em nada a supressão das estórias paralelas e de vários outros núcleos de personagens. Senti falta mesmo da trama envolvendo a transformação de Håkan (O Pai) em vampiro. Mas entendo que nem essa nem as demais caberiam no filme. Contudo, algumas cenas que foram deixadas na versão sueca parecem soltas, deslocadas do contexto, com pouca ou nenhuma razão de existir. No remake, mesmo com várias alterações que não chegam a modificar o rumo da trama - algumas aliás foram ótimas soluções na adaptação para a tela - não há cena desnecessária ou sem explicação. No original, há várias em que um personagem, do nada, resolve fazer algo (que está no livro) mas que no filme não faz sentido, já que não há nada que justifique aquela ação. Dá a impressão que os roteiristas do remake perceberão isso e suprimiram o que não era imprescindível. E, com ligeiras modificações, conseguiram amarram todas as pontas.

Enfim, os filmes são bons, bem produzidos, mas a versão original me decepcionou por não conseguir trazer para a tela a crueza do texto de Lindqvist, perdendo muito do seu impacto.



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The host

coded by ctellier | tags: , | Posted On sábado, 6 de abril de 2013 at 08:10

meteorologia: outono chuvoso
pecado da gula: brigadeiro
teor alcoolico: nada ainda
audio: ghost writer #23
video: the following

The host (2013) - A hospedeira
roteiro e direção: Andrew Nicol

(resenha publicada originalmente no Vórtex Cultural, em 29/03/2013)

Sinopse:
Melanie (Saoirse Ronan) e Jared (Max Irons) foram feitos um para o outro. Esta seria mais uma história de amor, se não fosse um detalhe: estamos no futuro, e a humanidade está quase extinta. A Terra foi invadida por alienígenas que controlam a mente e corpo dos humanos. Melanie e Jared são os últimos humanos que lutam para sobreviver. Até que Melanie é capturada pela Buscadora (Diane Kruger), que usará as lembranças de Melanie para localizar o esconderijo dos humanos. Para não revelar o esconderijo Melanie ocupa a sua mente com visões do homem que ama, desviando a atenção de Peregrina, que incapaz de se separar dos desejos de seu corpo, começa a se sentir intensamente atraída por Jared. A Hospedeira é baseado no best-seller de Stephenie Meyer.

Sem dúvida, uma parcela do público será atraída ao cinema pelo simples fato de que o filme baseia-se no livro homônimo de Stephenie Meyer (resenha aqui). Essa parcela, caso vá esperando ver algo minimamente próximo a Crepúsculo, terá as expectativas ligeiramente frustradas. Não totalmente, já que a porção “romance” está presente. Contudo, diferente da estória de Bella e Edward, não é o foco principal, apesar de ser importante para o desenvolvimento da trama. Sobre a relação livro/filme, apenas mais uma observação. Espera-se de adaptações de livros que o filme se sustente per se, isto é, o roteiro não deve pressupor que quem está assistindo já leu o livro. E neste sentido, a adaptação foi bem sucedida. Não há necessidade de conhecimento prévio da obra, nem ficam faltando detalhes essenciais (ou não) que apenas os leitores teriam conhecimento.

Diferente de outras estórias que versam sobre invasão alienígena, esta não se prende ao início da invasão - os primeiros humanos “infectados”, a percepção dos demais sobre o que está ocorrendo e a luta contra os invasores. Nesta, a invasão já está consumada, os alienígenas já estão entre os humanos ou, mais especificamente, dentro deles, assumindo o controle do corpo e sobrepujando a mente, tomando o lugar do “eu” de cada um. E a trama se volta para os focos de resistência, os humanos reminiscentes, os “não invadidos”, como Melanie (a princípio) e Jared.

O modus operandi da invasão levanta um questionamento interessante: como reagem ou devem reagir os 100% humanos ao se deparar com um hospedeiro conhecido? O corpo é o da pessoa que se conhecia. Suas feições, seu modo de andar, seu jeito de falar continuam os mesmos. Ainda é a pessoa com que se convivia. Mas ao mesmo tempo, não é mais, ao menos na maioria dos casos. Melanie é uma hospedeira que resiste à invasão. Ela e a invasora, Peregrina (Peg), “brigam” pelo controle do corpo de Melanie, o que gera algumas situações engraçadas quando Mel se irrita com alguma ação de Peregrina.

É uma pena que o roteiro não tenho dado mais ênfase à faceta sci-fi do filme, certamente para tentar agradar aos fãs oriundos de Crepúsculo. Contudo, essa não é a maior falha do roteiro, já que quem não leu o livro não faz ideia que esse enfoque é bem mais explorado. Apesar de Nicol ter conseguido eliminar a maioria dos excessos do livro - cenas desnecessárias e estórias paralelas que pouco ou nada acrescentavam - o ritmo da narrativa é extremamente lento, quase sonolento em alguns trechos. É uma pena que Nicol, responsável pelos roteiros de Gattaca, The Truman show e Lord of war - todos acima da média - tenha conduzido a trama dessa forma. E o que resta ao espectador é acompanhar Mel/Peg tentando ganhar a confiança dos demais e o triângulo - ou quadrado - amoroso em que ela se envolve, ou seja, situações clichês em filmes para adolescentes.

O elenco está bem, nenhuma atuação surpreendente ou fora do comum. Saoirse Ronan poderia ter se dedicado um pouco mais a diferenciar a personalidade de Mel e Peg, mas a voz em off de Mel dá conta do recado. Diane Kruger encarna de modo convincente a fria, calculista e (aparentemente) insensível Buscadora. E William Hurt, no papel de Tio Jeb, está em sua zona de conforto representando o chefe do grupo, detentor de sabedoria.

Apesar das paisagens de tirar o fôlego, da premissa interessante e do roteirista/diretor merecidamente premiado, o filme não chega a ser memorável. Talvez o espectador se lembre dele apenas quando anunciarem a sequência - o final do filme dá brecha para essa especulação, e a própria Stephenie Meyer cogita escrever mais livros sobre o tema.



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Drops » Cloud Atlas

coded by ctellier | tags: , , | Posted On sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013 at 22:59

meteorologia: verão, cad6e você?
pecado da gula: pizza
teor alcoolico: 1 stella artois
audio: cole porter
video: house of cards

Cloud Atlas (2012) - A viagem
roteiro e direção: Tom Tykwer, Andy Wachowski, Lana Wachowski

Apesar de achar o título original muito mais bonito e sonoro - além de ser uma referência a um detalhe do filme -, o título nacional faz jus ao que é o filme: uma viagem, no seu sentido mais coloquial - sim, aquele que remete ao uso de alucinógenos. O trailer não tinha me instigado muito a ver o filme, já que foi vendido (erroneamente) como uma estória de amor entre os personagens de Halle Berry e Tom Hanks. Mas surgiu uma oportunidade de assisti-lo, e fui.

