Incinerando películas » Into Thin Air: Death on Everest

coded by ctellier | tags: , , | Posted On quinta-feira, 22 de março de 2012 at 22:50

meteorologia: seco, ar muito seco
pecado da gula: pão de queijo
teor alcoolico: 1 stella artois
audio: jurassicast #24
video: dexter

Into Thin Air: Death on Everest (Morte no Everest)
Direção: Robert Markowitz
Roteiro: Robert J. Avrech

Pensem em um livro que tenham lido e gostado mais do que o esperado. Agora imaginem descobrir que existe uma versão cinematográfica dele. Então, foi com esse grau de expectativa que apertei o play no Netflix para assistir ao filme.

Torcia para que fosse tão bom quanto o livro. Lêdo engano. Infelizmente, não correspondeu à expectativa. E, além de não corresponder, foi uma decepção enorme. O filme é curto, mas tão, tão insuportavelmente chato que eu não via a hora de terminar. A todo momento verificava quanto faltava para o final. Ao contrário do livro, os personagens são apresentados de forma tão superficial e sem graça que não há como se identificar ou se solidarizar com suas tragédias. O descuido nesse quesito é tanto que em dado momento eu já estava confundindo os alpinistas. E, num filme de escalada na neve, diferenciar as pessoas é o mínimo necessário para conseguir - e querer - continuar a acompanhar os eventos. Some-se a isso a visão levianamente maniqueísta da postura dos líderes das duas equipes e a inacurácia das informações- 12 pessoas morreram, não apenas 5 como citado no filme. A atuação do elenco é praticamente inexistente. E a produção sequer se deu ao trabalho de utilizar imagens reais do everest - foi tudo filmado na Áustria. Enfim, totalmente dispensável. Em contrapartida, eu indico a leitura do livro.

Li "Into thin air" (No ar rarefeito) há 10 anos, mais ou menos. E, até lê-lo, não sabia que gostava tanto desse estilo literário - o relato de viagem. Neste post, ele é o top 1 da lista dos que já foram lidos.

Sinopse do livro (fonte: livcultura.com.br):
Um relato sobre a temporada mais trágica da história do Everest. Contratado pela revista 'Outside' para fazer uma reportagem a respeito da crescente comercialização da montanha, Krakauer, alpinista experiente, foi ao Himalaia como cliente de Rob Hall, o guia de alta montanha mais respeitado do mundo. Em 1996, subindo a montanha ao lado do grupo de Hall havia uma outra expedição guiada por Scott Fischer. Mas nem um nem outro sobreviveram à tempestade traiçoeira do dia 10 de maio. Krakauer conta a história e faz uma reflexão sobre o encanto avassalador que o Everest exerce sobre as pessoas, levando-as a arriscar a vida.

O interessante do livro é que Krakauer não se limita a seu papel de repórter. O texto é envolvente pois ele nos apresenta os "personagens" da tragédia um a um, expondo suas motivações para estarem ali enfrentando a montanha. Não nego que ele narra cada etapa da tragédia com bastante propriedade e de forma detalhada o suficiente para deixar qualquer um em suspense. Mas, no meu entender, o que faz o livro ser tão cativante e prender o leitor até o desfecho é ter dedicado tempo nos familiarizando com cada membro das expedições, fazendo com que o leitor torça pelo destino dos personagens.

O post não é sobre o livro, mas não poderia me furtar de comentar sobre ele. Mesmo porque, a qualidade do livro contribuiu para a minha decepção com o filme. Iludi-me pensando que o filme possivelmente tinha recebido o mesmo tratamento respeitoso e deferente dado ao segundo livro de Krakauer - "Into the wild" (Na natureza Selvagem). Dirigido e roteirizado por Sean Penn e estrelado por Emile Hirsch, guardadas as devidas proporções, o filme conseguiu captar a essência do livro e do personagem retratado por Krakauer - Chris McCandless, um jovem que larga tudo e sai numa jornada sem volta no Alasca.

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Dia do blogueiro

coded by ctellier | tags: , | Posted On terça-feira, 20 de março de 2012 at 22:43

meteorologia: outono dando as caras
pecado da gula: picolé de brigadeiro
teor alcoolico: 1 smirnoff ice
audio: braincast #8
video: anos incríveis

Hoje é dia do blogueiro. Logicamente, o primeiro impulso seria fazer uma lista de blogs super-ultra-megabogas. O que eu mais leio, o que eu mais gosto, o que eu acompanho há mais tempo, o que tem mais atualizações e assim por diante. Mas cheguei à conclusão que o melhor mesmo é divulgar o blog dos amigos(as) e colegas. Afinal, os blogs super-ultra-megabogas já têm uma quantidade de page views várias vezes maior que a dos nossos blogs "amadores" (ou quase).


