“Is your behavior erratic?”

coded by ctellier | tags: | Posted On quarta-feira, 6 de março de 2013 at 09:07

meteorologia: calor e chuva, chuva e calor
pecado da gula: pão de queijo
teor alcoolico: nada ainda
audio: chico buarque
video: life on mars

The master (2012) - O mestre
roteiro e direção: Paul Thomas Anderson

(Resenha originalmente publicada no Vórtex Cultural, em 27/02/2013)

A trama se passa em 1950. Um veterano da Marinha, Freddie Quell (Joaquin Phoenix) volta da guerra instável e sem certeza de seu futuro. Como tantos outros, tem dificuldade de se situar na sociedade após o retorno, não só pelas sequelas psicológicas da guerra, mas também por ser um alcóolatra. Depois de abandonar vários empregos, principalmente por causa de seu temperamento explosivo, vagando pela cidade, entra no barco de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), que o acolhe. Dodd é o criador de uma espécie de seita ou religião - “A Causa” - que prega a existência de vidas passadas, usa a hipnose como forma de cura e métodos psicológicos pouco usuais como tratamento de problemas diversos. Quell vê-se arrebatado pela Causa e por seu carismático líder. Ele enxerga em Dodd a figura paterna que não teve. E Dodd enxerga em Quell não apenas o seguidor perfeito, como também a cobaia perfeita para testar uma nova metodologia de “tratamento”.

Americanos gostam de fazer - e assistir a - filmes que tratam das guerras em que seus soldados lutaram, seus feitos, sua volta ao lar, sempre embebidos de um tom ufanista que costuma irritar aos que não compram essa visão idealizada do “sonho americano”. Para contrabalançar, há os que optam por mostrar o avesso desse sonho. E é o que Paul Thomas Anderson faz n’O mestre, assim como em seus filmes anteriores. Neste, o foco está no dia a dia dos soldados, nas sequelas da guerra, na nem tão triunfante volta ao lar, na dificuldade de reinserção no cotidiano. Em suma, se o espectador for ao cinema em busca apenas de diversão, este definitivamente não é a melhor opção. Mas se a busca for por um bom roteiro, regado a ótimas músicas, com performances dignas de nota este filme merece ser visto.

Mesmo com certa polêmica criada ao redor do fato de que Dodd é inspirado em L. Ron Hubbard, o criador da Cientologia, esse detalhe é, na verdade, menos relevante do que pode parecer. Não há dúvidas de que o diretor se vale da estória também para mostrar como é criada uma seita, como se desenvolve, como angaria seguidores - e os manipula - enfim, como ganha dinheiro explorando a crença alheia. Mas não é este o ponto central. O cerne da narrativa é o relacionamento entre Quell e Dodd. Importa mais a dinâmica mestre-discípulo (ou cientista-cobaia), a relação quase simbiótica que se estabelece desde o momento em que se conhecem do que o questionamento sobre quão charlatão Dodd é, quanto ele acredita no que diz e no que faz seus seguidores acreditarem. É interessante reparar que em várias situações, enfatizando o paralelismo - ou o contraste- entre eles, são mostrados lado a lado como na excepcional cena da cadeia. Com Freddie dando vazão a toda sua raiva numa cela, enquanto Dodd pondera calmamente na cela ao lado, até que Freddie duvida da veracidade das ideias da Causa, momento em que Dodd se exalta e dá vazão, de seu lado, à toda irritação por ter suas ideias postas em dúvida.

A trama é sinuosa, por vezes errática, dando a impressão (errônea) de que a narrativa segue desgovernada em alguns momentos. Ledo engano. A aparente falta de rumo é a representação fiel tanto dos caminhos tortuosos que Freddie seguiu depois da guerra quanto do modo como sua mente funciona. É significativo que durante o filme Dodd pergunte várias vezes a Freddie: “Is your behavior erratic?” (“Seu comportamento é errático?).

Apesar de toda a força dos dois personagens centrais, há outro que a princípio parece não ter tanta importância mas que se revela essencial à ascensão de Dodd como líder da seita: sua esposa, Peggy. É a figura mais dominadora - e quiçá fanática - do filme. Sua presença, por vezes aterrorizante, é quase mais forte que Freddie e Dodd juntos. A cena do toalete, em que ela o masturba enquanto lhe diz como agir, beira o aterrorizante, demonstrando controle que mantém sobre Dodd e sobre a condução de sua carreira e vida pessoal. E a atuação de Amy Adams é excepcional, corroborando de forma essencial na construção da personagem. Seus olhares recriminadores conseguem deixar até o espectador com sensação de culpa.