O roteiro foi baseado no livro homônimo, de David Mitchell. São seis estórias passadas em épocas e locais diferentes, cujos protagonistas estão de certa forma interligados:
  1. Século XIX
    protagonista: Adam Ewing (Jim Sturgees), advogado
  2. 1930
    protagonista: Robert Frobisher (Ben Whishaw), jovem e talentoso compositor
  3. 1970
    protagonista: Luisa Rey (Halle Berry), jornalista
  4. Dias atuais
    protagonista: Timothy Cavendish (Jim Broadbent), editor
  5. 2144, Coreia do Sul (agora Nova Seul)
    protagonista: Sonmi-451 (Donna Bae), clone que trabalha como garçonete
  6. Futuro - 106 anos depois de um evento denominado como "A Queda"
    protagonista: Zachry (Tom Hanks), líder de uma tribo

Conforme descobri ao pesquisar sobre o livro, nele a narrativa estrutura-se na seguinte ordem:
1 » 2 » 3 » 4 » 5 » 6 » 5 » 4 » 3 » 2 » 1
Enquanto que, no filme, eventos de cada uma das estórias se alternam numa ordem que parece ser aleatória. Se já não bastasse isso para gerar confusão, as estórias são encenadas pelo mesmo grupo de atores, o que, nos primeiros 30 minutos ao menos, dificulta acompanhar a(s) trama(s). Apesar da montagem primorosa - há alguns cortes simplesmente impressionantes - é, no meu entender, um "complicômetro" desnecessário, já que o tempo gasto em descobrir o ator constitui-se em tempo perdido no acompanhar a estória.

Agora, sobre a maquiagem. Já que os atores se alternam nos papéis, a maquiagem deveria cumprir seu papel de ajudar a contar a estória. Mas não é o que acontece na maioria dos casos. Enquanto há alguns resultados bastante satisfatórios, a maior parte deixa muito a desejar - principalmente os "falsos coreanos" e a "coreana ruiva".

O "fio" que liga os protagonistas não está escancarado de maneira óbvia, o que é ótimo:
Zachry recita os ensinamentos Sonmi, que assiste a um filme sobre Cavendish, que lê um manuscrito de Luisa Rey, que lê as cartas de Frobisher, que lê o diário de Ewing.

O filme tem suas qualidades, mas definitivamente não me conquistou.


(se o único momento em que o público se importa com o destino dos personagens é quando quatro idosos estão colocando em prática um plano para fugir de um asilo, esse filme definitivamente tem problemas...)

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Cafeína Literária » Posts da semana

coded by ctellier | tags: , , | Posted On terça-feira, 29 de janeiro de 2013 at 13:58

meteorologia: chuvoso (de novo)
teor alcoolico: nada ainda
audio: masmorracast
video: homeland

Esta é a última vez em que divulgarei aqui os posts literários, que agora são publicados no Cafeína Literária.
Então, vamos à retrospectiva da semana:



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Cafeína Literária » Posts da semana

coded by ctellier | tags: , , | Posted On domingo, 20 de janeiro de 2013 at 23:53



Para os leitores que ainda não sabem, todos os posts relativos a literatura, leitura, escrita e afins agora estão de casa nova.
Ano novo, blog novo: Cafeína Literária.

Segue a retrospectiva semanal dos posts:



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Cafeína Literária » Posts da semana

coded by ctellier | tags: , , | Posted On domingo, 13 de janeiro de 2013 at 14:53

meteorologia: chuvinha chata
pecado da gula: misto quente
teor alcoolico: 1 stella artois
audio: papricast #25
video: dexter

Até o final do mês continuarei publicando semanalmente a lista de posts do Cafeína Literária.

Quem preferir, pode acompanhar as atualizações na página do Facebook:
http://www.facebook.com/cafeina.literaria

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Cafeína Literária - semana 01

coded by ctellier | tags: , | Posted On sábado, 5 de janeiro de 2013 at 10:50

meteorologia: finalmente sol
pecado da gula: rabanadas (ufa! acabou a gordice)
teor alcoolico: nada ainda
audio: 99 vidas #68
video: ted talks


Estes foram os posts desta semana no Cafeína Literária:


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Ano novo, vida nova

coded by ctellier | tags: , , | Posted On quinta-feira, 3 de janeiro de 2013 at 00:42

meteorologia: chuvoso
pecado da gula: rabanadas
teor alcoolico: 1 stella artois
audio: cinecast cult #46
video: heroes

Não é que eu curta muito a histeria festiva desta época do ano, contudo o mantra do título encaixa-se perfeitamente no assunto deste post.

A partir de hoje, posts relacionados a livros, literatura, leitura, escrita e afins serão publicados num blog específico: o Cafeína Literária. Todos os posts dessas categorias já foram migrados para a casa nova (mas não foram deletados deste blog). Durante algum tempo, pretendo continuar avisando aqui sobre a publicação de novos posts lá.

O novo blog faz parte de um projeto maior, ainda em fase de definição. Enquanto o projeto não sai do papel, por favor nos acompanhem no novo endereço:
http://www.cafeinaliteraria.com.br.
Como a mudança é recente, peço ajuda aos leitores para me avisarem caso encontrem algum problema ou falha nele. O intuito é deixar a casa nova "tinindo".

E para estrear com o pé direito, duas resenhas:


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Retrospectiva 2012

coded by ctellier | tags: , , , , , , | Posted On domingo, 30 de dezembro de 2012 at 22:04

meteorologia: chuva sem fim
pecado da gula: rabanadas
teor alcoolico: 2 desperados
audio: queen
video: once upon a time

Última lista do ano: os 10 posts mais visitados (por ordem de publicação)

♦ 05/02/12 Movimento #DubladoSemOpçãoNão! 123 visualizações
♦ 13/03/12 Review » Saucony Hattori 294 visualizações
♦ 30/03/12 "Go on. Shoot!" 110 visualizações
♦ 09/04/12 O chamado de Cthulhu 110 visualizações
♦ 21/04/12 O desafio dos 100 livros - 2a.dezena 132 visualizações
♦ 24/06/12 Prometheus 119 visualizações
♦ 01/07/12 Pinterest... dinovu?! 126 visualizações
♦ 01/07/12 "I smile, and I smile, and I smile." 171 visualizações
♦ 24/07/12 Pipocando 102 visualizações
♦ 23/09/12 Review » MOTOACTV 111 visualizações



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Drops » The Hobbit

coded by ctellier | tags: , , | Posted On quarta-feira, 19 de dezembro de 2012 at 10:45

meteorologia: nublado
pecado da gula: leite moça de chocolate
teor alcoolico: nada ainda
audio: radio rock
video: harry potter

The Hobbit: An Unexpected Journey (2012)
- O Hobbit: Uma jornada inesperada
roteiro: Philippa Boyens, Peter Jackson, Fran Walsh, Guillermo del Toro
direção: Peter Jackson

A aventura de Bilbo Baggins é um prequel dos acontecimentos de O senhor dos aneis. Mas o diretor, intencionalmente ou não, fez parecer uma sequência, dando continuidade ao clima grandioso e épico dos eventos envolvendo a irmandade do anel. Na minha opinião, totalmente desnecessário e, pior, não condizente com a obra original.

