"No piense más ¿Que importa?"

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 16 de julho de 2011 at 18:39

meteorologia: lindo dia de sol
pecado da gula: misto-quente
teor alcoolico: 1 itaipava
audio: nerdcast #268
video: tour de france

El secreto de sus ojos
direção: Juan José Campanella
roteiro: Juan José Campanella & Eduardo Sacheri


Antes de mais nada, peço que esqueçam as richas futebolísticas, o bairrismo arraigado e as piadas infames envolvendo argentinos. No quesito ‘cinema’, los hermanos costumam dar bons exemplos. Mas afirmar que todo filme argentino é muito bom seria uma falácia. Explico. Infelizmente, apesar da proximidade, poucos filmes argentinos chegam às nossas telas. Não pretendo discutir aqui as razões disso, nem tentar entender os motivos dos distribuidores. Porém, é algo que penaliza quem aprecia a 7ª.arte. Pois nem só de blockbusters e indicados à Palma de Ouro se compõe o gosto do público.

Continuando... os poucos filmes que chegam, quase na sua totalidade, o fazem por terem sido agraciados com – ou, ao menos, indicados a – alguma premiação importante, o Oscar, por exemplo. Partindo do pressuposto que um filme ruim não chegaria a ser indicado (espero), os filmes argentinos a que assisti eram realmente bons. O que logicamente não quer dizer que todos o sejam. Assim como em tudo, com certeza devem existir bons e ruins.


E El secreto de sus ojos não foge à regra. Chegou ao mainstream, por ter sido indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro. Indicado e premiado. Mesmo não sendo uma obra-prima, é um ótimo exemplo da capacidade argentina na escrita de roteiros de qualidade. Conta a estória de Benjamín Spósito (Ricardo Darín), um servidor da justiça penal argentina. Recém aposentado, resolve escrever um livro sobre um caso de estupro seguido de morte investigado por ele há 25 anos.

Presente durante todo o filme, a divisão, a dicotomia é um trunfo do roteiro aproveitado com brilhantismo. E é certamente o que prende o espectador durante todo o filme. Alternando presente e passado, trama policial e romance, suspense e análise psicológica, a narrativa leva o público a acompanhar a concepção do livro enquanto toma conhecimento dos detalhes do crime que tanto impressionou Spósito. Somos conduzidos pelas suas memórias, em flashbacks tão engenhosamente integrados, que parecem ocorrer paralelamente à trama atual. Em algumas cenas, até completando-a (como a cena de abertura do filme).

E a alternância continua ao tentarmos definir a temática do filme. Inicialmente parecendo ser um thriller investigativo, em que a solução do crime é a conclusão e o desfecho óbvio, percebe-se, à medida que as narrativas avançam, que se trata da observação do comportamento obsessivo do personagem. Obsessão tanto pelo crime e pelas pessoas envolvidas como pela companheira de trabalho recém-chegada, Irene Hastings (Soledad Villamil). Ambas se estendendo durante toda a vida de Spósito. É bastante significativa uma das falas do viúvo da vítima, Ricardo Morales (Pablo Rago) sobre a atitude de Spósito: (spoilers à vista)
- No piense más, no piense más, ¿Que importa? Mi mujer esta muerta, su amigo esta muerto, Goméz también esta muerto...Todos muertos, no le de más vueltas. Va a empezar con "si hubiese estado, si no hubiese estado...", va a tener mil pasados y ni ningún futuro. No piense más, hagame caso. Se va a quedar solo con recuerdos.

Não há cena supérflua ou descartável no filme. Até mesmo o alívio cômico na figura e nas falas de Pablo Sandoval (Guillermo Francella), subalterno de Spósito, integram-se perfeitamente ao contexto. Suas intervenções são tão discretas quanto hilárias, desde o modo de atender ao telefone, afirmando tratar-se de outro local - ‘comando tactico revolucionario, adelante compañero”, na óbvia intenção de esquivar-se do trabalho; passando por sua explanação sobre as paixões humanas; até seu comentário ébrio no apartamento de Spósito - “cuantos muebles tenes en esta casa!? me cago golpendo siempre!”. Torna-se uma diversão complementar, perceber as entrelinhas e o sentido oculto nas frases de Sandoval. O segredo está na sutileza dos detalhes. Não só no humor leve e inteligente, mas em todo o filme.

