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O universo

coded by ctellier | tags: | Posted On quinta-feira, 30 de setembro de 2010 at 02:42

O universo não é uma idéia minha.
A minha idéia do Universo é que é uma idéia minha.
A noite não anoitece pelos meus olhos,
A minha idéia da noite é que anoitece por meus olhos.
Fora de eu pensar e de haver quaisquer pensamentos
A noite anoitece concretamente
E o fulgor das estrelas existe como se tivesse peso.

Alberto Caeiro

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Pessoa

coded by ctellier | tags: | Posted On quarta-feira, 22 de setembro de 2010 at 22:09

"O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
Olhando para a direita e para a esquerda,
E de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
É aquilo que nunca antes eu tinha visto,
E eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo comigo
Que tem uma criança se, ao nascer,
Reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
Para a eterna novidade do mundo...
Creio no mundo como num malmequer,
Porque o vejo. Mas não penso nele
Porque pensar é não compreender...
O mundo não se fez para pensarmos nele
(Pensar é estar doente dos olhos)
Mas para olharmos para ele e estarmos de acordo."

Fernando Pessoa, aka Alberto Caeiro in 'O Guardador de Rebanhos'

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O exercício da poesia

coded by ctellier | tags: | Posted On quarta-feira, 1 de setembro de 2010 at 17:43


"O poema
antes de escrito
antes de ser
é a possibilidade
do que não foi dito
do que está
por dizer
e que
por não ter sido dito
não tem ser
não é
senão
possibilidade de dizer
mas
dizer o quê?
dizer
olor de fruta
cheiro de jasmim?
mas
como dizê-lo
se a fala não tem cheiro?"

Ferreira Gullar, in Fica o não dito por dito

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Cerveau

coded by ctellier | tags: | Posted On segunda-feira, 23 de agosto de 2010 at 13:24

"Le Cerveau est plus grand que le Ciel
Car, metton-les côte à côte
le Cerveau contiendra le Ciel
largement, et toi avec

Le Cerveau est plus profond que la Mer
Tenons-les ensemple, Bleu sur Bleu
C'est le cerveau que absorbera la mer
Comme l'Eponge, l'eau d'un Seau

Le Cerveau a juste le poids de Dieu
Car pesons-les, Livre par Livre
Et leur difference, s'il y en a une
Sera celle qu'il y a entre Syllabe et Son"

Emily Dickinson in Le Paradis est au choix

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(THE BRAIN is wider than the sky,
For, put them side by side,
The one the other will include
With ease, and you beside.

The brain is deeper than the sea,
For, hold them, blue to blue,
The one the other will absorb,
As sponges, buckets do.

The brain is just the weight of God,
For, lift them, pound for pound,
And they will differ, if they do,
As syllable from sound )

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coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 21 de agosto de 2010 at 13:06

"Quem dera que houvesse
Um terceiro estado pra alma, se ela tiver só dois...
Um quarto estado pra alma, se são três os que ela tem...
A impossibilidade de tudo quanto eu nem chego a sonhar
Dói-me por detrás das costas da minha consciência de sentir..."

Álvaro de Campos (aka Fernando Pessoa), in A casa branca nau preta

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Tocaia

coded by ctellier | tags: | Posted On segunda-feira, 21 de junho de 2010 at 21:45

meteorologia: sol novamente
pecado da gula: pizza (de novo)
teor alcoolico: 2 murphy's
audio: add #796
video: high stakes poker

Que o amor nos possuísse no meio de um descampado
num jogo que não tem regra nem pecado

Numa tortura lenta com ritual absoluto
que o amor nos possuísse doce e bruto

Que houvesse fuga e corrida e grito agudo na boca
que a dança fosse selvagem e louca

Com maldade instintiva, guerra de unha e dente
todo impulso desmedido, corpo quente

Depois na hora do cerco, firmes os cinco sentidos
vem o animal e se envolve atraído

Pra que dure mais o jogo, ora foge ora se entrega
se joga, se abre, provoca, depois nega

Cúmplice do adversário, de manso se defendendo
vai pouco a pouco à cilada cedendo

Corpo todo se espalhando no meio do descampado
na luta, quem não domina é dominado

E aí segura a corrente, manseia cavalo bravo
na luta, quem não é senhor é escravo

Chegada a hora da posse, o momento mais violento
novilha presa arqueia sem movimento

No meio do seu combate foi afinal possuída
e geme por essa morte melhor que a vida

Se enrosca sentindo o gosto de ter sido capturada
sabendo que foi vencedora e derrotada

E depois de tudo, resta um cansaço ainda melhor
sorriso dentro do corpo, fora o suor

Que o amor nos possuísse com sensação de perigo
no meio do descampado como a dois inimigos

Bruna Lombardi

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Rosa

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 5 de junho de 2010 at 18:54

"Rosa é a flor feminina que se dá toda e tanto que para ela só resta a alegria de ter se dado. Seu perfume é mistério doido. Quando profundamente aspirada toca no fundo íntimo do coração e deixa o interior do corpo inteiro perfumado. O modo de ela se abrir em mulher é belíssimo..."