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Review » Saucony Hattori

coded by ctellier | tags: , | Posted On terça-feira, 13 de março de 2012 at 18:47

meteorologia: nublado e calor
pecado da gula: espetinho de frango e provolone
teor alcoolico: nada ainda
audio: legião urbana
video: desperate housewives

Todo corredor sabe ou ao menos desconfia que o tênis nosso de cada dia tem vida útil limitada. Essa vida útil costuma variar entre 500 e 700km rodados, dependendo do modelo. Passada essa quilometragem, mesmo que o tênis pareça estar ainda em boas condições, provavelmente já perdeu as qualidades que fazem dele um bom calçado para correr, já que o sistema de amortecimento e a elasticidade dos tecidos ficam comprometidos. Talvez ainda dê um “bom caldo” como calçado para uso no dia-a-dia, mas para treinar, não.

A maioria dos corredores costuma ter, no mínimo, dois pares de tênis que são utilizados em dias alternados. Essa prática é recomendada não só para que o calçado seque entre um treino e outro, mas também para que “descanse” e restaure suas características. Os mais dedicados - ou poderia dizer também, viciados - costumam ter modelos diferentes para treinos e provas e para distâncias diversas.

Bom, um dos meus pares prediletos, um Mizuno ProRunner, estava próximo da aposentadoria e, já pensando no par seguinte a ser utilizado, comecei a pesquisar as opções disponíveis. Sei que a tendência natural é não mexer em time que está ganhando, mas corredores são uma raça estranha, estão sempre à caça de novidades. E era grande a vontade de experimentar um outro modelo, que talvez me deixasse ainda mais satisfeita e mais próxima de uma das minhas metas de corrida - 10km em 50min. ou menos. Sempre fui fiel às minhas marcas favoritas - Mizuno e Brooks - mas, saindo da minha zona de conforto, resolvi experimentar outras.

Já que o assunto mais em voga atualmente é “correr descalço ou não, eis a questão”, achei que seria interessante procurar um meio têrmo e optar por um tênis minimalista. Pra quem já se acostumou a correr descalça na esteira - ou na grama e na praia - ou calçando o FiveFingers na rua, pensei que essa seria uma boa opção. E não me enganei. Tinha visto o New Balance Minimus Trail, ao buscar o kit de uma prova. Lembrei-me dele ao procurar alternativas e pareceu-me uma boa escolha. Mas acabou não sendo o eleito. Fui a uma loja a fim de experimentar o modelo, mas não tinha meu número. O vendedor ofereceu-me o Saucony Hattori, que tinha acabado de chegar. Experimentei e gostei, mas ainda queria tirar a dúvida experimentando o Minimus. Consegui fazê-lo alguns dias depois. Não vou dizer que não é confortável, apenas não vestiu muito bem no meu pé, e acabei adquirindo o Hattori.

Primeiríssimas impressões, ao andar e dar um trotezinho pela loja - sim, eu sei, corredor sempre paga mico nessas horas:
Muito leve (menos de 190g) e bastante confortável. Os fechos de velcro garantem um bom ajuste aos pés. Extremamente flexível, dá a impressão de estar andando em casa de meias. O formato largo deixa o pé se movimentar livremente, sem apertos ou pontos de pressão.

Primeiras impressões, correndo na esteira:
No dia que comprei o tênis, tinha perdido a hora pela manhã e não tinha feito meu treino. Como estava ansiosa por fazer um test-drive, não deixei para o dia seguinte. Uma hora e meia de corrida e 14km depois, o resultado foi muito bom. Nenhuma dor, nenhum incômodo. Sem qualquer ponto do calçado “pegando” no pé. Sem bolhas. A sensação de conforto persistiu mesmo depois de tanto tempo correndo. E uma vantagem, o tecido quase todo respirável não deixa o pé “ferver” dentro do calçado. Não deu aquela vontade de tirar os tênis no finalzinho do treino, para dar um refresco.

Day after do primeiro treino:
Zerada. Certamente por já ter feito a transição de tênis com amortecimento para o Five Fingers, o pós-treino foi tranquilo. Sem dor na panturrilha nem na planta do pé. Nenhum cansaço além do normal.

Primeiro teste na rua:
Sempre vou e volto da academia correndo. Ontem, resolvi testar o Hattori na rua. E, assim como na esteira, o resultado foi mais do que satisfatório. Ele amortece bem apesar de parecer não ter qualquer tipo de sistema de amortecimento. Dá para sentir os desníveis da calçada, mas com a segurança de não ter de se preocupar se há alguma pedrinha ou vareta mal-intencionada.