Sendo os olhos do espectador, a câmera de Campanella é muito eficiente. O plano-sequência no estádio de futebol, que dura cerca de 10 minutos, é simplesmente de tirar o fôlego. E o uso do recurso da “câmera na mão” nas cenas de perseguição ao suspeito dá a exata medida da urgência da captura do sujeito e da falta de preparo dos dois funcionários públicos para a ação. Vários planos-detalhes reforçando que pequenos detalhes podem ser importantes. Como o que leva Spósito a suspeitar de Isidoro Gómez (Javier Godino).
O elenco está irrepreensível. E, auxiliado por um ótimo trabalho de maquiagem, consegue dar veracidade aos personagens nas idas e vindas temporais. A desenvoltura com que os atores encarnam seus personagens em diferentes momentos de suas vidas é, sem exagero, excelente. Darín segue todo o filme impregnado com a angústia de seu personagem, tanto nas atitudes, mas principalmente no olhar.

Enfim, é um filme a ser degustado e apreciado sem pressa. E, fazendo isso, o espectador é surpreendido. Nada de reviravoltas sem sentido ou sustos banais. O espectador surpreende-se descobrindo novas facetas da estória e de seus personagens. A percepção apurada do personagem é dividida com o espectador. E, por isso talvez, o filme seja tão envolvente, prendendo o público até final, mesmo não sendo repleto de cenas de ação.

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Será que é disso que eu necessito?

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 9 de julho de 2011 at 11:40



Este post foi motivado pela postagem no FB de um vídeo (um entre tantos) exibindo cenas de superação e/ou sacrifício de atletas tentando completar provas. Parte do texto é o que deixei comentado lá.

Já percebi que vídeos assim suscitam em geral o mesmo tipo de comentário que resume-se basicamente a - como disse um corredor: "Desistir nem fud...".

Reservo-me o direito de discordar.

Sinceramente, me pergunto se persistir (na verdade, insistir além dos limites do corpo) é realmente o que preciso. Se significa ganhar uma lesão que me impeça de continuar treinando, definitivamente, a resposta é "não". Não preciso disso. Não vivo disso. Corro pra manter a saúde (física e mental) e porque me dá prazer (santa endorfina!).

Se eu treino para ultrapassar limites, meus limites? Sim, é lógico. É da natureza humana.

Se entendo o que move esses atletas? Sim, e os admiro inclusive. Seu esforço é, de certo modo, inspirador.

Se assistir esses vídeos me motiva? Com certeza. Mas não a repetir o que está ali, e sim a me preparar mais e melhor, e evitar que algo assim faça parte da minha corrida.

Penso que, se é preciso coragem e força de vontade para ir até o final, é preciso ainda mais para admitir a si mesmo que é hora de parar. Larguei a Maratona de SP no km 28 com dores no pé. E, acreditem, a decisão não foi fácil. Mas não me arrependo.

Desistir faz parte. Não só da vida de um atleta, como de qualquer um, em qualquer atividade. Saber quando fazê-lo é algo que não se aprende em livros nem em cursos. E, no meu entender, não é demérito algum. O que realmente importa é a nossa atitude frente à situação. É cair para se levantar ainda mais forte.

É isso.

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Drops » Kung Fu Panda 2

coded by ctellier | tags: , | Posted On at 10:14

meteorologia: 11° às 10 da manhã, ninguém merece...
pecado da gula: bolo de chocolate
teor alcoolico: nada ainda
audio: vortcast #07
video: videocast 76 – alex ross (pipoca e nanquim)

Kung Fu Panda 2
direção Jennifer Yuh
roteiro Jonathan Aibel, Glenn Berger


Assisti ontem e não gostei tanto quanto o anterior. Mais arrastado e com diálogos menos eficientes.

As gags agradam a criançada, mas é preciso ser um adulto com idade mental de 8 anos para achar graça em algumas piadas. Definitivamente, é um filme para crianças.

A diversão dos adultos resume-se praticamente a curtir a dublagem de atores consagrados como Dustin Hoffman (ainda melhor como Shifu) e Gary Oldman (como o pavão do mal, Lord Shen).

