Neon azul

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 19 de março de 2011 at 18:14

meteorologia: nublado com garoa intermitente
pecado da gula: pizza amanhecida
teor alcoolico: nada ainda
audio: nerdcast #251

"Escolha o seu lugar, faça o seu pedido. Depois do primeiro drinque, você jamais será o mesmo."

Neon azul, de Eric Novello

Mais um "atravessador" na minha fila de leitura. Ao invés de terminar o que comecei - a leitura de 4 livros cuja leitura foi interrompida pelos mais diversos motivos - tumultuei a sequência natural, lendo "Neon azul".

Já conhecia Novello, sendo ouvinte assídua do podcast Papo na Estante, do qual ele participa. E, há algumas semanas, ele iniciou a publicação de um vlog sobre literatura. Assisti a todos os episódios de uma vez e acabei ficando curiosa sobre a produção literária dele. Resolvi comprar o livro mais recente para matar essa curiosidade.

O livro chegou, autografado, e a intenção não era lê-lo logo. Mas por se tratar de uma estória em formato fix-up (*) fiquei tentada a fazê-lo no intervalo dos demais. Lêdo engano. Nada de leitura nos intervalos, li-o de uma só vez, passando-o à frente dos outros. O formato não é nenhuma novidade, sendo utilizado frequentemente ao reaproveitar para um livro contos anteriormente publicados em revistas (ou blogs). E Novello soube bem se utilizar desse recurso. Por sugestão dele, li os contos na ordem que estão no livro, apesar de saber que poderia ter feito diferente.

Fã incondicional de Edgar Allan Poe, gosto muito de narrativas de realismo fantástico. Literatura cotidiana com "um pezinho" no irreal, no fantástico, no mágico, com uma linha tênue separando os dois mundos. Tão tênue que, por vezes, não há como dissociá-los, um acaba por ser parte intrínseca do outro.
E o livro de Novello é assim. Uma fantasia urbana em que o leitor vê-se às voltas com o dia-a-dia de um bar, o Neon Azul, no qual aparentemente cada cliente tem uma experiência diferenciada. Sendo que o próprio bar parece estar no limiar entre realidade e fantasia.

Gostei das frases curtas, mas nem por isso menos elaboradas. Mas gostei principalmente das entrelinhas. O que não é dito, o que fica a cargo do leitor preencher. Eu mesma, preenchi algumas delas de maneiras diferentes. Ideias e teorias diversas para um mesmo acontecimento. Qual das versões é a correta? Seria a mais provável? A mais bizarra? Ou a mais surreal? Não sei. Mas não creio que seja mesmo preciso que apenas uma delas seja a correta. O autor obviamente sabe, mas eu como leitora inveterada acho que não quero saber. Prefiro preencher as lacunas a meu modo. É mais divertido, mais lúdico e, certamente, torna a leitura muito mais interessante. Assim como é um atrativo adicional ir juntando as peças, montando aos poucos a colcha de retalhos que agrega as estórias pois, a exemplo de Lost, o caminho dos personagens se entrecruza dentro e fora do bar.

Instigante também é o questionamento da moralidade. O que é certo ou errado? Devemos dizer sim à realização de um desejo mesmo não sendo moralmente correto? Essa escolha permeia todos os contos e as únicas certezas são de que há sempre um preço a pagar e que a satisfação do desejo não é garantia de final feliz.

Por não ser um romance com início, meio e fim, chega-se ao final da leitura com uma certa inquietação. Não é desagradável mas, mesmo assim, uma inquietação. Termina-se o livro querendo mais. Mais estórias, conhecer mais personagens - qual a estória do barman, dos seguranças, dos demais funcionários? Mas esse suspense, esse final inexistente tem simplesmente tudo a ver com o livro. Seria totalmente brochante ter um capítulo final "fechando" todos os círculos, amarrando todas as pontas soltas.

Li, gostei e recomendo a leitura.



(*) Estrutura narrativa que é um meio-termo entre coletânea de contos e romance. São contos independentes mas interligados entre si, formando uma estória maior, de complexidade similar ao romance.

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Pé no chão

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 12 de março de 2011 at 17:14

meteorologia: chuvinha chata o dia todo
pecado da gula: pão na chapa com manteiga
teor alcoolico: nada ainda
audio: nerdcast #250
video: nerd office s02e08

Por conta da chuva intermitente desde cedo, meu treino de hoje - que seria na USP - acabou sendo feito indoor. Lógico que prefiro correr na rua ou em parques, mas não gosto de correr na chuva. Enfim, coloquei um bom filme ("Up") e encarei 50min. na esteira.

Como já afirmou Einstein, “A curiosidade é mais importante que o conhecimento.”. E, sinceramente, já há algum tempo estou bastante curiosa sobre um assunto que é fonte de discussão entre corredores, treinadores, ortopedistas e qualquer um que se interesse minimamente por corrida: correr descalço (ou quase).