Enfim, para quem procura um tênis minimalista, é uma opção muito boa. Uma dica: a fôrma do calçado é pequena, portanto para usar com meia é melhor pegar meio número acima do habitual.


Obs.: Em nenhuma loja tinha esse modelo da foto, tive de me contentar com um preto de solado verde-limão.



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"Bombeiros, mamãe! Vai haver um incêndio..."

coded by ctellier | tags: , | Posted On sexta-feira, 9 de março de 2012 at 23:38

meteorologia: sol e calor
pecado da gula: pizza
teor alcoolico: 2 original, 1 stella artois
audio: nerdcast #301
video: trailer john carter

Fahrenheit 451
Direção François Truffaut
Roteiro François Truffaut, Jean-Louis Richard

O filme já estava há algum tempo na minha lista para ser assistido. Sempre por um motivo ou outro, acabava ficando para depois. Mesmo por que eu tinha a intenção de ler antes o livro homônimo em que o filme se baseia, de Ray Bradbury. Há alguns meses, li um post falando sobre o livro - mea culpa, não consigo me recordar onde foi. Li e comentei com um amigo. Sobre o post, sobre o livro e sobre meu interesse ter sido aguçado depois da leitura do texto. Até que, casualmente, esse mesmo amigo adquiriu o livro e eu prontamente pedi-o emprestado. Nunca havia lido nada de Bradbury e foi uma grata surpresa o modo natural como seu texto flui e, consequentemente, a leitura também. Avidamente, “devorei” o livro em menos de uma semana - devem ter sido 3 ou 4 dias. Mas este texto é sobre o filme. Do livro, comenta-se em outro post.
(Aliás, é necessário destacar que este post foi escrito em parceria com o feliz proprietário do livro, Douglas Pereira).

Num futuro distópico, um governo totalitário proíbe ler e manter livros, sob o pretexto de que tornam as pessoas infelizes. Bombeiros, então desnecessários para contenção de incêndios, são os responsáveis pelo controle e incineração de qualquer exemplar impresso encontrado. Além de atear fogo aos livros, os bombeiros são também responsáveis por encontrar, perseguir e deter aqueles encontrados mantendo-os e lendo-os. Tal qual uma polícia “especial”, uma Gestapo bibliófoba.

A curiosidade acerca do título, obviamente, foi sanada logo no frontispício do livro. Fahrenheit 451 é a temperatura na qual o papel do livro pega fogo. No filme, essa explicação é dada pelo protagonista à outra personagem. (No livro, isso também ocorre. Mas quando ocorre, o leitor - se não pulou a página frontal - já está informado do que se trata.)

“Os livros alteram as pessoas. Tornam-nas anti-sociais.”
(Guy Montag)

Guy Montag (Oskar Werner), o protagonista, é um bombeiro. Casado com Linda (Julie Christie) - no livro, Mildred - , inicialmente parece bastante satisfeito com sua profissão e sua vida. Faz bem seu trabalho, está prestes a ser promovido. Leva uma vida simples e normal. Sua esposa passa boa parte do tempo em casa, imersa nos programas de tv, junto com a Família - alcunha dada aos personagens e apresentadores dos programas televisivos. Enfim, um lar de aparente felicidade, de cotidiano tranquilo, perfeito.

Porém, um encontro inesperado faz com que Montag passe a questionar sua própria motivação e a validade do seu ofício. A conversa com Clarisse, sua vizinha (Christie, também) tem um efeito catalisador e ele começa a sentir-se inquieto no cumprimento de seu dever. Inquieto e em dúvida. Esconde em casa alguns dos livros que deveria queimar. E já não consegue ter tanta certeza de que os preceitos que vem seguindo há anos sejam realmente o melhor para ele, para sua esposa, para a sociedade. Chega a hesitar numa das execuções. Tornando-se desse modo um pouco suspeito aos olhos de seus pares e de seu chefe. Linda, assim como as “amigas” que frequentam sua casa, e importando-se apenas com a Família da tv, não consegue lidar com a mudança de atitude de Montag. Alienada, pede-lhe até para escolher entre ela e os livros.

