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Posted On sábado, 17 de dezembro de 2011 at 16:10
meteorologia: calooooorrrrr
pecado da gula: misto quente
teor alcoolico: 2 itaipavas
audio: nerdcast #290
video: criminal minds
Tempos de paz
Direção de Daniel Filho
Roteiro de Bosco Brasil
Filmagem quase literal da peça “Novas Diretrizes em Tempos de Paz”, de Bosco Brasil - responsável pelo roteiro. É basicamente o confronto entre duas pessoas, dois personagens, dois atores. E, por ser esse o trunfo da peça, o elenco foi mantido.
A fim de garantir seu salvo-conduto e o direito de fixar residência no Brasil, o imigrante polonês e refugiado da Segunda Grande Guerra, Clausewitz, vê-se desafiado a fazer chorar um ex-oficial da polícia getulista, Segismundo (Tony Ramos). Este, com o fim da guerra, já não precisa procurar nazistas entre os estrangeiros que chegam ao país. Mas o português quase fluente de Clausewittz, que chega a recitar Drummond, chama a atenção dos agentes da imigração. As mãos lisas - apesar de o passaporte informar que é um agricultor -, a ausência de bagagens e a jovialidade quase excessiva só servem para despertar a desconfiança dos agentes, que acabam por entregá-lo aos “cuidados” do chefe. Já sem muita serventia, Segismundo decide fazer do polonês seu último caso. E faz uma aposta com o suposto agricultor: se ele conseguir fazê-lo chorar, terá permissão de permanecer, senão deverá voltar a seu país de origem - o navio partirá em aproximadamente 10 minutos.
E é a partir daí que o filme ganha corpo e presença. E foi o que me fez continuar assistindo, já que não fazia a menor ideia do que se tratava o filme ao começar a assisti-lo. Até então, só conseguia pensar que estava assistindo a uma versão brazuca de “O terminal”. A semelhança física de Stulbach com Tom Hanks corroborando ainda mais para essa impressão. Mas felizmente, o filme é muito mais que isso. A direção contida e sem exageros de Daniel Filho faz-nos esquecer da linguagem televisiva que ele usou e abusou em “Se eu fosse você” (1 e 2). Mas o maior mérito mesmo é da dupla central de atores, Tony Ramos e Dan Stulbach.
Apesar de ser o monólogo impressionante de Clausewitz (Dan Stulbach) o responsável pelo filme ser algo mais que uma mera produção global, é uma grata surpresa ver Tony Ramos atuando de verdade - e não no piloto automático como ao personificar Cláudio de “Se eu fosse você”. A frieza com que seu personagem conta as atrocidades praticadas durante sua passagem pela polícia, quando atuava como torturador, é de virar o estômago. Discorre sobre as técnicas utilizadas como se estivesse dando uma receita de bolo. E neste ponto, o espectador se pergunta: Como fazer chorar alguém que fala de tortura de modo tão natural? Como emocionar alguém que é tão alheio ao sofrimento de outro ser humano? E percebe-se a mesma dúvida estampada no rosto de Clausewitz.
É um elogio ao teatro. Uma consagração da arte como força transformadora.
Vale assistir.
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Posted On segunda-feira, 12 de dezembro de 2011 at 21:17
meteorologia: mais um dia de sol
pecado da gula: coxinha
teor alcoolico: 1 murphy's irish red
audio: mídias e modos
video: omeletv
Straw dogs (Sob o domínio do medo) - 1971
Direção de Sam Peckinpah
Roteiro de David Zelag Goodman, Sam Peckinpah
Resolvi assistir ao filme depois de ver uma resenha no CineMasmorra - site de cinema pro qual também escrevo resenhas. Como fã de filmes de faroeste, já havia assistido a um filme dirigido por Peckinpah - o excelente “The Wild Bunch” (“Meu ódio será sua herança”), com William Holden e Ernest Borgnine. Achei que a exibição de violência nua e crua tivesse sido uma opção estilística especificamente para esse filme. Afinal, a maioria dos faroestes - os spaghetti nem tanto - sempre exibem violência sem disfarces, sem rodeios. Mas estava enganada. Lendo um pouco mais sobre o diretor e após assistir “Straw dogs” ficou claro que esta é uma característica dos filmes de Peckinpah, chamado por alguns críticos de “o poeta da violência”.