E, como comentaram comigo (e eu concordei), usar a estória de Moisés como inspiração foi bastante forçado. Mesmo não repetindo a fórmula do primeiro, tentando ser uma extensão da estória e não apenas mais do mesmo, não tem tanta força nem é tão empolgante.

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"Fasten your seatbelts, it's going to be a bumpy night!"

coded by ctellier | tags: | Posted On quarta-feira, 6 de julho de 2011 at 22:05

meteorologia: esse frio não acaba
pecado da gula: bolo de chocolate
teor alcoolico: 1 dose de absolut citron
audio: androidcast #12
video: tour de france

All about Eve, direção e roteiro de Joseph Mankiewicz

Não tencionava escrever um post sobre o filme, mas depois de comentá-lo com meu ouvinte de plantão, tive várias ideias e algumas impressões que julguei interessantes o suficiente a ponto de discorrer sobre elas num texto um pouco mais longo. Aliás, tenho aprendido que comentar o filme é uma ótima maneira de analisá-lo e tentar entender as intenções do diretor. E, para minha satisfação, tenho percebido que os comentários são bons o bastante para instigar quem ainda não assistiu o filme comentado e deixar com vontade de assisti-lo. O professor @pablovillaca ensinou que essa é uma das funções do crítico de cinema: “Auxiliar o leitor na sua educação cinematográfica.” Minha contribuição é pequena mas bastante gratificante.

Assisti o filme há algumas semanas. Aliás, revi o filme, pois já o havia assistido há muito, muito tempo. E pouco lembrava dele a não ser a presença marcante de Bette Davis. Como em muitos outros casos (infelizmente), o título em português não colabora muito. Somos induzidos desde o início a tentar identificar entre as personagens “a malvada” do título, a vilã, e isso acaba sendo um problema. Interfere de modo significativo para que desfrutemos do filme como o diretor certamente gostaria. O título original nos exime disso, pois apenas dá a entender que é a estória de uma mulher chamada Eve. E Eve é uma moça, fã de uma atriz famosa que, em dado momento, conhece o objeto de sua admiração e acaba tornando-se sua “protegida”. Simples assim. Mas, a partir disso, o diretor/roteirista desenvolve uma apreciação bastante minuciosa e ácida sobre o ambiente em que vive a atriz. E, subjacente a isso, a exemplo de “Persona” (porém menos explicito que neste), há uma análise sobre o uso da “máscara”, sobre os papéis que desempenhamos em nossa vida, no nosso dia-a-dia. Há uma cena no filme, quando Margo (Bette Davis) e Karen (Celeste Holm) conversam dentro de um carro parado, em que nitidamente Margo despe a máscara da atriz famosa para ser apenas uma mulher.

O roteiro é irrepreensível. Não há o que criticar ou ressalva a fazer. Os diálogos são articulados, tão bem construídos e envolventes quanto os de “Who's Afraid of Virginia Woolf?” - que IMHO acho praticamente perfeitos. Devido ao fato de ser um filme antigo (anos 50), lógico que, diferente dos mais recentes, a encenação é toda bastante teatral, mas de modo algum isso atrapalha. A maior parte dos conflitos concentra-se nos diálogos, no jogo de palavras, na significação do que é dito pelos personagens. E isso é algo com que qualquer fã de Tarantino se identifica.

Ainda sobre o roteiro, a não-linearidade da narrativa (recurso que muitos acham ser sinônimo de modernidade no cinema) foi utilizada de maneira bem eficiente e sem exageros. A cena inicial - uma premiação - é o final da estória, com uma narração em off, que descobrimos ser de um crítico teatral, descrevendo os demais personagens. A forma como o faz reflete o estereótipo da profissão, um artista frustrado que destila seu veneno e sarcasmo - e, talvez, inveja - ao comentar sobre o “show business” do qual não é parte atuante. E é uma constante no filme essa crítica à indústria do entretenimento e ao modo de sobreviver nele. A partir desse ponto, voltamos no tempo para entender como se desenrolou a trajetória de Eve até esse momento.

