Incinerando películas » Matchstick men

coded by ctellier | tags: , | Posted On quarta-feira, 31 de agosto de 2011 at 20:47

meteorologia: friooooooooo
pecado da gula: misto-quente
teor alcoolico: 2 smirnoff ice
audio: contra-relógio no ar #018
video: fringe

Os vigaristas, direção Ridley Scott

Sinceramente, não esperava muito desse filme. Ainda bem, por que conseguiu ser pior do que eu esperava.
Resolvi assistir por terem comentado comigo sobre a atuação de Nicholas Cage como um portador de TOC (transtorno obsessivo-compulsivo), cheio de tiques e com a típica mania de limpeza. E foi só o que se salvou no filme.

A primeira meia hora foi tão arrastada que quase desisti de continuar assistindo. Trinta minutos para apresentar um personagem foi um exagero. Cansativo demais. Persisti, na esperança de que o filme melhorasse depois.

Melhorou, mas não o suficiente para eu achá-lo bom. Além de várias situações bastante previsíveis, a estória simplesmente não avançava.
Passada a metade do filme, comecei a ter um certo palpite sobre o rumo da estória que realmente me deixou incomodada. Devido ao avançado da hora, parei de assistir faltando pouco menos que 30 minutos de filme. Mas fiquei pensando sobre a minha desconfiança e não me conformava com a possibilidade de ela se confirmar. Não pensei que Ridley Scott, escolheria fazer um filme com um roteiro tão simplista e tão óbvio. O desfecho não poderia ser tão medíocre. Mas, infelizmente, era. Contei meu palpite a um amigo que já assistira ao filme e ele confirmou o que eu temia.

Enfim, exceto pela performance de Nicholas Cage (o que, na minha opinião, não é razão suficiente) não é um filme que valha a pena ser assistido.

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"Give me the chance to do my very best"

coded by ctellier | tags: | Posted On segunda-feira, 22 de agosto de 2011 at 22:21

meteorologia: frio... muito frio
pecado da gula: chocolate quente
teor alcoolico: uma dose de absolut citron
audio: podcast disney mania 01
video: fringe


A festa de Babette (Babettes gæstebud)
Roteiro e direção Gabriel Axel

Não sei precisar quando foi a primeira vez que assisti a este filme. Era adolescente ainda e, apesar de não ser voltado ao público da minha idade, conseguiu me conquistar. Certamente, a temática do filme é em parte responsável - culinária sempre é algo que me agrada bastante. Mas não apenas isso. Assisti-o ainda muita vezes depois. E a cada uma delas, a singeleza da narrativa e os personagens cativantes me deleitaram. É o tipo de filme que, mesmo já conhecendo a estória, é sempre agradável assistir. Ainda hoje, ao revê-lo, experimento o prazer de descobrir algum detalhe ainda não notado. Poucos são os filmes com essa qualidade.

Filme dinamarquês, baseado num conto de Karen Blixen, narra a estória de Babette Harsan, que se refugia na casa de duas solteironas (filhas de um falecido pastor) num vilarejo da Dinamarca, fugida da repressão à Comuna de Paris. Elas a acolhem e a empregam como faxineira e cozinheira. Passados mais de uma dezena de anos, Babette descobre ter ganho na loteria e, grata às pessoas que a acolheram, decide oferecer um banquete à francesa, aproveitando a comemoração do centésimo aniversário do pastor.

Tudo no vilarejo gira em torno de privação. Essencialmente, privação de prazer, em qualquer forma. O pastor pregava a salvação através da renúncia. As irmãs sacrificaram suas paixões da juventude em nome da fé e das obrigações. Philippa abdicou de um relacionamento com um jovem oficial, Lorenz Lowenhelm, sobrinho de uma das devotas da seita fundada pelo pastor. Martine abriu mão de uma promissora, mas sequer iniciada, carreira como cantora, orientada por um cantor lírico de sucesso, Achille Papin. A chegada de Babette, perturba ligeiramente a rotina austera das irmãs. Tenta, com parco sucesso, adicionar um pouco de cor e sabor ao dia-a-dia insípido dos habitantes locais. Auxiliando as irmãs em seu trabalho social, seus dotes culinários logo são percebidos. Ligeiras alterações - um pouco de ervilhas ou pão embebido em cerveja para encorpar a sopa - conseguiam valorizar as receitas simples servidas aos idosos. Mas a escassez de recursos e os preceitos severos seguidos pela comunidade impedem mudanças muito significativas.