Baseado em um livro de Gordon Williams - "The Siege of Trencher's Farm" - o filme conta a estória de David Sumner (Dustin Hoffman), um matemático, e Amy Sumner (Susan George), sua esposa. Casados há pouco tempo, mudam-se para a cidade natal de Amy, um vilarejo no interior da Escócia. Passam a morar na casa em que ela viveu parte da infância e adolescência, e contratam alguns antigos conhecidos de Amy para consertar o telhado da garagem. À medida que o filme avança, a animosidade entre os “locais” e David vai aumentando, culminando numa sequência final de tirar o fôlego.
Aviso: não há possibilidade de tecer alguns comentários sem dar spoilers. Portanto, se o caro leitor ainda não assistiu ao filme, continue a leitura apenas se isso não o incomodar.
O diretor opta por mostrar esse estranhamento entre David e os moradores logo de cara. É bastante instigante o modo como percebemos quase imediatamente a implicância com David e a atenção com Amy. Mais instigante ainda pois, a princípio, o casal parece não notar essa reação (quase xenófoba) dos moradores locais - entenda-se como locais um ex-namorado de Amy, Charlie Venner (Del Henney), seus familiares (tio, primo, etc) e amigos.
Desde o início, David é visto como um estranho. Os locais o acham esquisito. E não há dúvida, ele é um estranho no ninho. Um matemático americano, franzino, inexpressivo e, aos olhos da turma que lhe conserta a garagem, covarde também. Referem-se a ele às gargalhadas, sendo sempre motivo de chacota. Por outro lado, Amy é a moça desinibida, atrevida e conhecida deles. A quem dedicam um “olhar” mais intenso e, na maioria das vezes, lascivo. Conflito 1: intelectual versus bando de caipiras.
Importante também no desenrolar da estória, é a condição do relacionamento do casal. Parecem estar fora de sincronia. Amy, ao voltar à casa paterna, parece regredir em idade e várias vezes comporta-se como uma adolescente, o que se contrapõe à seriedade de David, que quer concentrar-se em seu trabalho. Desde a travessura de inverter um sinal no quadro-negro que David usa para escrever suas fórmulas, passando pelo modo de sentar-se, até o jeito de mascar chiclete feito criança, com a boca aberta. Conflito 2: intelectual versus esposa infantilizada. Incomodada com a situação - pelo que acredita ser um distanciamento proposital do marido - Amy usa seu atrevimento para tentar atrair a atenção de David. Porém, o efeito não é o esperado. Na tentativa de suscitar o interesse de David - sem sucesso - acaba atraindo ainda mais o dos rapazes. E esse conflito intensifica-se quando Amy percebe ser alvo dos olhares dos rapazes e, ao queixar-se a David, percebe que ele não tem intenção de tomar qualquer atitude. Ela, então, assim como os locais, passa a vê-lo como um covarde.
Difícil assistir ao filme e não compará-lo a "Funny Games", de Michael Haneke (crítica aqui). A temática é a mesma – a violência – mas o enfoque, a abordagem é totalmente distinta. Contudo, mesmo tão diferentes, suscitam no espectador questionamentos similares, comuns a ambos os filmes. Há ocasiões em que a violência é justificável? Se sim, em quais situações é válido – ou mesmo justo – fazer uso dela? E onde se localiza a linha tênue que delimita essa fronteira? Essa linha realmente existe? No lugar de David, o espectador agiria da mesma forma? David tinha outra opção além de reagir?
Mas o filme de Peckinpah vai um pouco além. Ele explora o que acontece depois que a violência se instala. Depois que ela se inicia, há um limite em que não é mais possível retroceder? Na aviação há o chamado “point of no return” – localização a partir da qual não é mais possível retornar, apenas seguir em frente. Será que quando a violência se instaura existe algo assim, irreversível? E mais, atravessar esse limite é involuntário? Ou, como Júlio César ao atravessar o Rubicão, a passagem é feita deliberadamente para que não haja possibilidade de voltar atrás? Depois que os rapazes iniciaram as animosidades, havia um ponto em que ainda poderiam “desistir”? David estava tão imbuído da sua “missão” que era impossível parar? Seus motivos eram razoáveis? Sua reação foi desproporcional à sua motivação?
Referente à essa última questão, ela é salientada devido à transformação bastante abrupta nos “modos” de David. Conforme um amigo escritor gentilmente me lembrou, sua atitude muda drasticamente quase da água para o vinho. Num instante ele é um “banana”, que se esconde por trás dos óculos e se encolhe face a qualquer ameaça à integridade de sua rotina; e momentos depois, quase num passe de mágica, converte-se num misto de brucutu e estrategista, algo como um Rambo com habilidades de McGyver. Talvez tenha sido opção do diretor, para evidenciar a metamorfose induzida pelo uso e aceitação da violência como solução de conflito. E, mesmo que me incomode e ache que poderia ter sido um pouco mais sutil, o objetivo foi atingido, pois é impossível não deixar-se impressionar com a transformação operada. Destaque para a atuação de Hoffman, que personifica com extrema competência ambas as facetas do personagem.