E não apenas a performance de Adams é digna de nota. A força dos personagens centrais em cena deve-se em grande parte à atuação de Phoenix e Hoffman. Enquanto este último confirma ser um dos melhores atores da atualidade, alternando entre a autoconfiança do líder e a instabilidade emocional ao ser questionado, Phoenix nos entrega o que talvez seja a melhor atuação de sua carreira. Antes de mais nada, pelo aspecto físico. Extremamente magro, assume uma postura ligeiramente encurvada, retraída (exceto ao visitar a casa da “mulher de seus sonhos”), a todo momento em busca de apoio - basta reparar nas mãos constantemente apoiadas no quadril. Falando pouco, com a boca meio fechada e os dentes cerrados, dá a impressão - que se confirma ao longo do filme - de estar sempre prestes a explodir e tenta evitar isso sendo o mais contido possível. E a riqueza de detalhes na interpretação, as minúcias nas variações de humor, as nuances na entonação da voz beiram a perfeição.

Adicione-se a tudo isso a fotografia competente e a trilha sonora bastante provocativa e tem-se um filme que vale a pena ser visto. Apesar de, a princípio, parecer que será lembrado apenas como “aquele em que o Joaquin Phoenix está irreconhecível de tão magro”, ou então, “aquele que faz alusão à religião de Tom Cruise, sem nomeá-la”, O mestre vai muito além dessa primeira impressão.



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O reino gelado

coded by ctellier | tags: | Posted On sexta-feira, 1 de março de 2013 at 10:16

meteorologia: solzinho sem-vergonha
pecado da gula: rabanada
teor alcoolico: nada ainda
audio: elvis presley
video: life on mars

O reino gelado (The snow queen)
roteiro: Vlad Barbe, Vadim Sveshnikov
direção: Vlad Barbe, Maksim Sveshnikov.

(Resenha originalmente publicada no Vórtex Cultural, em 22/02/2013)

Sinopse
Desejando criar um novo mundo no qual o vento polar esfrie as almas humanas, a Rainha da Neve cobriu o planeta com gelo e ordenou a destruição de todas as artes. De acordo com as previsões de um espelho mágico, a última ameaça aos seus planos estaria no mestre-vidreiro Vegard, cujos espelhos refletem não apenas a aparência, mas também as almas das pessoas. Então, o vento polar sequestra Vegard e sua esposa Una, deixando seus filhos Kai e Gerda para trás. O tempo passa e os servos da Rainha acabam capturando também Kai, acreditando que o garoto é o sucessor de seu pai. Mas sua irmã Gerda, agora uma garota muito corajosa, não vai deixar isso barato. Embarcando em uma jornada pelo reino, ela vai encarar todos os obstáculos ao lado de seus novos amigos para salvar o irmão e voltar a aquecer os corações das pessoas.
(fonte: site Playarte Pictures)

Produção russa de 2012 do estúdio Wizart Animation, a animação é baseada num conto de fadas escrito por Hans Christian Andersen, dinamarquês autor de estórias clássicas: “O patinho feio”, “A menina dos fósforos”, “O soldadinho de chumbo” e “A roupa nova do imperador”. Apesar de não tão conhecido quanto os demais - ao menos aqui no Brasil -, “A rainha da neve” já ganhou várias adaptações cinematográficas. A propósito, a Disney pretende lançar sua versão, chamada Frozen, em novembro de 2013.

Como em tantas outras adaptações, apenas o “esqueleto” da estória foi mantido, assim como os personagens centrais. Mas isso não é um problema, desde que o filme se sustente sozinho. No caso deste, os roteiristas deram um banho de modernidade em toda a estória, transformando um conto de sete atos, repletos de discussões éticas e morais, num quase thriller de fantasia. Para desfrutar, basta esquecer a estória original, encarar o roteiro como uma nova ideia e embarcar na aventura.



O roteiro tem algumas falhas mas nada que compremeta a compreensão da estória. Sobre os personagens há pouco a dizer, pois são os esterótipos básicos de contos de fadas: o casal de órfãos - a menina valente e o menino sonhador; a rainha má - com direito a um espelho conselheiro; o ajudante da vilã - sempre um pouco atrapalhado e que acaba se revelando como sendo “do bem”; as pessoas diversas que Gerda conhece durante sua jornada - a dona da estufa, o rei e seus filhos, o grupo de piratas, a feiticeira boa; e, certamente, não poderia faltar um animalzinho - Luta, um furão - para garantir o nível de fofura necessário.