Ficamos conhecendo a estória da juventude das irmãs através de flash-backs, narrados em off por uma voz feminina. Tem-se a impressão de que alguém nos lê a estória de renúncia de ambas, na tentativa de fazer o espectador entender como e por quê vivem sozinhas e em condições tão rigorosas. As constantes idas e vindas temporais - além de esclarecer o espectador - dão a nítida impressão de que aqueles momentos são presença recorrente na memória das irmãs. Percebemos, depois de tomar conhecimento do passado, que alguns pequenos gestos e palavras de Philippa e Martine indicam que ambas são saudosas daquele tempo, mesmo não se arrependendo da decisão tomada.

A fotografia do filme é cinzenta, sombria, quase triste, acentuadamente na primeira metade do filme. O local, apesar de belo, é mostrado sempre em tonalidades pálidas. Significativamente, Babette chega ao vilarejo sob forte chuva, prenúncio do que a esperava ali, pouco sol, muitas nuvens – concreta e figurativamente falando. Tem de se adaptar ao ambiente puritano e bastante religioso, herança dos ensinamentos rígidos do pastor, mantidos vívidos junto à comunidade pelas duas irmãs. A vida na cidade é tão pacata que, ao assistir, temos a sensação de estarmos dentro daquele poema de Drummond, “Cidadezinha qualquer” (*). Tudo é feito silenciosamente, sem pressa, quase sem energia. E as cores frias e monótonas do ambiente, dos cenários e do figurino remetem exatamente a isso. Em dados momentos, tem-se a impressão de que falta vida aos habitantes do vilarejo. Os enquadramentos que se repetem, o ritmo lento da câmera e das cenas enfatizam esse sentimento.

Interessante notar que os sons “ambientes” têm bastante destaque, enfatizando planos-detalhe de pequenas cenas do dia-a-dia: o tilintar dos guizos dos cavalos, o som da água caindo na tigela, ou o chiado das frituras na panela, o som de eventos da natureza (chuva, vento, ondas, etc). Esses sons formam o contraponto elegante , também complemento, aos silêncios constantes, já que a trilha sonora é bastante discreta, totalmente de acordo com o clima do filme.

E, de uma hora para outra, depois que Babette fica sabendo do prêmio da loteria e resolve fazer o banquete, tudo muda. Na segunda metade do filme, tudo e todos (personagens, cenários, câmera, sons) parecem ter recebido uma injeção de ânimo. O banquete representa uma suspensão do cotidiano, antes mesmo de acontecer. E, na mente dos pacatos habitantes, apresenta-se quase como uma ruptura da sua realidade. Uma ameaça aos preceitos seguidos desde sempre. O ritmo cíclico do fazer e refazer todos os dias sempre a mesma coisa é quebrado. Mas não apenas isso. Os preparativos para o banquete funcionam como um “distúrbio na Força”. A perspectiva de experimentarem algo desconhecido modifica os habitantes. A vida se renova e se transforma em decorrência da criação de algo diferente do comum. O banquete é beneficamente subversivo e transgressor ao metamorfosear uma ação cotidiana (cozinha e servir) em arte. E essa transformação é percebida em todo o espaço fílmico. As cores se tornam mais vivas, tanto dos cenários quanto dos figurinos. A mesmice do interior da casa das irmãs é substituída pela diversidade de formas e cores dos ingredientes para o banquete, que Babette foi comprar. As cenas tornam-se mais movimentadas, o ritmo lento do início do filme é substituído por uma energia que reflete o ânimo de Babette. Os silêncios e as conversas quase sussuradas são susbtituídas por diálogos mais dinâmicos e audíveis. Os sons ambientes ainda estão presentes, mas eles também ficam mais “vivos”, menos contemplativos.