Outro recurso narrativo utilizado - que eu gosto muito, tanto em livros quanto em filmes - é contar a estória sob diferentes ângulos, visões diversas de personagens diferentes. Utilizado com perfeição em “Rashomon”, dirigido por Akira Kurosawa, consegue envolver o espectador de modo a fazê-lo enxergar os acontecimentos pelos olhos do personagem. Desse modo, variando o juízo feito das ações/reações dos demais personagens. E Mankievicz tem total êxito nisso. Minha opinião pendeu para vários lados durante o filme. Mudei o julgamento sobre a motivação dos personagens diversas vezes. E, influenciada pelo título em português, achei que a malvada fosse três personagens diferentes até ter total certeza no segundo terço do filme. A condução do roteiro nesse sentido é muito, muito eficiente. E o mais interessante é que, em dado momento do filme, inverte-se a percepção sobre as personagens centrais. Atenção, spoiler à vista. Aquela que o público é levado a pensar ser a mocinha no início do filme, revela-se como sendo, na verdade, a malvada do título. Eve, a moça em dificuldades, solitária, desprotegida, que sofre com a arrogância de Margo, na realidade usou seu talento de atriz para fingir ser quem não era, a fim de atingir seu objetivo. E nos vemos obrigados a nos questionar se é moralmente válida sua atitude. Mesmo quando essa inversão de papéis começa a se delinear na estória, é difícil acreditar. O espectador se pega pensando “Não é possível, não posso ter me enganado tanto até agora.” E a sensação, no momento em que se dá conta de que Eve é (desculpem o clichê) lobo em pele de cordeiro, é de que a personagem não traiu apenas a confiança de Margo, traiu a do espectador também, por isso a indignação é tanta - e o roteiro tão bom. Admito que pensei “Powtz! Eu acreditei nessa vagabunda!”

Lógico, que boa parte da excelência do filme deve-se ao elenco. Atuação perfeita de Bette Davis, talvez a sua melhor. Pergunto-me se sua escolha foi proposital, não só pelo seu talento óbvio como pelo fato de que a vida da atriz naquele período tem vários paralelos com a situação da personagem. Assim como Margo, Bette Davis era na época uma atriz quarentona cujo auge da carreira já havia passado, representando papéis menores, pouco expressivos. Anne Baxter, como Eve, também não fica atrás. E assim como sua personagem, é a jovem atriz promissora que passa a querer ocupar o lugar de atrizes consagradas, tanto que pressionou os produtores para ser indicada ao Oscar de melhor atriz, ao invés de atriz coadjuvante, concorrendo com a própria Bette Davis. Mas o grande destaque fica para George Sanders, como o crítico Addison DeWitt. Consegue tornar seu personagem tão desprezível quanto o mundo do entretenimento criticado no filme. E uma curiosidade sobre o elenco, Marylin Monroe faz uma ponta como uma moça estouvada, aspirante a atriz.

Como escrevi no Drops, um clássico é uma obra que tem como uma das características ser atemporal, ou melhor, atual independente da época em que seja apreciada. E isso sem dúvida se aplica a “All about Eve”. Mais que um clássico, é uma obra-prima.

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Drops » 127 hours

coded by ctellier | tags: , , | Posted On sábado, 2 de julho de 2011 at 13:44

meteorologia: agora nublou de vez
pecado da gula: yakisoba
teor alcoolico: nada ainda
audio: radiofobia #60

127 hours, direção Danny Boyle, roteiro Danny Boyle & Simon Beaufoy

Boa atuação de James Franco, mas não o suficiente para me fazer achar o filme muito bom.

Excesso de sequências de delírio e divagações tiram o ritmo do filme e o uso indiscriminado de planos fora do comum e cortes também não ajudam. A justaposição de imagens de multidões no início e no final do filme parece não ter propósito, já que em momento algum o contraste entre a situação de Aron e essas cenas é realmente explorado e discutido.

Vale por testemunhar a determinação de Aron, mas é só.

Não é que seja ruim, apenas não é bom o bastante para sugerir que alguém assista. Na verdade, sugiro ler o livro "Between a rock and a hard place", de Aron Ralston, o protagonista da estória. Pela quantidade maior de detalhes sobre as horas que passou preso, é interessante e bem mais assustador e, ainda assim, muito empolgante.

Recomendo. O livro, não o filme.

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