Interessante também é a posição em que Peckinpah coloca o espectador. Já na cena de abertura observa-se o vilarejo do alto (quase uma tomada plongé), como um deus observando sua “fazenda de formigas”. E mais de uma vez durante o filme, o público assiste aos acontecimentos desse ponto de vista (*). Diferente de Haneke - em que o espectador sente-se de certo modo cúmplice do que ocorre - Peckinpah faz dele uma testemunha. Testemunha de mãos atadas, cujo único direito é perguntar-se se, estando na mesma situação do protagonista, reagiria da mesma forma. E questionar-se acerca de quanto da atitude de David e dos agressores é fruto da sua natureza e quanto é decorrente da cadeia de eventos que os envolve.
Lembrei também de um outro filme: “Irréversible” (Irreversível), dirigido por Gaspar Noé, que também explora essa perspectiva. Tensão crescente à medida que a estória avança, culminando numa explosão de violência. (No caso de “Irréversible”, a tensão é aparentemente decrescente, já que o filme exibe a estória de trás para frente.) A violência extrema em algumas cenas também é um ponto em comum. Mas no filme francês, os personagens não são tão tridimensionais, com características tão palpáveis. Em “Straw dogs”, ninguém é perfeito. Os personagens são irritantemente verossímeis, pois todos são, de alguma forma, perdedores, gente comum tomando decisões erradas. Não há como gostar de algum 100%. E isso é um fator que causa certo incômodo também – além da temática – pois são pessoas tão “normais” que a identificação é inevitável. Em diversos momentos, o espectador indaga-se “Poderia ser comigo... E se fosse? O que eu faria?”.
E enquanto Haneke não exibe a violência na tela – exceto por uma das cenas – Peckinpah a mostra com riqueza detalhes. Fazendo jus à sua alcunha, tem extremo cuidado na coreografia de cada plano, cada sequência. Apesar de chocantes, o espectador é obrigado a admitir que as cenas são plasticamente admiráveis. E a montagem também é primorosa. Destaque para a cena de estupro cuja interpolação das imagens cria um efeito interessante. Enquanto na primeira sequência, a alternância expõe a frustração de dois personagens (David e Amy) no mesmo momento por motivos bastante distintos; na segunda, as lembranças do acontecido mixadas à balbúrdia das crianças na festa da igreja induzem no espectador a mesma náusea que a personagem experimenta, não conseguindo apagar da memória a violência sofrida. Além disso, as imagens intercaladas refletem também a dubiedade do comportamento de Amy ao ser violentada. Ela resiste e, alternadamente, beija e acaricia o primeiro estuprador.
Essa cena é marcante, não só pelo seu teor e pela maneira excepcional com que foi construída. A cena, em si, é também ambígua. Habilmente , Peckinpah incute no público a suposição de que esse fato será o catalisador do conflito “físico” entre David e os locais. Mas o matemático recorre à violência por motivos totalmente diversos, já que, aparentemente, ele sequer suspeita do que ocorreu com Amy. E, de acordo com sua natureza, os motivos são plausíveis apesar de bizarros aos olhos do espectador que, neste caso, sabe mais que o personagem. Contudo, se o espectador soubesse o mesmo que David, consideraria que os motivos eram, além de plausíveis, suficientes para justificar a fúria que o impele? Pois, de certo modo, aceitamos suas atitudes já que a nosso ver, David (mesmo não estando ciente disso) está defendendo sua honra, a honra da esposa violentada – e não apenas evitando a invasão de sua casa .
E Peckinpah consegue deixar o público com a estranha sensação de que não há certo ou errado. De maneira genial, ao término do filme, faz com que o espectador já não tenha certeza de suas convicções. Ficamos, de certa forma, perdidos – assim como os personagens na cena final: “Não sei voltar pra casa.” - diz Henry, ao que David responde: “Nem eu.”
(*) Essa opção talvez tenha relação com o título do filme.
O título vem de uma citação de Lao-Tzu, filósofo chinês: “Céu e terra não são humanos, e olham as pessoas como se fossem cães de palha”.