O hobbit é genuinamente um livro infantil e parte dessa essência é perdida nesta transposição para o cinema. Algo que deveria ser abordado e vivenciado com uma legítima aventura - nos moldes de A ilha do tesouro, de Stevenson (na literatura) ou Os Goonies (no cinema) - pretenciosamente foi alçada ao patamar de uma quase epopeia.

Além disso, uma estória de pouco mais de 300 páginas, que certamente caberia com folga num filme de duas horas, foi esticada e preenchida com elementos supérfluos tão somente para suprir o desejo do diretor de dirigir mais uma trilogia.

O roteiro, ao contrário do universo do filme, chega a ser infantil pela sua repetição: o grupo viaja um pouco, Bilbo e os anões se metem em alguma encrenca, Gandalf aparece para salvar a pátria sempre no último instante - "e por que raios ele esperou tanto?". Isso somado ao excesso de flashbacks, deixa o filme longo demais, arrastado demais, cansativo demais.

Se valeu a pena assistir? Valeu sim, e muito. Valeu por causa dos 48fps. A experiência cinematográfica é totalmente revolucionada. O hiper-realismo deixa o espectador com a impressão de estar assistindo aos eventos in loco, principalmente em cenas externas. A quantidade de detalhes visto na tela é inimaginável. Mas também evidencia os defeitos. Alguns efeitos digitais ficam muito mais perceptíveis. Uma grande vantagem é que o 3D fica muito melhor. Várias vezes durante o filme eu simplesmente esqueci que estava usando o óculos.

Não terminei de assistir ao filme tão ansiosa pelo próximo quanto ao assistir a A sociedade do anel, mas mesmo assim ansiosa para ver a evolução do uso dessa nova tecnologia.


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Sórdido, nefasto, pulcro, patético e fulminante

coded by ctellier | tags: | Posted On domingo, 9 de dezembro de 2012 at 16:48

meteorologia: nublado
pecado da gula: sorvete de doce de leite
teor alcoolico: 1 malheur (250ml)
audio: café brasil #327
video: 4400

Festa no covil
Juan Pablo Villalobos

Mesmo tendo visto o livro exposto em alguns dos meus passeios na Livraria Cultura, não tinha tido a curiosidade de folheá-lo, apesar da capa bastante chamativa - gosto desses desenhos de “caveirinhas”, um dos símbolos do Dia de los muertos mexicano. Contudo, minha curiosidade foi atiçada ao assistir a um vídeo-resenha no canal LidoLendo, da Isa. Ao ficar sabendo da temática do livro e da forma como é narrado, logo me interessei. E, numa outra incursão à livraria, não resisti e comprei.

Todo leitor contumaz já deve ter passado por isso. Apesar de estar lendo alguma obra bem interessante, há alguns dias em que não estamos a fim de continuar a leitura e queremos ler algo diferente. E foi o que houve. Estou lendo A realidade oculta, de Brian Greene. Gosto demais de física, mas anteontem não estava a fim de ler sobre o assunto. E peguei Festa no covil. E, não fosse o sono ter me vencido, teria terminado a leitura numa noite, não apenas por que o livro é pequeno (88 páginas), mas também por que a narrativa é bastante envolvente.

Sinopse
Tochtli é um pequeno príncipe herdeiro do narcotráfico mexicano. Fechado numa fortaleza no meio do nada, engana a solidão colecionando chapéus e palavras exóticas. Yolcault é o rei. Ele pode tudo e lhe dá tudo. Só não deixa que o garoto o chame de pai nem entre em certos quartos proibidos. Mas Tochtli tem uma inteligência fulminante e três chapéus de detetive, e com eles investiga noite e dia os enigmas desse reino. Ele também tem uma ideia fixa: completar seu minizoológico com hipopótamos anões da Libéria. E é bem capaz de conseguir que o rei atenda seu desejo.
(fonte: contracapa do livro)

Antes de ler o livro e pesquisar sobre ele, eu não tinha conhecimento da existência de uma vertente literária chamada narcoliteratura. Conforme explica Adam Thirwel no posfácio: “A narcoliteratura trata de chefões, do tráfico, armas e mulheres. De uma cultura política corrupta e asquerosa.”. Mais informações aqui. E, à primeira vista, Festa no covil encaixa-se nesse gênero. Contudo, terminada a leitura, conclui-se que o narcotráfico é apenas o pano de fundo - bem ao fundo - enquanto que o foco é o dia a dia de um garoto criado isolado do mundo e, por conta disso, construindo seu próprio mundo, com suas próprias regras e sua própria moral.

Devido à narrativa em primeira pessoa, é fácil lembrar-se de O menino do pijama listrado. E, apesar da ambientação das estórias ser bastante diferente, os protagonistas são garotos que, em sua ingenuidade, ignoram o verdadeiro papel de seus pais na sociedade em que vivem. Ter um protagonista-narrador talvez fosse um ponto fraco no livro (vide Hunger games), principalmente sendo uma criança. Mas Villalobos sai-se muito bem. Tem-se vividamente a sensação de que é mesmo um garoto narrando. Não tanto pelo modo de falar ou pelo vocabulário usado, mas pela forma como seu vocabulário é empregado, como as frases são construídas e pela ingenuidade intrínseca com que ele descreve os fatos. O trunfo do autor é o personagem em si, suas características. Se o leitor “comprar a ideia” de que é um moleque inteligente, precoce, que não sai de casa e que por isso passa quase o tempo todo estudando, pesquisando e investigando é evidente que ele narre os acontecimentos do modo como o faz.

"Algumas pessoas dizem que eu sou precoce. Dizem isso principalmente porque pensam que sou pequeno pra saber palavras difíceis. Algumas palavras difíceis que eu sei são: sórdido, nefasto, pulcro, patético e fulminante." (p.9)

Esse é o parágrafo inicial do livro. Interessante notar o poder de síntese do autor ao, em poucas frases, nos apresentar Tochtli de forma tão concisa. E vale reparar que, tal qual uma criança, Tochtli usa e abusa das palavras aprendidas, utilizando-as a toda hora, por vezes até fora de contexto. Suas frases são curtas, diretas, objetivas, sem rodeios, como as de qualquer criança. E esse contraste entre seu vocabulário quase adulto e seu modo naturalmente infantil de elaborar as orações tornam a leitura envolvente, cativante.

“Hoje conheci a pessoa catorze ou quinze que conheço e era um político chamado El Gober.” (p.20)

O que chama atenção, além da forma, é o teor da narrativa. Logo nas primeiras páginas, o leitor percebe a visão distorcida que o garoto tem do mundo - dentro e fora do palácio. A naturalidade com que ele descreve certos fatos não apenas choca, mas entristece. Entristece pois a solidão que transparece e a morbidez do que é relatado não deveriam fazer parte da infância, mesmo que a criança não tenha total entendimento do que está acontecendo. Mesmo que a bizarrice do que a cerca lhe seja familiar e corriqueira.