É nitidamente um filme para crianças. Os adultos acostumados ao estilo Pixar de roteiros de animação certamente sentirão falta daquelas sacadas “for adults only”. Mas isso não deixa o filme menos interessante de se assistir. A qualidade da animação é muito boa, levando em consideração que não se trata de um grande estúdio. A sequência de abertura captura a atenção do espectador de forma bastante eficiente. As cenas de ação, exceto pelo exagero no uso de slow motion, são convincentes e bem empolgantes. Pode perfeitamente ser assistido em 2D, pois o 3D pouco ou quase nada acrescenta à experiência de assistir ao filme.

É um filme mediano, a maioria de seus aspectos está na média, alguns um pouco abaixo. Não há nada que se destaque do todo, nada que faça o espectador dizer “Ah, a estória é comum, mas tal coisa é sensacional!”. Enfim, “não é assim uma Brastemp” mas cumpre bem sua função de passatempo, certamente agradando crianças e pré-adolescentes.



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Drops » House of cards

coded by ctellier | tags: , , | Posted On sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013 at 18:34

meteorologia: chuva de novo
pecado da gula: bolo de banana
teor alcoolico: nada ainda
audio: cinecast cult #5
video: the watcher

Sinopse:
Série de televisão norte-americana de drama político criada por Beau Willimon para o site Netflix. Ela é estrelada por Kevin Spacey como Frank Underwood, um impiedoso e ambicioso político que almeja um alto cargo público em Washington, D.C.. House of Cards é uma adaptação do romance homônimo escrito por Michael Dobbs e da minissérie britânica criada por Andrew Davies.
(fonte: Wikipedia)

Outra série - além de Homeland - surgiu como candidata a preencher o vazio deixado pelo fim de Fringe. Há uma semana, dia 01/02, acessei o Netflix, como de hábito, para assistir a mais um episódio de Dexter ou Breaking Bad. Dei de cara com um box gigantesco anunciando a estreia de House of cards, série produzida pela própria Netflix. O poster me chamou a atenção na hora, afinal, Kevin Spacey como protagonista não é algo a se dispensar.

A série foi lançada nesse dia, em todos os países em que a Netflix atua. E não apenas isso, TODOS os episódios da primeira temporada estavam disponíveis. Ou seja, para quem curtisse, havia a possibilidade de fazer uma “maratona House of Cards”, sem a necessidade de aguardar uma semana pelo episódio seguinte. Haja disposição para encarar 13 episódios de quase uma hora de duração cada, em sequência. Fui comedida, tenho assistido a um por dia, intercalando com dois ou três de Homeland.

Para os que não estão acostumados e/ou não conhecem os meandros da estrutura política americana, ou que não têm o hábito de assistir outras séries de mesma temática - West wing, Game change, Political animals - a série é ideal. O personagem de Spacey quebra a quarta parede e conversa com o espectador, explicando em detalhes o que ele está pensando, o que ele sabe que os outros estão pensando, o que ele pretende fazer e o que os demais pretendem fazer. O didatismo em alguns momentos chega a ser exagerado. É como explicar uma piada - o que Underwood faz algumas vezes, inclusive. Isso não chega a tirar o interesse do público, mas torna a série um pouco mais lenta que o necessário.

Os episódios são dirigidos por diretores tarimbados, entre eles David Fincher, Joel Schumacher e Alan Coulter. Os primeiros episódios foram dirigidos por Fincher e é interessante notar o quanto se nota “a mão” do diretor em algumas cenas. Por exemplo, nas sequências que se passam na redação do Herald Tribune, tanto o cenário, quanto a fotografia e mesmo alguns quadros lembram demais Zodiac, dirigido por Fincher em 2007.

O elenco, além de Spacey, conta também com a presença de Robin Wright - excepcional como Claire, a esposa de Frank - e Kate Mara, numa atuação muito boa.

Já li por aí que a segunda temporada foi confirmada e deve começar a ser filmada ainda em 2013. Ótima notícia para quem, assim como eu, foi conquistada e passou a acompanhar com interesse as “aventuras” do protagonista mau-caráter. Vale a pena.