E sem sombra de dúvida, a melhor cena do filme é o banquete em si. Temendo as consequências do prazer pecaminoso que pudesse ser sentido, os congregados combinam entre si não sentir nada nem esboçar qualquer reação ao que fosse servido. Porém, apesar de nenhum comentário ser feito objetivamente sobre a comida, percebe-se a transformação que se opera nos convidados à medida que os pratos se sucedem. Eles são lentamente seduzidos pelos sabores. Animosidades se dissolvem, antigas desavenças se desfazem. O deleite gastronômico acaba por fazer com que cada um dos convivas queira expressar o melhor de si. O prazer de saborear algo tão delicioso não se mostra pecaminoso como tinham receado. Quase magicamente, a arte de Babette opera algo que os preceitos religiosos seguidos pela comunidade não tinham logrado alcançar.

A quantidade de símbolos e alegorias passíveis de interpretação é, sem dúvida, um dos maiores atrativos do filme. O sem-número de significados a serem apreendidos e a satisfação da descoberta de cada um deles geram um prazer similar ao experimentado pelos personagens. E sentimo-nos parte do filme ao compartilhar dessa mesma sensação. Difícil descrever, é necessário assistir.


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(*) “Casas entre bananeiras
mulheres entre laranjeiras
pomar amor cantar.

Um homem vai devagar.
Um cachorro vai devagar.
Um burro vai devagar.
Devagar... as janelas olham.

Eta vida besta, meu Deus. “


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Vamos cozinhar?

coded by ctellier | tags: , | Posted On domingo, 21 de agosto de 2011 at 14:58

meteorologia: frio e garoa
pecado da gula: pão na chapa com manteiga
teor alcoolico: 8.6
audio: contra-relógio no ar #016
video: fringe

Estava finalizando um post sobre um filme que gosto muito, “A festa de Babette” e, enquanto escrevia, comecei a lembrar de outros filmes em que a culinária é parte importante, ou essencial, da estória. Em alguns, é o pano de fundo perfeito para o enredo; em outros, é encarada como algo mágico, transformador. Mas em todos, o prazer, tanto de fazer quanto de degustar, é o que atrai e seduz.


  • Babettes gæstebud (A festa de Babette)
    Filme dinamarquês de 1987
    Direção e roteiro: Gabriel Axel
  • Como agua para chocolate (Como água para chocolate)
    Filme mexicano de 1992
    Direção: Afonso Arau
    Roteiro: Laura Esquivel
  • Chocolat (Chocolate)
    Filme norte-americano de 2000
    Direção: Lasse Hallström
    Roteiro: Robert Nelson Jacobs
  • Ratatouille
    Filme norte-americano de 2007
    Direção: Brad Bird, Jan Pinkava
    Roteiro: Brad Bird, Jim Capobianco
  • Estômago
    Filme brasileiro de 2007
    Direção: Marcos Jorge
    Roteiro: Fabrizio Donvito


  • Julie & Julia (Julie e Julia)
    Filme norte-americano de 2009
    Direção e roteiro: Nora Ephron
  • Vatel
    Filme franco-belga de 2000
    Direção: Roland Joffé
    Roteiro: Tom Stoppard, Jeanne Labrune
  • Tampopo
    Filme japonês de 1985
    Direção e roteiro: Jûzô Itami
  • Mostly Martha (Simplesmente Martha)
    Filme alemão de 2001
    Direção e roteiro: Sandra Nettelbeck
  • Big night (A grande noite)
    Filme norte-americano de 1996
    Direção: Campbell Scott, Stanley Tucci
    Roteiro: Stanley Tucci, Joseph Tropiano

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A moça do leite

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 13 de agosto de 2011 at 10:27


meteorologia: dia de sol... finalmente
pecado da gula: pão na chapa com manteiga
teor alcoolico: nada ainda
audio: nerdcast #272
video: fringe

Descobri (felizmente ou infelizmente) nas prateleiras do supermercado a legítima tentação em latinhas: o Leite Moça Cremoso, leite condensado para comer de colher. Depois de degustar a última colherada, fiquei pensando em todas as delícias que têm o orignal como ingrediente. Não consegui lembrar de nenhuma que eu não tivesse gostado. E duas delas estão na minha lista de doces prediletos - pudim de leite e brigadeiro (lógico).
A lista de hoje é isso, delícias feitas com leite condensado. Quem resiste?