“Eu sei dessas coisas por causa de um jogo que eu e o Yolcaut costumamos jogar. O jogo é de perguntas e respostas. Um fala uma quantidade de tiros e uma parte do corpo, e o outro responde: vivo, cadáver ou diagnóstico reservado.
- Um tiro no coração.
- Cadáver.
- Trinta tiros na unha do dedo mindinho do pé esquerdo.
- Vivo.
- Três tiros no pâncreas.
- Diagnóstico reservado.” (p.14)

“Na verdade existem muitos jeitos de fazer cadáveres, mas os mais usados são com os orifícios. Os orifícios são buracos que você faz nas pessoas para o sangue vazar. As balas de revólver fazem orifícios e as facas também podem fazer orifícios.” (p.16)

Creio que a melhor dica sobre o que o leitor irá encontrar durante a leitura é a própria capa do livro: tudo em alto contraste. Todo o livro é calcado em contrastes, em contrários, em antagonismos. Simples versus complexo. Realidade versus fantasia. Horror versus humor. Violência versus inocência. O leitor fica o tempo todo oscilando entre o pasmo sobre os fatos relatados e a forma incompatível, por vezes até engraçada, com que isso é feito. Talvez por essa razão, seja tão difícil colocar em palavras a impressão que o livro deixa quando viramos a última página.

“[...] aí Yolcault gritou pra ele que era do rancho da puta que pariu. O rancho da puta que pariu fica perto de San Juan, na beira da estrada. Em cima do portão tem um cartaz que diz: PUTA QUE PARIU.”
(p.25)

Destaque para o posfácio de Adam Thirwel, que ajuda bastante a entender tanto o contexto da estória quando do próprio livro. Aliás, o livro todo é irrepreensível. Desde a capa, que é até texturizada; até o papel pólen, cuja textura é ótima; passando pela revisão sem quaisquer ressalvas. A tradução foi revista pelo autor, então não há o que falar.

Enfim, a experiência de leitura é ótima. E não há preguiça de ler que resista, afinal são apenas 82 páginas - as demais são do posfácio. Leitura mais que recomendada.


Sobre o autor
Nasceu em 1973, em Guadalajara, México, e atualmente mora no Brasil. É autor de contos, crônicas de viagem e crítica literária e de cinema. Festa no covil é seu primeiro romance. Editado originalmente na Espanha, já foi traduzido na Alemanha, Reino Unido, Holanda e França, e tem lançamento previsto em mais sete países, incluindo Itália, EUA, Israel e Turquia. A edição britânica foi selecionada pelo jornal The Guardian entre os cinco finalistas do First Book Award.
(fonte: Companhia das Letras)

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Uma tragicomédia em família

coded by ctellier | tags: , , | Posted On quarta-feira, 14 de novembro de 2012 at 18:15

meteorologia: nublado ainda
pecado da gula: muito macarrão
teor alcoolico: nada ainda
audio: tom jobim
video: breakfast at tiffany's

Fun home
Alison Bechdel

Quando criança, sempre fui leitora assídua de quadrinhos. Tio Patinhas e Turma da Mônica, principalmente. Sou mais uma das milhares de crianças que adquiriram o hábito da leitura acompanhando as aventuras dos personagens de Maurício de Souza. Mas, depois de “virar gente grande”, parei de ler HQs. Não me desfiz das minhas, apenas parei de comprá-las - ou melhor, de pedir para que comprassem para mim. Com a nem tão recente assim onda de adaptações de HQs para o cinema, meu interesse retornou e comecei a consumir HQs adultas, as chamadas graphic novels. Por esse motivo, resolvi incluir uma categoria “Graphic Novel” no Desafio literário.

Não consegui lembrar onde havia lido sobre este livro. Mas me deixou suficientemente interessada para incluí-lo no desafio - que eu não finalizei, mea culpa. O desafio “embolou” antes mesmo de eu chegar à metade da lista. Empaquei no segundo volume de Os irmãos Karamazov. Vários outros livros foram cortando a fila e o desafio foi “pras cucuias”. Mas estou num período em que leituras mais breves, mas nem sempre muito leves, têm me interessado mais. E foi nesse contexto que Fun home se encaixou, apenas um mês depois do programado (apesar de eu ter “pulado” todos os outros livros desde maio). Antes de continuar, segue a sinopse.

Fun Home é um dos maiores fenômenos literários desta década. Eleito o "livro do ano" em 2006 pela revistaTime, figurou na lista de livros mais vendidos do The New York Times e faturou diversos prêmios (entre eles, o Eisner Awards de Melhor Não-Ficção). O álbum é um livro de memórias, onde a quadrinista Alison Bechdel revisita a sua infância e adolescência - especialmente a descoberta de sua homossexualidade e a difícil relação com seu pai Bruce Bechdel. Homossexual não-assumido, Bruce passava mais tempo cuidando e reformando o casarão vitoriano que moravam do que dando atenção à família.
(fonte: site Loja Conrad)

Ao iniciar a leitura, logo percebi que não era uma HQ como as outras, com quadros desenhados e balões de diálogos e pensamentos. Lógico, há isso também, mas não apenas isso. De uma maneira bastante criativa, a autora faz uso de inúmeros outros recursos visuais para contar sua estória. Desde caixas de texto com setas para apontar certos detalhes até reproduções de páginas de livros - dicionários, principalmente -, passando por recortes de jornais ou revistas e trechos manuscritos de cartas ou diários. E o resultado final é que o leitor fica imerso na estória enquanto tenta encontrar todos os detalhes de cada quadro. Na grande maioria das vezes, o que está escrito é complementar, mas não explicativo, do que está desenhando. E, por vezes, o texto até contradiz o desenho numa ironia ácida que permeia toda a trama.

Além do diferencial no estilo narrativo, para os leitores “hard-core” há um atrativo a mais. Há inúmeras referências, inferências, citações e correlações a várias obras literárias e autores. Em vários momentos, a autora relaciona eventos a trechos de livros, fazendo correspondência entre personagens reais e fictícias. Há Marcel Proust, James Joyce, Virginia Woolf, Albert Camus, Oscar Wilde, além do mito de Dédalo e Ícaro, que a autora compara a seu pai e ela. E é importante ressaltar que nenhuma das citações é gratuita. Todas se encaixam perfeitamente no contexto, principalmente por não serem apenas um recurso de suporte à narrativa, mas por terem efetivamente feito parte da formação intelectual da autora.

Num primeiro momento, pode parecer que uma biografia em quadrinhos é, justamente pelo formato, obrigatoriamente superficial. Mas Fun home está muito longe disso. A autora consegue conferir complexidade e um nível de detalhes que garantem uma experiência de leitura que pode ser tudo, menos superficial. Como já afirmei neste post sobre a biografia de Clarice Lispector, biografias não fazem parte da minha lista de categorias literárias prediletas, muito ao contrário. Mas o formato diferenciado ou, mais especificamente, inusitado desta autobiografia chamou minha atenção e despertou minha curiosidade. E devo afirmar que não me arrependi de lê-la. Aliás, recomendo-a fortemente.