Numa referência clara ao final do livro (e do filme) os créditos iniciais, diferentemente do habitual, são narrados, não escritos. Sustentadas pela trilha sonora sempre eficiente de Bernard Hermman, as imagens introdutórias - antenas de tv - se sucedem de tal modo como se os créditos estivessem aparecendo escritos na tela. E a técnica é tão eficaz, que apenas reparei nesse detalhe quase ao final da introdução. Voltei o filme para me certificar e soltei aquela interjeição básica (e incontrolável) dos reles mortais ao se depararem com uma sacada de gênio numa obra - seja filme, livro, série de tv - : “Pqp!! Como ele teve essa ideia?!” Acredito que sua intenção tenha sido dar ao público o mesmo que é permitido aos personagens: imagens, mas não texto - o que é nitidamente percebido na cena em que Montag “lê” um jornal sem palavras, apenas imagens, como uma HQ sem diálogos. Submetendo o espectador à mesma proibição a que são submetidas os personagens, ele é imerso no universo narrativo desde o início.

A estória se passa numa época indeterminada, pois não há datas para situar o leitor/espectador. Ocorre num futuro distópico representado diferentemente no livro e no filme. Enquanto no primeiro, o ambiente é descrito como extremamente limpo e automatizado, o que dá a impressão de ser algo mais futurista, com mais branco e cromados, mais próximo do ambiente de “2001 - uma odisseia no espaço”; no segundo, o ambiente reflete a época em que o filme foi filmado. Cenário, figurino, penteados, equipamentos, tudo é bem datado, bem “sixties”. Talvez, a opção do diretor tenha sido por aproximar ainda mais o público que assistiria ao filme na década do seu lançamento. Seu intuito, possivelmente, fosse o de demonstrar que aquele futuro poderia não estar assim tão distante. Assistindo hoje, esse objetivo não é atingido. O ambiente remete a uma realidade alternativa e não a uma evolução da sociedade atual.

Porém, além dessa intenção por assim dizer “mais digna”, não se pode excluir a possibilidade de que não tenha sido uma “opção”, e que se deva a uma adaptação forçada à falta de dinheiro para produção de melhor qualidade e criatividade. Isso faz sentido quando se percebe o reaproveitamento de cenas (rodando ao contrário e depois repetindo no sentido certo) e outros detalhes de qualidade duvidosa que, mesmo para aquela época, já poderiam ter sido feitos se o orçamento fosse suficiente. “2001 uma odisséia no espaço” era da mesma época e tinha efeitos e ambientações muito superiores. Há cenas que, apesar da (aparente) viabilidade técnica, poderiam ter sido deixadas de lado ou feitas de outra forma. Os policiais em “trajes voadores”, por exemplo. O efeito de back projection deixou tudo simplesmente ridículo. Arranca risos, ao invés de causar tensão.

Mesmo não sendo um livro longo, alguns detalhes foram deixados de lado no filme. Provavelmente por impossibilidade técnica de execução (como Sabujo, o cão mecânico), ou por opção do roteirista e do diretor. Essas ausências não chegam a comprometer demais o sentido do filme. Apesar de eu ter sentido bastante a falta de Faber, personagem do livro que é uma espécie de mentor de Montag. Creio que seja a ausência mais significativa - e prejudicial - pois ele é quem dá o “golpe final” em Montag para trazer sua consciência à tona.

Outra diferença entre livro e filme é a cena de Montag na escola com Clarisse que foi inclusa certamente com o intuito de representar o trecho do livro em que Clarisse discorre sobre educação. Não atrapalha, parece apenas indicar que Truffaut importava-se mais com este assunto que Bradbury. Ainda sobre Clarisse, enquanto no livro ela é uma adolescente, em todo seu frescor e estouvamento; no filme, Truffaut optou por envelhecer a personagem. O que não funcionou muito bem, visto que a forma como ela aborda os assuntos ainda é típica de uma adolescente, fazendo a personagem parecer uma retardada e não uma pessoa com idéias diferentes. Além disso, o roteiro falha ao transpôr os diálogos entre eles. O “discurso” dela carece de força e não convence o público de que seria o suficiente para mudar a visão de um homem alienado como ele. Aliás, a falha na transcrição dos diálogos é generalizada, fazendo as falas parecerem artificiais e teatrais. Sobretudo quando o capitão dá o sermão final em Montag. Se ele estivesse embriagado, talvez fosse mais convincente.


No filme, Clarisse é uma professora, demitida por não concordar com os padrões educacionais vigentes. Possivelmente, a intenção era que Clarisse fosse mais que o gatilho na transformação de Montag. Que a sedução fosse não somente ideológica, mas sexual também. Creio que tenha sido esse o motivo que levou Truffaut a utilizar a mesma atriz para interpretar tanto Linda como Clarisse. Fisicamente semelhantes (cabelo e figurinos diferenciados) e, ao mesmo tempo tão diferentes. Uma, totalmente alheia e imersa no divertimento instantâneo oferecido pela Família. A outra, que sequer possui aparelho de tv em casa, resistente à cultura massificante difundida pelo governo. A semelhança física faz com que a diferença de atitude fique ainda mais evidente para Montag.