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Posted On domingo, 11 de dezembro de 2011 at 20:57
meteorologia: finalmente um dia sem chuva
pecado da gula: pão doce
teor alcoolico: 2 itaipavas
audio: contra relógio no ar #32
video: criminal minds
Não ligo muito para essas datas festivas. Toda a simbologia a que a maioria das pessoas se remete sobre renascimento, reinício e afins, simplesmente não faz parte do meu pensamento. Obviamente, é difícil ficar totalmente imune, o que já admiti neste post sobre resoluções de ano novo.
Eu sei, sou naturalmente ranzinza. E essa euforia festiva me exaspera bastante. Além do mais, acho uma chatice ter de enfrentar uma multidão a cada vez que se resolve sair de casa para ir a qualquer lugar "de compras", seja um mercado ou um shopping. Essa ânsia consumista me irrita. Muito mesmo.
Mas, apesar de tudo, a porção comestível da comemoração sempre me agradou. Mesmo achando ser totalmente desnecessário esperar "as festas" para degustar certas iguarias culinárias. Atire um punhado de passas quem nunca desejou se empaturrar de panetone (ou chocotone) em pleno inverno. Acompanhado de um café bem quentinho, assistindo um bom filme, enfiado sob as cobertas. Não seria ótimo? Eu, naturalmente, em geral não espero e, vez ou outra, preparo algumas delas durante o ano.
E a lista de hoje é justamente sobre essas delícias que (indevidamente) ficam relegadas à última semana do ano - e as sobras, às semanas seguintes.
(obs.: são as que comumente se consome aqui em casa e não necessariamente as mais tradicionais)
- Peito de peru assado
- Magret de canard
- Haddock au beurre
- Escargots
- Vol-au-vent (em geral, recheado com as sobras de peru ou haddock)
- Pain perdu (rabanada)
- Panetone (ou chocotone)
- Sonho
- Stollen
- Bûche de noël
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Posted On sábado, 10 de dezembro de 2011 at 03:20
meteorologia: chuva e mais chuva
pecado da gula: churrasco
teor alcoolico: 2 original
audio: queen video: eldorado
Estou em fase de leitura intensa, como há algum tempo não ocorria. Aproveitando a "onda", segue uma lista de blogs e/ou sites sobre literatura que eu acompanho e leio quase diariamente:
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Posted On quinta-feira, 8 de dezembro de 2011 at 07:18
meteorologia: amanhecer nublado
pecado da gula: pão na chapa com manteira
teor alcoolico: nada ainda
audio: riverdance
video: karate kid
Já que hoje tem palestra do autor de "Muito além do nosso eu", na Livraria Cultura, é a ocasião perfeita para publicar mais um post sobre o livro.
Todo o capítulo gira em torno do embate entre localizacionistas e distribucionistas. Mas o título explicitamente já conduz o leitor na direção do processamento distribuído. O que não é de se estranhar, já que o autor no capítulo anterior frisou a intenção final do livro: mostrar ao leitor que o essencial são as “populações de neurônios.”
O primeiro confronto relatado é em uma palestra, a primeira de muitas, ministrada em Oxford por Lorde Edgar Douglas Adrian, em 1946. O assunto: a discussão sobre a provável sede da inteligência. Lorde Adrian discorre que, assim como em diversos outros assuntos, no final do século XVII, os filósofos de Cambridge e Oxford tinham opiniões opostas sobre o assunto. Enquanto em Cambridge defendia-se que a inteligência ficava localizada numa parte do corpo, em Oxford defendiam a proposição mais improvável (na época) de que ficava espalhada por todo ele.
Lorde Adrian, que dividiu o prêmio Novel de Fisiologia e Medicina em 1932, sendo de Oxford, claramente pendia para o lado defendido pela sua universidade. E, ele foi, nas palavras de Nicolelis:
“(...) o primeiro neurofisiologista a medir com exatidão como informações sensoriais sobre o mundo externo e o corpo são codificadas em salvas de eletricidade, a linguagem da mente, para então serem transportadas por nervos periféricos para todo o cérebro.” Ponto para os distribucionistas.
Logo adiante, o autor cita mais dois embates: Galvani versus Volta e Newton versus Einstein. Sobre o primeiro escreve: “A disputa entre Galvani e Volta, repetida muitas vezes na história da ciência, ilustra o fato de que a natureza, aparentemente, não escreve seus concertos com apenas um punhado de notas triviais.” Assim como já observado, e que se repetirá ainda muitas vezes no decorrer do livro, Nicolelis mais uma vez nos remete a uma metáfora musical para exemplificar o teor da discussão.