 
 
Sobre a autora
Alison Bechdel nasceu em 1960 em Lock Haven, no estado da Pensilvânia. Desde 1983, desenha a tira Dykes to Watch Out For, publicada em diversos jornais alternativos, traduzida para várias línguas e compiladas em uma bem-sucedida série de livros.

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Muito além das resenhas

coded by ctellier | tags: , | Posted On quarta-feira, 24 de outubro de 2012 at 10:28

meteorologia: sol tímido
pecado da gula: pudim de chocolate
teor alcoolico: nada ainda
audio: rapaduracast #303
video: numb3rs

Com meu recém-adquirido hábito de acompanhar canais literários no YouTube (post aqui), pude perceber que há temáticas comuns a quase todos. Boa parte dos vlogueiros, além de resenhar os livros lidos, incluem vídeos de:
  • Inbox ou Caixa de Correio: para mostrar os livros comprados;
  • Livros do mês: livros lidos ou a ser lidos naquele mês;
  • Bookshelf Tour: mostrando o conteúdo de sua estante e/ou prateleira de livros;
  • e Tags (que é o foco deste post): algum vlogueiro cria algo similar a uma pesquisa, incluindo uma série de perguntas ou solicitando uma lista sobre determinado tema. Por exemplo, "As 10 capas de livros preferidas". O vlogueiro "criador" repassa o convite aos demais, solicitando que respondam a Tag.

A que está rolando atualmente entre os canais nacionais é sobre livros para ler antes do fim do mundo. Veio originalmente de um canal gringo, I Eat Words Channel (assista aqui). O primeiro canal nacional a que assisti respondendo a Tag foi aViviu, e ela informa que quem "trouxe" a Tag para os canais brasileiros foi a Giu Fernandes.

A Tag pede 5 livros para ler antes do fim do mundo, nas seguintes condições:
  • deve ser um livro que o leitor possua;
  • não pode ser uma releitura.

Deu vontade de responder a Tag. Contudo, não mantenho um canal literário - e nem pretendo -, então respondo aqui no blog mesmo. E assim como a Vitória, vou trapacear um tiquinho e fazer duas listas: uma com livros que comprei e não li ainda e outra com livros que não tenho e gostaria de ler.

Tenho e não li:
  • Contato, Carl Sagan
  • Sherlock Holmes - Coleção completa, Arthur Conan Doyle
  • Ulisses, James Joyce
  • O lobo da estepe, Herman Hesse
  • Nas montanhas da loucura, H.P.Lovecraft

Não tenho e gostaria de ler:
  • Os diários secretos de Agatha Christie, John Curran
  • Neuromancer, William Gibson
  • O som e a fúria, William Faulkner
  • O jogo da amarelinha, Julio Cortázar
  • Os detetives selvagens, Roberto Bolaño

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Clube do suicídio

coded by ctellier | tags: | Posted On segunda-feira, 22 de outubro de 2012 at 17:46

meteorologia: sol e calor
pecado da gula: pudim de chocolate
teor alcoolico: nada ainda
audio: braincast #37
video: lost

O clube do suicídio
Robert Louis Stevenson

Este livro, que é uma coleção de contos e novelas, não constava da minha lista de desejos. Aliás, admito que não sabia de sua existência. Conheci-o ao ver um post divulgando o Clube de Prosa Cosac Naify, cujo tema seria esta obra. Como para um leitor compulsivo qualquer motivo é um bom motivo para incluir mais um livro na coleção, obviamente minha reação foi ligar para a Cultura e reservar o item. Quanto ao clube, achei que, tendo lido um dos contos - o mais famoso, O estranho caso de Dr.Jekyll e Mr.Hyde - e iniciando a leitura daquele que dá nome do livro seria o bastante para não parecer um peixe fora d’água. E, a fim de mergulhar logo nas estórias, “pulei” a introdução, o que se mostrou ter sido uma decisão acertada pois, conforme comentou a mediadora do clube, a introdução contém alguns spoilers.

A coletânea é composta por:
  • O clube do suicídio
  • O estranho caso de Dr.Jekyll e Mr.Hyde
  • Markheim
  • O demônio da garrafa
  • O ladrão de cadáveres
  • O vestíbulo

O texto que dá título ao livro é, na verdade, uma novela composta por três contos, interligados entre si. O elo entre eles é a dupla de personagens central, o príncipe Florizel e seu "fiel escudeiro" Mr.Geraldine. Na primeira estória, a dupla é apresentada ao clube do suicídio. Trata-se de um clube de cavalheiros cujo interesse comum é, logicamente, o suicídio. Pois, apesar de terem decidido dar cabo da própria vida, não têm coragem suficiente para fazê-lo. Todas as noites, é feito um sorteio - utilizando-se um baralho - a fim de escolher quem será a vítima e o algoz daquela data. O presidente do clube engarrega-se dos detalhes a fim de que o “evento” não pareça um ato criminoso. As outras duas estórias são decorrentes desta.

O estranho caso de Dr.Jekyll e Mr.Hyde dispensa apresentações. Apesar de que, conforme orienta Nabokov no ensaio que está no apêndice, “por favor, trate completamente de esquecer, deslembrar, apagar, desaprender, jogar no lixo qualquer noção que você possa ter de que Jekyll e Hyde seja uma espécie de história ou filme de mistério ou de detetive.” Pensar nisso ao ler é essencial, pois a trama é muito mais do que o imaginário coletivo conhece dela. Já comentei sobre ele neste post.

Em Markheim, um jovem entra numa loja de penhores e, depois da ocorrência de um evento inesperado (aparentemente), a trama deriva para algo semelhante a Crime e castigo.

O demônio da garrafa é uma variante da conhecida estória do gênio da lâmpada, com a diferença que não há limite para o número de pedidos e que o dono da garrafa não pode ser livra dela a não ser que a venda.

O ladrão de cadáveres, talvez a mais sombria e mórbida de todas, conta em flashback a estória de um médico que, em sua época de estudante, junto com um colega, prestava serviços a um doutor, Sr.K, famoso por técnicas de dissecação por ele desenvolvidas.

E O vestíbulo, o conto mais curto - e talvez o mais fraco -, narra o ódio de um nobre por outro e a maneira inventiva que o primeiro encontra para se livrar do segundo.

Conheci a obra de Stevenson lendo A ilha do tesouro, que mais tarde aprendi ter sido escrito para entretenimento do enteado do autor. Parafraseando o locutor que anuncia os filmes da Sessão da Tarde, é sobre “uma turminha do barulho, encarando grandes aventuras”. Clássico da literatura infanto-juvenil, é uma aventura deliciosa com direito a mapa do tesouro, piratas, motim, cozinheiro de uma perna só e que teve inúmeras adaptações em outras mídias - cinema, teatro, HQ. E, ao ler O estranho caso de Dr.Jekyll e Mr.Hyde, surpreendi-me ao descobrir que era do mesmo autor pois, exceto pela qualidade do texto, não há nada em comum nas estórias.