Pudim de leite

Brigadeiro

Rosca especial (receita)

Bolo formigueiro (receita)

Batida de côco

Torta surpresa

Pudim de maria-mole

Torta de côco (receita)

Creme de maracujá

Creme chinês

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Cópia fiel

coded by ctellier | tags: | Posted On quarta-feira, 27 de julho de 2011 at 17:40

meteorologia: dia típico de inverno
pecado da gula: carré de cordeiro
teor alcoolico: nada ainda
audio: argcast #71

Copie Conforme
Direção e roteiro Abbas Kiarostami


A cópia de uma obra de arte tem o mesmo valor da obra original? Se a cópia é perfeita, não há que se considerar o copista tão talentoso quanto o autor do original? Enfim, deve-se julgar diferentemente o original e sua cópia? Se a cópia cumpre a contento o mesmo papel que o original, pode ser julgada inferior? Essa polêmica, que desde sempre permeia o meio artístico e parece interessar quase que apenas aos teóricos, é o gatilho inicial deste filme, o primeiro europeu de Kiarostami.

Conheci a obra de Kiarostami assistindo “Através das Oliveiras” que, ainda hoje, é o meu predileto. Depois dele, vieram os premiados “O gosto de cereja” (Palma de Ouro, 1997) e “O vento nos levará” (Leão de Ouro, 1999). A simplicidade, o lirismo das estórias e a singeleza com que as conta são, no meu entender, os traços mais característicos da obra desse cineasta iraniano. E este não foge à regra. Um sentimento de estranheza, ou mesmo confusão, talvez seja a primeira impressão ao terminar de assisti-lo. O que de modo algum tira a beleza do filme.

Um escritor inglês, James Miller (William Shimell), está na Toscana para o lançamento de um livro de sua autoria, em que discute o valor de cópias de obras de arte. Elle (Juliette Binoche), proprietária de uma pequena galeria, comparece ao lançamento mas não permanece, deixando um bilhete para que James a procure em sua loja. Os dois encontram-se depois e Elle acaba levando-o a um vilarejo próximo com o intuito de mostrar-lhe num museu uma “cópia original”. Durante o trajeto, a conversa, que inicialmente versa sobre o assunto do livro, em alguns momentos assume um revés pessoal, incomum para duas pessoas que acabaram de travar conhecimento. Param para tomar um café e, de modo inesperado, a relação entre eles se modifica. A dona do estabelecimento, ao vê-los discutindo sobre o livro, toma-os por um casal e, surpreendentemente, ambos passam a se comportar como se realmente o fossem.

A partir daí, o que para o público era apenas um certo desconforto torna-se uma dúvida concreta. A ligeira desconfiança, um pressentimento motivado por pequenos detalhes, entonações, gestos, olhares na conversação que antecede à mudança de atitude no café tomam corpo e deixam o espectador a se perguntar o que, enfim, é real ali. Em retrospecto, somos levados a pensar como e por que afinal os dois tornam-se íntimos tão abruptamente. Será que deixamos de observar algo que poderia indicar que se conheciam previamente? Ou simplesmente, embarcaram na fantasia, encenando um casamento de 15 anos? São duas pessoas que acabaram de se conhecer, fingindo ser um casal? Ou são um casal fingindo ter se conhecido há pouco? Ou não há fingimento algum? Seriam eles apenas duas pessoas cujas experiências se complementam, se fundem numa alquimia da qual resulta essa interação tão visceral?