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Drops » Homeland

coded by ctellier | tags: , , | Posted On quarta-feira, 6 de fevereiro de 2013 at 22:34

meteorologia: eo verão continua desaparecido
pecado da gula: misto quente
teor alcoolico: 1 smirnoff ice
audio: café brasil podcast #336
video: once upon a time

Sinopse:
Série de televisão norte-americana desenvolvida por Howard Gordon e Alex Gansa, baseada na série israelense Hatufim criada por Gideon Raff. Ela é estrelada por Claire Danes como Carrie Mathison, uma oficial de operações da CIA que passa acreditar que um fuzileiro americano, que era um prisioneiro da Al-Qaeda, passou para o lado inimigo e agora representa um significativo risco a segurança nacional.
(fonte: Wikipedia)

Quem acompanha meu mini-projeto “365 Screenshots”, ou me segue no getGlue, Twitter ou Facebook, possivelmente tenha visto que assisti à primeira temporada em menos de uma semana.
Indicação da Giselle, órfã de Fringe assim como eu, baixei a toda a temporada e comecei a assistir sem muito entusiasmo. Aliás, até o terceiro episódio, é uma boa série, acima da média, porém só começa a pegar ritmo e instigar o espectador a partir daí.

Não é difícil compreender por que a série não me “pegou” logo de início. É diferente de Fringe. Não há universos paralelos, nem viagens no tempo, nem tecnologias super avançadas, nem cotexiphan para ampliar os poderes da mente e, principalmente, não há Walter Bishop - sem dúvida alguma, o melhor personagem da série, imortalizado pela inesquecível performance de John Noble. Homeland não é ficção científica. Homeland é sobre o “mundo real”. Passa-se nos tempos atuais, logo após a morte de Bin Laden.

Como drama, não funciona muito bem. Mas como suspense, é excepcional. Percebe-se o capricho dos roteiristas na construção dos personagens. São tridimensionais, multifacetados, complexos. Aliás, boa parte do suspense advém do fato de o espectador nunca estar totalmente certo sobre as reações dos personagens, já que suas motivações vão sendo reveladas aos poucos. Reviravoltas na medida certa para nos instigar a continuar assistindo (leia-se "nos viciar). E um elenco bastante competente, destacando-se Damian Lewis, como o Sgt.Nicholas Brody, e Claire Danes.

Comecei a assistir à segunda temporada hoje. E já estou triste por antecipação. São apenas 12 episódios, que devo terminar antes do final da semana. E depois? Depois, o jeito é aguardar o início da terceira temporada, programado apenas para setembro :-(




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Django... the "D" is silent

coded by ctellier | tags: | Posted On segunda-feira, 4 de fevereiro de 2013 at 23:39

meteorologia: tempo instável não, indeciso
pecado da gula: misto quente
teor alcoolico: 1 stela artois
audio: bananacast #38
video: homeland

Django unchained (2012) - Django livre
roteiro e direção: Quentin Tarantino

Confesso que, terminado o filme, saí do cinema obrigada. Bateu aquele saudosismo dos anos 80, em que conseguíamos ficar várias sessões seguidas na sala de cinema. Depois da curtíssima cena pós-créditos a vontade era assistir a tudo de novo, para rir mais uma vez das inúmeras piadas de humor negro e tentar perceber outras referências dentre as muitas que Tarantino inseriu no filme.

Que fique clara uma coisa sobre o filme: não é um faroeste, é um faroeste de Tarantino. Dito isto, o que espera o espectador que conhece o estilo do roteirista e diretor ao assistir Django? Diálogos inteligentes, referências e/ou homenagens a outros filmes (não apenas westerns), cenas violentas, críticas ao status quo e humor.

Enganou-se quem achou que, por ser um bang-bang, Tarantino veria-se obrigado a moderar no que é sua característica mais marcante: os diálogos afiados. Apesar de menos “ligeiros” que o habitual - justamente para adequação ao estilo do filme - a metralhadora giratória de frases inteligentes não foi deixada de lado. Há alguns extremamente inspirados, como o da cena que abre o filme, nos apresentando o Dr. King Schultz (Christoph Waltz) - que, aliás, é dono das melhores falas durante todo o filme. Bom humor, ironia, sarcasmo, desprezo, bajulação. Tudo junto e misturado num amálgama cujo efeito é segurar o espectador enquanto este aguarda pela próxima cena de ação.