Clarice Lispector, in Água Viva

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Ponte

coded by ctellier | tags: | Posted On domingo, 16 de maio de 2010 at 23:50

meteorologia: sol de dia, friozinho a noite
pecado da gula: doce de leite
teor alcoolico: 2 doses de absolut
audio: rapaduracast #182
video: fargo

Frágil ponte:
arco-íris, teia
de aranha, gaze
de água, espuma,
nuvem, luar.
Quase nada:
quase
a morte.

Por ela passeia,
passeia,
sem esperança nenhuma,
meu desejo de te amar.

Céu que miro?
- alta neblina.
Longo horizonte,
- mas só de mar.

E esta ponte
que se arqueia
como um suspiro,
- tênue renda cristalina -
será possível que transporte
a algum lugar?
Por ela passeia,
passeia
meu desejo de te amar.

Em franjas de areaia,
chegada do fundo
lânguido do mundo,
as vezes, uma sereia
vem cantar.
E em seu canto te nomeia.

Por isso a ponte se alteia,
e para longe se lança,
nessa frágil teia,
- invisível, fina
renda cristalina
que a morte balança,
torna balançar...

(Por ela passeia
meu desejo de te amar.)

Cecília Meireles

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Seiscentos e sessenta e seis

coded by ctellier | tags: | Posted On segunda-feira, 3 de maio de 2010 at 06:38

"A vida é uns deveres que nós trouxemos para fazer em casa.
Quando se vê, já são 6 horas: há tempo...
Quando se vê, já é 6ªfeira...
Quando se vê, passaram 60 anos...
Agora, é tarde demais para ser reprovado...
E se me dessem - um dia - uma outra oportunidade,
eu nem olhava o relógio.
seguia sempre, sempre em frente ...

E iria jogando pelo caminho a casca dourada e inútil das horas."

Mario Quintana, in Esconderijo do tempo

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Igual-desigual

coded by ctellier | tags: | Posted On sexta-feira, 23 de abril de 2010 at 01:40

Eu desconfiava:
todas as histórias em quadrinho são iguais.
Todos os filmes norte-americanos são iguais.
Todos os filmes de todos os países são iguais.
Todos os best-sellers são iguais.
Todos os campeonatos nacionais e internacionais de futebol são
iguais.
Todos os partidos políticos
são iguais.
Todas as mulheres que andam na moda
são iguais.
Todas as experiências de sexo
são iguais.
Todos os sonetos, gazéis, virelais, sextinas e rondós são iguais
e todos, todos
os poemas em versos livres são enfadonhamente iguais.

Todas as guerras do mundo são iguais.
Todas as fomes são iguais.
Todos os amores, iguais iguais iguais.
Iguais todos os rompimentos.
A morte é igualíssima.
Todas as criações da natureza são iguais.
Todas as ações, cruéis, piedosas ou indiferentes, são iguais.
Contudo, o homem não é igual a nenhum outro homem, bicho ou
coisa.
Não é igual a nada.
Todo ser humano é um estranho
ímpar.

Carlos Drummond de Andrade

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coded by ctellier | tags: , | Posted On segunda-feira, 19 de abril de 2010 at 06:53

"(...)
E eis que depois de uma tarde de "quem sou eu" e de acordar à uma hora da madrugada ainda em desespero - eis que às três horas da madrugada acordei e me encontrei. Fui ao encontro de mim. Calma, alegre, plenitude sem fulminação. Simplesmente eu sou eu. e você é você. É vasto, vai durar.
O que te escrevo é um "isto". Não vai parar: continua.
Olha para mim e me ama. Não: tu olhas para ti e te amas. É o que está certo.
O que te escrevo continua e estou enfeitiçada."

Clarice Lispector, in Água Viva

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Funeral Blues

coded by ctellier | tags: | Posted On quinta-feira, 8 de abril de 2010 at 23:45

meteorologia: e a chuva não pára
pecado da gula: torradas com brie
teor alcoolico: 3 doses de black label, alguns chopps
audio: aimée mann

A melhor declaração de amor "ever". Sou grata a Mike Newell (Four weddings and a funeral) por ter incluído este poema no filme. Sensacional.


Funeral Blues

Stop all the clocks, cut off the telephone,
Prevent the dog from barking with a juicy bone,
Silence the pianos and with muffled drum
Bring out the coffin, let the mourners come.

Let aeroplanes circle moaning overhead
Scribbling on the sky the message He is Dead.
Put crepe bows round the white necks of the public doves,
Let the traffic policemen wear black cotton gloves.

He was my North, my South, my East and West,
My working week and my Sunday rest,
My noon, my midnight, my talk, my song;
I thought that love would last forever: I was wrong.

The stars are not wanted now; put out every one,
Pack up the moon and dismantle the sun,
Pour away the ocean and sweep up the woods;
For nothing now can ever come to any good.

W.H.Auden

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coded by ctellier | tags: , | Posted On quarta-feira, 24 de março de 2010 at 00:35

"Onde aprender a odiar para não morrer de amor?"