Aproveitando a deixa, acredito que um dos méritos de O clube do suicídio é, além de confirmar Stevenson como um autor essencial, demonstrar sua versatilidade ao transitar com naturalidade entre vários estilos narrativos, indo desde a aventura detetivesca até o terror psicológico, passando pelo suspense e pelo realismo fantástico. E há algo mais em sua prosa que notei enquanto completava a leitura. Por ter participado do clube, pude ouvir o resumo das estórias feitos pelos demais participantes. E constatei, enquanto lia, o imenso poder de sugestão de Stevenson. Apesar de seu texto ser bastante descritivo em muitos trechos - o que dá a impressão de excesso de detalhes -, ao mesmo tempo ele deixa muito a cargo do leitor, às vezes explicitamente, mas na maioria das vezes nem tanto. Muitos dos detalhes narrados pelos leitores no clube não estavam escritos, eram apenas sutilmente sugeridos.

Outro detalhe comum a todos os textos é a condução do leitor. O texto de Stevenson flui de tal maneira que é difícil interromper a leitura. Não me refiro a cliffhangers presentes ao final de uma cena ou capítulo, recurso extensamente utilizado na maioria dos livros policiais. Stevenson conduz a trama de modo a envolver o leitor, despertando seu interesse no destino dos personagens e no desenlace das situações. Por várias vezes, iniciava a leitura disposta a ler 4 ou 5 páginas e quando me dava conta já estava chegando ao final da estória.

Estes são, no meu entender, os pontos fortes das narrativas. E não é por ser um clássico que eu deva ter obrigação de achar tudo “lindo e maravilhoso”. Na minha modesta opinião, há um ponto fraco em três contos: o final. Por razões diversas, os desfechos das estórias não me agradaram. Em Markheim, esperava uma solução menos trivial, mais dramática; algo que seguisse o clima fantástico do conto. Em O demônio na garrafa, o final poderia ser menos simplista, menos previsível; enfim, menos preguiçoso. E em O vestíbulo, tem-se a nítida impressão de que não há um final. O conto termina tão abruptamente que é inevitável o leitor se perguntar: “Ué! já acabou?!”. Talvez alguns leitores também não gostem muito do final “em aberto” de O ladrão de cadáveres pois, apesar de ter uma conclusão bem surpreendente, muitas questões são deixadas sem explicação. Eu gostei, achei que deixar as suposições e hipóteses para o leitor tinha tudo a ver com o desenrolar da trama.

Essa edição da Cosac Naify é bastante caprichada, incluindo, além dos textos de Stevenson, dois ensaios comentando sobre sua obra - um de Henry James e outro de Vladimir Nabokov - , que também valem ser lidos.
Enfim, leitura mais que recomendada.

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A estrela do diabo

coded by ctellier | tags: | Posted On domingo, 7 de outubro de 2012 at 13:45

meteorologia: sol e calor
pecado da gula: bolo de côco
teor alcoolico: nada ainda
audio: databasecast #26
video: the avengers

A estrela do diabo (Marekors)
Jo Nesbø

Sinopse
O detetive Harry Hole está de volta. Tentando superar a morte da ex-parceira de trabalho, obcecado em provar a culpa do também investigador Tom Waaler, abandonado pela namorada e afundado no alcoolismo, ele ainda tem de lidar com um misterioso assassinato de uma jovem. Quando novas mortes começam a ocorrer, e elementos em comum vão surgindo aos olhos de Harry, ele percebe que está diante de um perigoso serial killer.

A leitura deste livro foi totalmente não programada. Não só a leitura, como a compra também. Fui à Floripa no final de semana passado, para participar da maratona, e, como ia passar lá apenas dois dias, calculei que um livro seria suficiente para me ocupar durante a espera no aeroporto, o vôo e alguns momentos de tédio no quarto do hotel. E levei comigo As esganadas, de Jô Soares - post aqui. Contudo, um chá de cadeira inesperado ao chegar ao hotel - meu quarto demorou muito a ficar pronto - estragou meu planejamento. Quando finalmente consegui fazer o check-in, faltava pouco mais de 2 capítulos para terminar a leitura, que eu finalizei em menos de 20 minutos.

E eu, como uma boa leitora viciada, não posso ficar sem um livro para ler. Única solução: comprar outro. Fui a um shopping - único local onde haveria livrarias abertas num sábado à tarde. E, depois de circular entre as prateleiras por quase meia hora - as vendedoras vinham em turnos perguntar se eu precisava de ajuda - optei por este, tendo em mente que um livro policial costuma ser a melhor escolha para leitura em locais com muita gente conversando ao redor.

Eu já havia lido algo a respeito sobre um outro livro do autor, lançado recentemente, O redentor, cuja capa sempre me fazia lembrar o primeiro volume da trilogia de Stieg Larsson, The girl with the dragon tattoo. Sabia que, nos três livros dele traduzidos para o português, o protagonista, o detetive Harry Hole, era o mesmo. Sendo assim, o mais sensato seria ler o primeiro para me familiarizar com o personagem. Porém, nem tudo é perfeito no mercado editorial brasileiro de traduções. O primeiro lançado aqui, Garganta vermelha, é na verdade o terceiro da série. A estrela do diabo é o quinto. E O redentor, o sexto. A livraria não tinha Garganta vermelha e voltei para o hotel com A estrela do diabo a tiracolo.

Um detalhe interessante - e bastante importante - sobre a tradução. Apesar de a publicação não ter se iniciado corretamente - pelo primeiro livro da série -, todos os três desta série aqui publicados foram traduzidos diretamente do norueguês, o que é certamente uma vantagem para o leitor.
(lista de todos os livros aqui)

O estilo de escrita do autor é bastante direto, quase seco. Apesar de vários trechos descritivos, a prosa é enxuta, não há excessos. Não sou conhecedora da literatura norueguesa para poder afirmar, ou pior, generalizar ao fazer comentários sobre isso. E também seria imprudente rotular o estilo após a leitura de apenas um livro do autor. Mas é necessário comentar que senti um forte contraste ao lê-lo logo após dois livros de autores nacionais. Tem-se a impressão que a "musicalidade" instrínseca ao idioma brasileiro, simplesmente inexiste no norueguês. Mas gostei bastante do tom da narrativa e achei que "casou" muito bem com a estória. Porém concordo que, em alguns trechos, o excesso de detalhes prejudique um pouco a fluidez da leitura.

Diferente da grande maioria dos livros policiais, este não se resume a narrar a sequência de fatos relativos aos assassinatos, à investigação, à descoberta e possível captura do criminoso. Diversos capítulos iniciam-se com a introdução de novos personagens ou com a descrição de um lugar que ainda não fora citado. O leitor sente-se deslocado, sem saber do que se trata. Até que o autor faz o link e revela qual a relação disso com a estória. Generalizando um pouco, basicamente essas digressões aparentes tem a ver com as vítimas, com as testemunhas, com o principal suspeito ou com o protagonista. Percebi, ao ler alguns comentários de outros leitores, que essa solução narrativa não agradou 100%. Alguns reclamaram, achando que interrompia o fluxo de eventos; outros gostaram e acharam que era uma inserção bem-vinda; outros acharam que essas "mini-biografias" poderiam ter sido mais exploradas, dando mais detalhes. Pessoalmente, gostei bastante, tanto por ter a oportunidade de saber mais sobre alguns personagens, como pelo suspense causado pela pergunta "Em que ponto da trama isto se encaixa?".