Nas poucas oportunidades que tive de treinar na praia, eu sempre corro descalça. Única e exclusivamente porque eu a-do-ro a sensação de estar descalça na areia. Lógico que também conta o fato de que, estando sem tênis, é bem menor a probabilidade de surgir algum incômodo e/ou lesão devido a grãos de areia dentro da meia ou do tênis. Mas honestamente, nunca tinha me passado pela cabeça fazer isso em outro local que não fosse ali.

Tenho lido vários artigos, reportagens, depoimentos sobre o assunto. Não sou, nem pretendo ser, especialista no assunto. Sou movida, como disse acima, principalmente pela curiosidade. Não sofro de nenhuma dor crônica, típica de corredores, da qual eu queira (precise) me livrar - principal benefício apontado pela maioria dos new adopters dessa prática. Lógico que questiono a necessidade de pagar cada vez mais caro por tênis que melhoram a performance (de acordo com os próprios fabricantes). Será mesmo imprescindível gastar tanto num calçado de última geração?

Bom, chega de blá-blá-blá e voltemos ao treino de hoje. Em treinos na esteira, há algum tempo, vários meses já, me habituei a fazer o desaquecimento descalça - aquela caminhadinha nos últimos 5-10 minutos do treino. Em parte para aliviar o calor, deixar os pés respirarem, mas principalmente porque eu gosto demais de andar descalça e, no meu caso, funciona como um ótimo relaxamento. E, desde o início do ano, tenho feito sempre a última série do meu treino sem os tênis. Nas primeiras vezes, por curiosidade mesmo. Perceber como a passada se alterava, se os pés iriam doer, se os joelhos iriam se incomodar, se eu conseguiria manter o ritmo, entre outras observações. Sem notar qualquer prejuízo depois das primeira vezes, virou um hábito finalizar os treinos de esteira dessa maneira. Como os adeptos afirmam que fortalece a musculatura e aprimora a passada e já que não me causava qualquer incômodo, não vi mal algum em continuar.

E depois de procastinar bastante, hoje resolvi fazer o treino todo sem meus "super tênis performáticos". Fiz metade dele calçando o que uso (foto) para fazer TRX Suspension (veja o que é aqui) e a outra metade descalça. Conclusões - algumas já identificadas fazendo a parte final do treino sem tênis:
  • passada » sim, ela se altera, o passo fica automaticamente mais curto (assim como ao correr na areia) e o "pouso" é feito com a parte medial do pé ao invés do calcanhar;
  • pé calçado ou não » não notei diferença, não senti incômodo ou dor em maior ou menor grau em nenhum dos casos;
  • velocidade » corrida confortável até 11km/h; maior que isso, a ampliação instintiva da passada causou certo desconforto na aterrissagem;
  • esforço » apesar de parecer improvável, não é maior do que estando com tênis e não terminei o treino mais cansada que de costume;
  • pós-treino » nenhuma diferença, nem dor, nem cansaço incomum.

Por fim, não pretendo passar a correr sempre descalça. Apesar de gostar, acho que (para mim) é o bastante variar os treinos apenas para quebrar a monotonia de correr na esteira. E, finalmente, não tenho a menor intenção de correr descalça na rua. Dia desses, saí correndo rua afora atrás da minha cachorrinha. Estava descalça e não gostei nem um pouco da experiência. Além disso, convenhamos que é bem ruim correr olhando o tempo todo para o chão a fim de evitar buracos, pedras e afins.

Não tenciono tomar partido de um ou outro: correr (quase) descalço ou com um tênis especialmente projetado para melhorar a minha performance. Como em qualquer assunto, ainda penso que a melhor opção é a que melhor se adapta a mim, e não o que um ou outro especialista afirme ser o mais indicado. É isso.

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Dia internacional da mulher (atrasado)

coded by ctellier | tags: , | Posted On sexta-feira, 11 de março de 2011 at 00:05

meteorologia: incerto, sol e nuvens
pecado da gula: pizza
teor alcoolico: 2 stella artois
audio: rapaduracast #225
video: inception

O dia internacional da mulher já passou. Dezenas de sites publicaram listas e mais listas disto e daquilo referenciando (e reverenciando) as mulheres. Meio atrasada, mas também fiz a minha.