Clarice Lispector, in Laços de Família

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Desencanto

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 20 de março de 2010 at 18:00

Eu faço versos como quem chora de desalinho...
.. de desencanto...
fecha o meu livro,
se por agora não tens motivo nenhum de pranto
meu verso é sangue. Volúpia ardente...
tristeza esparsa... remorso vão...
Doi-me nas veias.
Amargo e quente cai gota a gota do coração
E nestes versos de angústia rouca
Assim dos lábios a vida corre,
deixando sabor doce na boca
que faz versos como quem morre!

Manuel Bandeira

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coded by ctellier | tags: | Posted On quarta-feira, 17 de março de 2010 at 08:22

Quando a alma vibra, atormentada, às pulsações de um coração amargurado pelo peso da desgraça, este, numa explosão irremediável, num desabafo sincero de infortúnios, angústias e mágoas indefiníveis, externa-se, oprimido, por uma gota de água ardente como o desejo e consoladora como a esperança; e esta pérola de amargura arrebatada pela dor do oceano tumultuoso da alma dilacerada e a própria essência do sofrimento é a lágrima.
Rubem Braga

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Motivo

coded by ctellier | tags: | Posted On domingo, 14 de março de 2010 at 22:03


Eu canto porque o instante existe
e a minha vida está completa.
Não sou alegre nem sou triste:
sou poeta.

Irmão das coisas fugidias,
não sinto gozo nem tormento.
Atravesso noites e dias
no vento.

Se desmorono ou se edifico,
se permaneço ou me desfaço,
— não sei, não sei. Não sei se fico
ou passo.

Sei que canto. E a canção é tudo.
Tem sangue eterno a asa ritmada.
E um dia sei que estarei mudo:
— mais nada.


Cecília Meireles

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Ternura

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 13 de março de 2010 at 06:08

meteorologia: calor... calor...
pecado da gula: pão francês na chapa
teor alcoolico: nada ainda
audio: add 760
video: lost s06e07

Eu te peço perdão por te amar de repente
Embora o meu amor seja uma velha canção nos teus ouvidos
Das horas que passei à sombra dos teus gestos
Bebendo em tua boca o perfume dos sorrisos
Das noites que vivi acalentado
Pela graça indizível dos teus passos eternamente fugindo
Trago a doçura dos que aceitam melancolicamente.
E posso te dizer que o grande afeto que te deixo
Não traz o exaspero das lágrimas nem a fascinação das promessas
Nem as misteriosas palavras dos véus da alma...
É um sossego, uma unção, um transbordamento de carícias
E só te pede que te repouses quieta, muito quieta
E deixes que as mãos cálidas da noite encontrem sem fatalidade o olhar extático da aurora.

Vinícius de Moraes

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coded by ctellier | tags: | Posted On quarta-feira, 10 de março de 2010 at 06:40

"(...)
Faz de conta que uma veia não se abrira e faz de conta que dela não estava em silêncio alvíssimo escorrendo sangue escarlate, e que ela não estivesse pálida de morte mas isso fazia de conta que estava mesmo de verdade, precisava no meio do faz de conta falar a verdade de pedra opaca para que contrastasse com o faz de conta verde-cintilante, faz de conta que amava e era amada, faz de conta que não precisava de morrer de saudade
 (...)
faz de conta que vivia e não que estivesse morrendo pois viver afinal não passava de se aproximar cada vez mais da morte, faz de conta que ela não ficava de braços caídos de perplexidade quando os fios de ouro que fiava se embaraçavam e ela não sabia desfazer o fino fio frio, faz de conta que ela era sábia bastante para desfazer os nós de corda de marinheiro que lhe atavam os pulsos, faz de conta que tinha um cesto de pérolas só para olhar a cor da lua pois ela era lunar, faz de conta que ela fechasse os olhos e seres amados surgissem quando abrisse os olhos úmidos de gratidão, faz de conta que tudo o que tinha não era faz de conta, faz de conta que se descontraía o peito e uma luz douradíssima e leve a guiava por uma floresta de açudes mudos e de tranqüilas mortalidades, faz de conta que ela não era lunar, faz de conta que ela não estava chorando por dentro — pois agora mansamente, embora de olhos secos, o coração estava molhado; ela saíra agora da voracidade de viver."


Clarice Lispector, in A morte necessária em pleno dia

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Fernando Pessoa

coded by ctellier | tags: | Posted On domingo, 7 de março de 2010 at 19:53

"(...)
Vi todas as coisas, e maravilhei-me de tudo,
Mas tudo ou sobrou ou foi pouco - não sei qual - e eu sofri.
Vivi todas as emoções, todos os pensamentos, todos os gestos,
E fiquei tão triste como se tivesse querido vivê-los e não conseguisse.
Amei e odiei como toda gente,
Mas para toda a gente isso foi normal e instintivo,
E para mim foi sempre a exceção, o choque, a válvula, o espasmo."

Álvaro de Campos, in Passagem das Horas

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Clarice, sempre, Lispector

coded by ctellier | tags: | Posted On terça-feira, 2 de março de 2010 at 21:13


"Atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia."

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