O autor conduz bastante bem a narrativa a fim de que o leitor não tenha vontade de abandonar a leitura antes de descobrir whodunit. Mas o livro não se resume a isso. Aproveitando a condição do protagonista - depressivo, obsessivo e tentando evitar se afundar na bebida -, o autor aborda as consequências de suas escolhas pregressas, tanto em sua vida pessoal e profissional, quanto na vida das pessoais que o rodeiam. Lógico que o assunto não é explorado extensivamente, afinal, este é um livro policial e o leitor quer chegar logo "aos finalmentes". Mas o autor usa bem o tema como pano de fundo de várias cenas. E faz o mesmo com algumas discussões sobre o papel da polícia na sociedade. Sua eficiência (ou não), as brechas na lei, os meandros da burocracia são assuntos de vários diálogos entre Hope e seus colegas de trabalho. E, novamente, este é um livro policial e este tema é tratado en passant, pois o assunto principal ainda é descobrir quem é o serial killer.

Sobre isso, tenho uma observação importante. Faltava ainda um quarto do livro quando os investigadores estavam prestes a prender o principal suspeito. E eu me perguntava "E agora? Vai ser encheção de linguiça até o final?". Não mesmo! Dali em diante, a narrativa adquiriu um ritmo acelerado, com várias reviravoltas totalmente inesperadas que me impediram de largar o livro antes do final. Surpreendente mesmo.

Enfim, para quem estiver a fim de conhecer um pouco de literatura policial norueguesa, que goste quando a trama tem algo mais além de descobrir o culpado, é uma boa pedida.
Fica a dica.

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Drops » As esganadas

coded by ctellier | tags: , | Posted On quarta-feira, 3 de outubro de 2012 at 10:25

meteorologia: sol e calor
pecado da gula: castanhas nutty bavarian
teor alcoolico: nada ainda
audio: afrocelts
video: fringe

As esganadas
Jô Soares

Sinopse
O livro é ambientado no Rio de Janeiro de 1938 [...], durante a Era Vargas, e retrata uma série de assassinatos perpetrados contra vítimas gordas. Subvertendo a narrativa policial comum aos suspenses envolvendo detetives, o serial killer é revelado logo no início da obra, bem como sua motivação para os crimes. A trama concentra-se nos detalhes da busca pelo assassino.
O título faz alusão ao modo como as vítimas são mortas: asfixiadas por sua gula em um processo que envolve interesse gastronômico, especialmente por doces portugueses, e intenso desejo sexual.
fonte: Wikipedia

Este é o quarto livro policial do ator, comediante, apresentador e músico Jô Soares. E é, na minha opinião, o mais fraco. Acredito que ter suprimido o fator whodunit enfraqueceu bastante a trama, tornando-a simples a ponto de parecer ingênua e burlesca em alguns momentos. Apresentando ao leitor, desde o início, o autor dos crimes, resta apenas um “mistério” a ser solucionado - como e quando ele será descoberto e capturado. Há trechos em que parece bastante improvável que a equipe encarregada de identificar o assassino seja inapta a ponto de deixar passar detalhes essenciais que levantariam suspeitas sobre ele. E o excesso de citações do investigador lusitano e o exagero de detalhes da culinária portuguesa por vezes chegam a incomodar e “empacar” o andamento da narrativa.

O que salva o livro e o que segura o leitor do começo ao fim é principalmente a capacidade do autor em criar personagens e tipos, encaixando-os em situações que despertam o interesse do leitor, fazendo-o continuar a leitura para descobrir seu desfecho. Tive a nítida impressão de estar lendo uma sucessão de esquetes bem resolvidos em si mesmos, mas que em boa parte do texto careciam de unicidade com a trama central.

Mas não apenas isso. Assim como nos livros anteriores, a ambientação em determinado momento histórico é algo que o autor faz muito bem. A inserção de propagandas de rádio - os reclames -, notícias, narrações de jogos da copa, entre outros detalhes, conseguem imergir o leitor no período em que se passa a estória sendo, também, elementos que despertam e mantêm o interesse no decorrer da narrativa. Porém, mesmo assim, o leitor chega ao final da leitura com a impressão de que tudo poderia ter sido melhor explorado.

É um livro rápido e de fácil leitura. Não é ruim, é bom mesmo com as ressalvas. Mas se alguém me pedisse indicação de um livro do Jô, certamente não seria esse o escolhido. O Xangô de Baker Street sem dúvida é uma opção bem melhor para conhecer a obra do autor.


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Livros em vídeo

coded by ctellier | tags: , , | Posted On segunda-feira, 1 de outubro de 2012 at 21:46

meteorologia: chuva em Floripa, sol em Sampa
pecado da gula: ovos mexidos, com queijo e presunto parma
teor alcoolico: nada ainda
audio: braincast #34
video: numb3rs

Já comentei algumas vezes sobre meu hábito - quase vício - de ouvir podcasts. Há pouco mais de um mês, mais precisamente logo depois da Bienal de SP, fiz uma "descoberta" que também já se tornou hábito. Procurando no YouTube por vídeos sobre a bienal, encontrei um canal literário, o Cabine Literária. Assisti a alguns vídeos e logo assinei o canal. Posteriormente, ao acessar novamente, naquela coluna de sugestões do YouTube, havia outro canal literário, o da Tatiana Feltrin - TINY little ThInGs. E dali em diante, uma coisa puxa a outra, fui assistindo e "capturando" outras sugestões e agora, além dos podcasts, também assisto a canais literários sempre que tenho um tempinho.

E segue abaixo a lista dos que eu assisto com mais frequência (em ordem alfabética):

  • aViviu
    Alguém disse pra eu parar de escrever sobre tudo o que eu leio e fazer um vídeo.
    E eu fiz.
  • o batom de Clarice
    Este é um canal pessoal, sobre livros e literatura. Não tenho vínculo com nada, nem com ninguém, a não ser comigo mesma. =)
    Literatura é minha paixão, minha formação e meu trabalho.
  • Cabine Literária
    O Cabine Literária é um vlog sobre literatura que você lê na cama, no busão, no troninho e principalmente porque você GOSTA!
  • Isaac Sabe
    Canal do blog Isaac Sabe!
  • Leitor Cabuloso
    O universo da literatura ao seu alcance!
  • Li Finalmente!
    Duas coisas eu gosto muito, livros e de falar sobre eles. Se você gosta de qualquer um desses dois eu sugiro que você veja os vídeos aqui ;)
  • LidoLendo
    Canal da Isa
  • Patrícia Pirota
    Canal pra falar sobre os Livros, o Universo e tudo o mais...
  • Ratos Letrados
    Vlog sobre tudo e nada.... é mais pra passar o tempo!
  • TINY little ThInGs
    Canal da Tatiana Feltrin