Mulheres que não podem faltar no meu mp3 player:


  • Lisa Gerard - Sacrifice


  • Alicia Keys - Fallin’


  • Nina Simone - I put a spell on you


  • Billie Holiday - Lover man


  • Madeleine Peyroux - J'ai Deux Amours


  • Ana Carolina - Bicudos


  • Cássia Eller - Non, je ne regrette rien


  • Enya - Caribbean Blue


  • Joan Jett - Bad Reputation


  • Elis Regina - Atrás da porta



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Jogos vorazes

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 5 de março de 2011 at 19:35

meteorologia: chuva e um friozinho metido a besta
pecado da gula: waffles
teor alcoolico: 2 smirnoff ice
audio: add #818

The hunger games, Suzanne Collins

"Este livro narra uma luta mortal pela sobrevivência num futuro sombrio, encenada por crianças e transmitida ao vivo para todos os habitantes de uma nação construída nas ruínas de um lugar anteriormente conhecido como Estados Unidos." (fonte: Livraria Cultura)

Essa foi a sinopse que li no site em que costumo comprar livros. Minha atenção sobre ele foi despertada ao ver um post no blog da Ana Carolina Silveira - Leitura Escrita - em que ela lista todos os livros adquiridos ou ganhos em 2011, até agora. E um deles era esse. Achei o nome bastante sonoro e provocou meu interesse. Além disso, um dos comentários no post fez a leitura parecer bastante atraente.

Como boa compradora compulsiva - e impulsiva - acabei adquirindo-o ao ir à livraria para procurar outra coisa. Vi-o na prateleira, li a contra-capa, as orelhas e não tive outra alternativa a não ser levá-lo para casa (isso foi na 3a.feira, há 5 dias).

Terminei de lê-lo hj. Gostei e admito que me surpreendeu. Excedeu as expectativas. Na verdade, não eram muitas pois pouco sabia do livro. Apenas quando estava quase no fim da leitura que, vasculhando a internet, fiquei sabendo que já era sucesso de vendas, que fazia parte de uma trilogia e que vai virar filme. Possivelmente, se eu soubesse que fazia parte de uma coleção não o teria adquirido. Principalmente, sabendo que não há data prevista para o lançamento dos outros dois volumes.

A leitura é rápida, pois não vemos a hora de chegar ao final para saber a conclusão da estória. E a autora utiliza-se muito bem da sucessão de pequenos conflitos (e respectiva solução) para "agarrar" o leitor do início ao fim. Todos os elementos da jornada do herói, estão ali, facilmente identificáveis. Um ponto a favor foi o fato de não enfocar os personagens de modo maniqueísta. Isso os torna palpáveis, mais próximos da realidade, pois ninguém é 100% bom ou 100% mau. Os gradientes de cinza estão sempre presentes.

Há algum tempo não lia um livro que não tivesse vontade de largar enquanto não chegasse ao fim. Os personagens são cativantes. O cenário pós-apocalíptico difere da maioria dos livros que se utilizam dessa ambientação. O texto encanta por não apenas divertir. A crítica social subjacente nos prende tanto à estória quanto às aventuras - e desventuras - dos personagens.

Recomendo. Ótima sugestão para este sábado chuvoso de carnaval.

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Iris

coded by ctellier | tags: | Posted On at 09:24

meteorologia: chuva que não pára
pecado da gula: pizza amanhecida
teor alcoolico: nada ainda
audio: nerdcast #249

"There is only one freedom of any importance, freedom of the mind." (Iris Murdoch)

Iris, direção de Richard Eyre

Não tinha intenção de fazer um post sobre este filme. Ao terminar de assisti-lo, achei que não valia a pena. Mas discorri tanto (*) sobre ele durante a semana que, por fim, pareceu merecedor de um comentário um pouco mais extenso do que o deixado no GetGlue.

Gosto muito de Judi Dench, ou melhor, Dame Judi Dench. Suas atuações são sempre concisas e bastante envolventes - quando o filme o demanda, lógico ("The Chronicles of Riddick" e os da série 007 certamente não contam). Aliás, todo o elenco está excelente. Judi Dench e Kate Winslet como Iris Murdoch. Jim Broadbent e Hugh Bonneville, como John Bayley (marido de Iris). O maior mérito das atrizes é conseguir convencer o público de que ambas são a mesma pessoa. E mesmo não havendo semelhança física entre as duas, elas o conseguem com maestria.

O filme alterna entre a juventude de Iris Murdoch e o momento em que começam a surgir os primeiros sintomas do Alzheimer. Apesar de as idas e vindas no tempo serem excessivas e contribuirem para o filme ser menos atraente, o contraste entre a persona nessas duas fases é o que prende o expectador.
A decadência causada pelo Alzheimer incomoda não só pela doença em si. Mas, no caso da autora, por privá-la de algo tão caro a ela desde a juventude: o uso da palavra. É extremamente aflitivo vê-la perder-se em tentativas frustradas de continuar fazendo o que dava sentido à sua vida, transformar ideias em palavras. Para quem gosta de escrever (como eu) e tem apreço pelo uso da palavra, essa situação deflagra uma agonia difícil de descrever.

Enfim, é um ótimo exemplo de como o "capital humano" faz diferença. Não é um grande filme. O roteiro não é excepcional, os cenários não são grandiosos, a trilha sonora não é memorável, a direção fica muito, muito aquém da originalidade, não tem efeitos especiais mirabolantes. Mas só a atuação do elenco já vale a experiência de assisti-lo.


(*) Agradecimentos especiais ao feliz proprietário da orelha que foi feita de repositório dos meus comentários.

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