Porém, acredito que a maior diferença seja o destino de um dos personagens. No livro, não há o que pode ser chamado de final feliz, já que não sabemos o que realmente lhe ocorre. Enquanto que no filme, Truffaut resgata o personagem, creio eu - ou melhor, tenho quase certeza - com o intuito de preencher uma lacuna dramática que certamente deixaria a maioria dos espectadores decepcionados, ou mesmo descontentes.

Sobre o filme como um todo, há algumas curiosidades. Baseado num livro escrito por um norte-americano, Truffaut, francês, dirige seu único filme falado em inglês - idioma que ele não domina - numa nítida tentativa de ampliar o alcance da obra. Filmado em locações na Inglaterra, com atores falando com leve sotaque britânico. E cujo protagonista é representado por um ator alemão, que entrou na produção após a desistência de Paul Newman, às vésperas do início das filmagens.
(Spoiler à frente) No final do filme, quando Montag foge e conhece as pessoas-livro - pessoas que decoram determinada obra e "se tornam" a obra - uma delas é "As crônicas marcianas", numa clara homenagem ao autor de "Fahrenheit 451".

Enfim, é um filme bom, mas longe de ser uma obra-prima como o livro. Caso alguém me pergunte, indicaria a leitura do livro ao invés do filme. Certamente, a experiência é muito mais enriquecedora.

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Drops » The artist

coded by ctellier | tags: , , | Posted On quinta-feira, 1 de março de 2012 at 18:00

meteorologia: calor.. acima de 30°
pecado da gula: pão na chapa com manteiga
teor alcoolico: nada ainda
audio: closer ost
video: dexter

The artist (O artista)
Roteiro e direção: Michel Hazanavicius

Não fosse por suas características pouco usuais, sobre as quais já discorrerei, possivelmente este filme não figuraria sequer na lista que precede aquela dos indicados ao Oscar - ou a qualquer outra grande premiação, Globo de Ouro, Bafta, Palma de Ouro, etc. E também é quase certo que não teria chegado ao conhecimento da maioria do público, nem seria exibidos nas grandes redes de cinema.

Em tempos de computação gráfica, personagens "virtuais", filmagens em 3D, este filme é um retorno aos primórdios: é em preto-e-branco e mudo (ou quase). Por si só, essas características seriam suficientes para chamar a atenção. Mas não o bastante para garantir tantas indicações e prêmios. Não há como negar, apesar da resistência inicial ao estilo incomum, o espectador sai do cinema com a certeza de que o filme é bom. Roger Ebert captou muito bem, como sempre, essa sensação. Em seu comentário, afirma que foi assistir três vezes ao filme. E, em todas, o público aplaudiu ao término da sessão, talvez por estar surpreso por ter gostado tanto.

Minha vontade de ir ao cinema assisti-lo não se deveu (apenas) ao fato de ter sido tão elogiado e premiado. Foi a experiência que me atraiu. Eu nunca tinha ido ao cinema para assistir a um filme mudo. E acreditava que valia a pena vivenciar algo assim e entender como era antigamente. E não me arrependi. A experiência realmente valeu a pena.

Não há como assistir e não lembrar de "Singin' in the rain". Além da similaridade das estórias - ambas tratando da transição do cinema mudo para o falado - há a semelhança física, mesmo que ligeira, entre George Valentin (Jean Dujardin) e Don Lockwood (Gene Kelly), além de outras referências que deixo a cargo do espectador encontrar, já que este texto é spoilers free. Aproveitando a deixa e comentando sobre o elenco, é obrigatório falar do melhor coadjuvante do filme, o cãozinho Jack (Uggie), responsável por ótimas cenas.

Admito que não é um filmaço, daqueles que a gente chega para os colegas na hora do café e comenta "Cara! você tem de assistir! É muuuuito bom!". Não chega a tanto, mas num ano de produções medianas, era de se esperar que o melhor filme do Oscar não seria algo assim do outro mundo. Porém, dessa leva dos indicados, é um dos que merece ser assistido. Consegue agradar a gregos e troianos, ou melhor, cinéfilos e não-cinéfilos. Agrada aos primeiros pelos aspectos técnicos e pela "caça" às referências e aos demais por conseguir ser o que a grande maioria busca ao ir ao cinema: entretenimento.


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