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Ponto cego

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 15 de setembro de 2012 at 09:36

meteorologia: sol e calor
pecado da gula: pão com nutella
teor alcoolico: nada ainda
audio: afrocelts
video: cabine literária #68

Ponto cego
Felipe Colbert

Sinopse
Um ano após o acidente que interrompeu a gravidez de Nilla e sentindo-se culpado pela iminente separação, o repórter Daniel Sachs recebe um pedido de socorro escondido em um objeto e descobre que sua ex-mulher desapareceu em Veneza durante a cobertura de um show de ilusionismo. Seguro de que é o único que pode ajudá-la, ele parte em busca do resgate da fotógrafa e, consequentemente, a correção de todo passado. Porém, pistas misteriosas dão indícios de que o desaparecimento de Nilla possa estar ligado a um novo tipo de comércio ilegal na cidade – a produção de filmes snuff. Ao solicitar ajuda ao investigador Giuseppe Pacino, Daniel passa a ser perseguido e a ter sua vida ameaçada por um impiedoso criminoso. A situação piora quando eles ficam sabendo que Lorenzo Oro, um ilusionista cego de grande prestígio na Europa e dono de habilidades surpreendentes, foi a última pessoa a conversar com Nilla antes de seu desaparecimento. Incerto das próxima ações, Daniel enfrentará uma série de obstáculos e revelações imprevisíveis até chegar ao clímax arrebatador: a decisão de permitir ou não que seu corpo seja controlado por outra pessoa para salvar a mulher que ainda ama.
(fonte: www.skoob.com.br)


Acredito que uma boa parcela de leitores desenvolveu seu gosto pela leitura com livros de mistério ou policiais - Agatha Christie, Rex Stout, Conan Doyle, Georges Simenon. E eu não me excluo. Mas antes de ler a Dama do Mistério, eu já me aventurava por esse estilo curtindo vários livros da Coleção Vagalume - quem foi adolescente nos anos 80 deve lembrar bem deles: O mistério do cinco estrelas, de Marcos Rey; O escaravelho do diabo, de Lúcia Machado de Almeida, entre tantos outros.

Desde então, sempre que tive em mãos um exemplar desse tipo de literatura, ficava na expectativa de reviver aquela sensação gostosa de ver-me envolvida pela estória a ponto de não poder largar a leitura. E, confesso, há muito tempo isso não ocorria. Até eu tirar Ponto cego da prateleira da livraria e começar a folheá-lo. Como de hábito, li a contracapa, as orelhas e nesse ponto já estava interessada na estória. Comecei a ler o prólogo e... "Bingo!", lá estava aquela sensação novamente. A trama é bastante envolvente, o suficiente para que eu terminasse de lê-lo em menos de um dia. Felizmente, a impressão inicial não se desfez. Gostei muito, apesar de alguns poréns que não chegaram a tirar o prazer da leitura.

O autor escreve de modo a induzir o leitor a seguir lendo. E há duas coisas na estrutura da estória que eu curto bastante e que foram bem utilizadas por Colbert. Nenhuma delas é novidade, mas o autor fez bom uso do recurso:
  1. O prólogo é um trecho de algo que só vai acontecer quase no final do livro, um pouco antes do clímax. O leitor é jogado numa fogueira, sem entender muito bem o que está ocorrendo. O autor acertou em cheio na escolha da cena que é oferecida como “aperitivo”. O trecho deixa quem lê com aquele comichão de saber logo “que diabos é aquilo”. E não lhe resta alternativa a não ser continuar com a leitura.
  2. Inicialmente, a estória tem dois fios narrativos principais - um deles acompanha Daniel; o outro, Pacino. Estes se alternam com um terceiro - acompanhando o(s) vilão(ões) - que, apesar de menos desenvolvido não é menos importante e intrigante. E o autor, na maioria dos capítulos, deixa um fio pendente, fazendo o leitor querer avançar logo pra continuar daquele ponto. Semelhante a Game of Thrones, com a diferença de que o narrador, neste caso, é onisciente e não em primeira pessoa. Boa estratégia que cria expectativa do momento em que as estórias irão se cruzar.

Não dá para deixar de notar certa semelhança com os livros de Dan Brown, principalmente Código da Vinci. Os principais elementos estão ali:
  • estória ambientada em outro país, dando oportunidade para um tour turístico enquanto os eventos se sucedem;
  • um casal de desconhecidos que se une para solucionar um mistério. Ele, um forasteiro. Ela, moradora da cidade “estrangeira”, que lhe serve de guia;
  • um sujeito aparentemente fora do comum, incumbido de uma missão obscura - ou mais de uma.

Contudo, as semelhanças acabam aí. O estilo de Colbert é bem menos megalomaníaco e grandiloquente, e o texto não tem tanto aquele aspecto de “pronto para virar filme”. Os personagens são mais humanos, causando maior empatia do leitor. Em Código da Vinci, o enfoque é maniqueísta, não há meio-termo. Com o perdão do clichê, é tudo preto no branco. Os personagens, apesar de alguns pequenos defeitos, são facilmente separados entre mocinhos - bons, altruístas, cheios de qualidades - e bandidos - maus, traiçoeiros, cheios de defeitos. Enquanto que, em Ponto cego, há gradações de cinza entre os extremos, como o investigador Pacino. Ele é quase um anti-herói - alcóolatra, mal-humorado, irascível, apartado dos colegas de trabalho, execrado pelo chefe -, mas que apesar de toda sua vivência ainda se esforça para cumprir seu dever de policial, tentando garantir que a justiça seja feita. Resumindo, um mocinho com muitos, muitos defeitos. Ainda sobre os personagens, ou melhor, sobre a construção deles. Enquanto que os masculinos são muito bem construídos - temos a sensação de conhecê-los muito bem -, os femininos deixam um pouco a desejar. Achei-os mais superficiais e, em alguns casos, careciam de motivação plausível - Sophia, por exemplo.

Tenho uma observação quanto ao final. Tive a impressão de estar assistindo a um daqueles filmes em que o roteirista planta um monte de questões durante a trama que apenas são respondidas, às pressas, nos últimos 20 minutos de filme. Achei que o desenlace ocorreu rápido demais e que a “cena pós-crédito”, ou melhor, pós-clímax se desenrolou em tão poucas páginas que quase pareceu um deus ex machina, uma solução um pouco forçada.

Mas enfim, exceto por alguns pequenos percalços na narrativa - e alguns pequenos erros de revisão - o livro merece ser lido. É uma trama policial nos moldes daquelas “de antigamente”, com os mistérios sendo esclarecidos por pessoas - pelas células cinzentas como diria Hercule Poirot - e não por traquitanas tecnológicas. Vale investir algumas horas e acompanhar Daniel em sua busca, enquanto conhecemos um pouco mais de Veneza.



Sobre o autor:
Felipe Colbert é autor de dois livros e especialista em estruturação de romances. Possui trabalhos publicados no Brasil e na Europa. Estreou na literatura em 2008 com a obra policial A entrevista ininterrupta, publicada pela Novo Século.
(fonte: http://www.felipecolbert.com.br)

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