Misturar western e blaxploitation é algo que não sairia da cabeça de ninguém além de Tarantino. E não é do faroeste clássico que se trata, mas sim do faroeste spaghetti. E as referências já dão as caras logo de início, quando os créditos iniciais - formatados conforme os faroestes de “antigamente” - se sucedem ao som da música-tema do Django “original”, de 1966, composta por Ennio Morriconi. Dirigido por Sergio Corbucci, o protagonista é encarnado por Franco Nero que, obviamente, faz uma ponta neste filme. Aliás, aproveitando, é importante destacar que Bacalov fez um trabalho excelente na trilha sonora. Incorporar rap e hip-hop num faroeste sem parecer algo totalmente fora de propósito não é para poucos. E a música incidental também não deixa a desejar. Pode ser apenas mais uma lenda urbana, mas diz-se em alguns sites por aí que Tarantino selecionou as músicas dentre as que ouviu no seu mp3 player enquanto dirigia para as locações de filmagem.


A fotografia também se destaca. Paisagens típicas de filmes de faroeste em panorâmicas que remetem a muitos outros filmes. Algumas tomadas diferenciadas que evidenciam o cuidado de não copiar, mas de homenagear o estilo. E os closes, que geraram algumas reclamações, têm sua razão de ser explicada pelo óbvio: porque é um filme de Tarantino e ele gosta disso; e porque é uma homenagem aos westerns spaghetti que faziam uso desse recurso.

Que me desculpem os que reclamam do excesso de violência, de sangue e de vísceras, mas quem reclama disso não entendeu o “espírito da coisa”. Primeiro, a violência não é gratuita - aliás, não há cena gratuita no filme, mesmo as que assim parecem - algumas poderiam ser mais “enxutas”, deixando o filme menos longo. Segundo, a violência é estilizada e seus resultados são exagerados com o intuito - que para mim pareceu claro - de provocar o público, de causar desconforto ao espectador, de fazê-lo refletir - mesmo que rapidamente -, parar e pensar “Caramba, por que estou rindo dessa cena?”. E, lógico, também com o intuito de divertir os fãs do diretor. Afinal, filme de Tarantino sem sangue espalhado na tela não é um filme de Tarantino.


Os personagens centrais - Django, Dr.Schultz e Calvin Candie -, mesmo sendo menos tridimensionais que o habitual nos filmes de Tarantino, crescem aos olhos do espectador devido às atuações inspiradas de Jamie Foxx, Christoph Waltz e Leonardo DiCaprio, respectivamente. Ouvi e li algumas opiniões sobre a atuação de Foxx, quase reclamando que ele construiu um personagem que passa praticamente dois terços do filme à sombra do Dr. Schultz. Mas é necessário lembrar que, além de a trajetória de Django seguir fielmente a “jornada do herói”, o personagem é um herói em formação. Sendo assim, nada mais natural que a sua presença vá crescendo à medida que o filme avança, culminando com a sequência final em que ele inclusive até já encontrou seu “uniforme de super-herói”.

Com relação às críticas infundadas que Spike Lee fez ao filme - sem tê-lo visto, há algumas observações a serem feitas. É no mínimo idiotice criticar sem ter assistido. Se a intenção dele era chamar atenção, conseguiu. Atenção para si e muito mais atenção para o filme. Sobre o que ele falou - que Tarantino estava sendo desrespeitoso com o tema - há que se observar o seguinte:
  • O filme não é “sobre” a escravidão. A escravidão é o pano de fundo. O filme é sobre um homem em busca de sua amada, tema recorrente em westerns, que é do que realmente se trata o filme.
  • A cena com o grupo racista, um prelúdio da Ku-Klux-Klan, não é apenas a mais engraçada do filme como contém a crítica mais ácida possível tanto à essa organização quanto à escravidão. Não há nada melhor para criticar e desabonar algo do que ridicularizá-lo. E é exatamente isso que Tarantino fez. Tanto o assunto da discussão entre os membros da organização quanto o comportamento deles enquanto discutem exemplificam à perfeição a opinião do diretor sobre o tema.
  • Além disso, Shultz é porta-voz de Tarantino ao declarar, demonstrando sua aversão ao preconceito racial e à escravidão: “Sinto-me culpado.” Bem, se isso é ser desrespeitoso, há que se questionar em que premissas tortuosas Spike Lee se baseou ao fazer tal afirmação.

É inegável que, partindo do premissa que Tarantino sempre faz cinema sobre Cinema, os cinéfilos e principalmente os fãs de faroeste se deliciem assistindo e identificando as referências espalhadas pela trama. Mas nem por isso o filme deixa de ser atraente e divertido para o público “não-iniciado”.


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