Acerca do segundo, em que o “formato” da luz é a questão central – partícula versus onda - somos apresentados a Thomas Young. Digo apresentados pois, apesar de conhecer o trabalho desse homem da ciência, não me recordava de ter algum dia sabido seu nome. Médico, físico, egiptólogo, fisiologista, linguista e, conforme Nicolelis, o “primeiro neurocientista computacional da história”. Numa época em que o termo multi-tarefa sequer existia, ele certamente encaixava-se nessa categoria. E o nome da biografia escrita por Andrew Robinson não deixa dúvidas sobre isso: “The Last Man Who Knew Everything: Thomas Young, the Anonymous Polymath Who Proved Newton Wrong, Explained How We See, Cured the Sick and Deciphered the Rosetta Stone” (“O último homem que sabia tudo: Thomas Young, o anônimo polímata que provou que Newton estava errado, explicou como nós enxergamos, curou os doentes e decifrou a Pedra Roseta, entre outras proezas geniais”).
Eu já tinha conhecimento do experimento da dupla ranhura (double-slit experiment), mas admito que não fazia a menor ideia de quem o tinha concebido. Mais admirável ainda, foi saber que Young, um ano após a realização do experimento que desmentiu Newton, começou a formular o que viria a ser a teoria distribuída de codificação neural – que eu conhecia como teoria tricromática da visão colorida. O que nos leva a mais uma disputa: Thomas Young versus Franz Gall. Segundo Roberto Erickson, colega de Nicolelis na Duke e um dos poucos capazes de falar sobre a origem da richa: todo localizacionsta tem Gall por ancestral, enquanto todo distribucionista é herdeiro de Young.
Mas, independente do confronto de ideias, o mais incrível foi aprender que, sem nenhuma outra fonte de dados além do próprio raciocínio, Young previu a existência de 3 tipos distintos de receptores de cores na retina. Nada além dos seus próprios neurônios, nenhum equipamento, nenhuma outra pesquisa. Apenas sua lógica dedutiva. Hoje, num mundo em que praticamente qualquer experimento, dedução ou comprovação de uma teoria não é factível sem a utilização de computadores e/ou calculadoras superpotentes, tal feito é simplesmente inimaginável.
E dois séculos depois foi provado que os neurônios, ou melhor, o sistema neuronal descrito por Young – neurônios de banda larga – são o padrão e não a exceção. Mais uma disputa “vencida” pelos distribucionistas.
“Curiosamente, sem ter acesso a qualquer um dos instrumentos computacionais e outros artefatos de alta tecnologia que abundam nos modernos laboratórios de neurofisiologia, Thomas Young, munido apenas de papel, tinta, uma pena e muitas velas para iluminar seus devaneios notívagos, foi capaz de deduzir intuitivamente uma das mais fundamentais leis da ciência da mente. Apenas pelo pensamento.”
Imediatamente ao terminar de ler o parágrafo acima, veio-me à mente algo que sempre assombra meus pensamentos: ao delegarmos a essas “máquinas” o processamento de nossas ideias, estamos utilizando nossos neurônios na mesma proporção para aprender e apreender coisas novas e diferentes, ou simplesmente permitindo que eles fiquem cada vez mais preguiçosos? Pergunto-me repetidamente se nossos antepassados “pensavam” mais e melhor que nós hoje.
E o autor, finaliza a lista de confrontos, falando sobre Camillo Golgi e Santiago Ramón y Cajal. Como Nicolelis o descreve:
“Microscopista quase mágico, Ramón y Cajal combinava uma habilidade laboratorial até então inigualável com um dom artístico apurado para o desenho e uma criatividade para a abstração pouco comum entre seus pares.”
Como já havia comentado, foi de Cajal o primeiro desenho (fiel) de um neurônio que vi num livro de neuroanatomia na faculdade. E a técnica utilizada para Cajal visualizar e, posteriormente, desenhar os neurônios levava-o a inferir que cada célula era uma unidade de processamento. Enquanto isso Golgi remava contra a maré, propondo que “a fusão de axônios era responsável pela gênese do que ele chamou de redes de nervos”.
E, numa ironia do destino (para quem acredita que ele existe), ambos dividiram o Nobel de Fisiologia e Medicina em 1906. Com um discurso inspirado e inflamado, Cajal envolveu os presentes e, aparentemente, saiu vencedor do confronto. Mais dois séculos e a grande maioria dos neurocientistas (termo cunhado justamente nessa premiação de 1906) acredita que Golgi estivesse certo em sua visão mais abrangente. E silenciosamente, a rede neural mais uma vez venceu a disputa.
Referências:
Biografia de Thomas Young, na Livraria Cultura
Descoberta da bioeletricidade: Galvani x Volta
Experimento dupla ranhura: vídeo e texto
Teoria tricromática
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