A genialidade é que a cada trecho de conversa o espectador se convence de uma ou outra possibilidade. As situações são vividas, relembradas e revividas de modo tão intenso e detalhado que parecem verídicas. Mas ao mesmo tempo, ao trocarem de idioma o tempo todo, passando do inglês para o francês e daí para o italiano, reforça-se a impressão de que tudo seja uma encenação, uma brincadeira, um jogo de faz-de-conta. A naturalidade dos diálogos é tamanha que em alguns momentos nos pegamos pensando “Puxa, eu já disse isso!” E a identificação com as situações é tão forte que, mesmo com a confusão gerada por não ter certeza do que exatamente está acontecendo, o espectador é cativado e mesmerizado pelo que se sucede na tela.

Devido às caminhadas do casal pela cidade e sua interação em cena, inicialmente, tem-se a impressão de que se trata de uma comédia romântica nos moldes de “Antes do amanhecer”, dirigido por Richard Linklater, a que foi exaustivamente comparado. Mas não. Logo após o incidente no café, há, em certo momento, a impressão de que os personagens ultrapassam um portal. Caminham por uma viela deserta que, de um momento para outro, enche-se de vozes, varais, mulheres, crianças. É como se a realidade se modificasse, ou melhor, como se uma outra camada do tecido da realidade fosse colocada à mostra. A essência dos personagens começa a se transformar e a naturalidade (tanto dos personagens quanto das atuações), que foi o ponto forte na primeira parte do filme, dá lugar a um jogo de cena mais explícito, a interpretações mais intensas e, sem exagero, mais teatrais.

A fluidez dos diálogos e a espontaneidade dos atores em cena são envolventes, mesmo quando a dramaticidade e o jogo de cena tornam-se mais acentuados. Por exemplo, quando estão caminhando pela rua e Elle interrompe o que está falando para elogiar um bebê e imediatamente retoma o que estava falando. E o encanto da narrativa não seria o que é sem a presença de Juliette Binoche que, não por acaso, foi premiada como a melhor interpretação feminina no Festival de Cannes, 2010. A atriz, sempre perfeita em sua interpretação, domina a cena e, na sutileza de gestos e olhares, dá a medida certa da ambiguidade que permeia todo o filme. E o estreante Shimell, ainda assim sai-se muito bem, apesar do desafio interpretativo de contracenar com Binoche. Ambos são muito eficientes ao interpretar as nuances das mudanças pelas quais passam os personagens e a empatia entre eles é essencial ao dar veracidade a seu relacionamento. Além da interação entre o casal, é importante notar sua interação com outros casais encontrados durante o passeio. Um recém-casado, outro já com anos de convivência e ainda outro bem idoso. Como se vislumbrassem (ou relembrassem) fases distintas daquele relacionamento que aparentemente estão simulando.

Não bastasse a excelente construção dos diálogos, a riqueza de detalhes nos cenários e os enquadramentos precisos transformam algumas cenas quase em pinturas. É interessante notar o quanto Kiarostami ocupa-se com o que está “fora de foco” na cena e o quanto essas cenas de fundo são importantes no desenrolar da estória. A composição, a combinação dos elementos na tela é repleta de significados, como quando estão no restaurante e vemos James ao centro e a festa dos recém-casados ao fundo, do lado de fora do restaurante, como que representando uma lembrança do personagem. Ou então a marcação, a dica visual dada ao público, para evidenciar a mudança de atitude dos personagens. Quando os atores olham diretamente para a câmera (para o espectador) é como um alerta “Ei, preste atenção agora!”. Adicione-se a isso, o efeito estético obtido ao utilizar reflexos e recortes na construção da cena, como quando estão na galeria conversando e vemos apenas o rosto de Elle refletido numa das peças expostas. Ou a forma com que os atores são filmados dentro do carro conversando. A imersão do espectador na cena é quase impossível de evitar. Uma aula de cinema.

Possivelmente o intuito do diretor não fosse que o espectador matasse uma charada, descobrindo ao final do filme qual era a verdadeira relação entre os personagens. Ele nos faz pensar sobre o valor da cópia. O relacionamento talvez fosse a cópia de um casamento, mas mesmo assim tinha seu valor. Afinal, como afirma James no início de sua palestra, se a qualidade de uma obra de arte depende do contexto e está nos olhos de quem a vê, então uma falsificação pode ter a mesma validade do original.

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