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Posted On quinta-feira, 13 de junho de 2013 at 10:03
meteorologia: cadê o verão?
pecado da gula: brigadeiro
teor alcoolico: nada ainda
audio: queen
video: band of brothers
(resenha publicada originalmente no Vórtex Cultural, em 06/06/2013)
The angel’s share (2012) - A parte dos anjos
roteiro: Paul Laverty
direção: Ken Loach
★ ★ ★ ★ ★
Robbie (Paul Brannigan), um jovem desempregado prestes a ser pai, é sentenciado a cumprir algumas horas de trabalho comunitário depois de espancar um rapaz na rua por um motivo banal. No grupo de infratores que cumprem pena ao mesmo tempo que Robbie, ele encontra outras pessoas com o mesmo problema dele - ter vivido sempre à margem da sociedade e ter dificuldade em arrumar emprego. Robbie encontra também, na figura do supervisor do serviço comunitário, um amigo e um mentor no conhecimento de algo até então ignorado por ele - a degustação e apreciação de uísque. E Robbie entrevê, nessa nova atividade, uma possibilidade de mudar de vida, de começar uma nova vida com a namorada, Leonie (Siobhan Reilly), e o filho recém-nascido.
Para os abstêmios ou não apreciadores de destilados, vale uma explicação sobre o título. A ‘parte dos anjos’ refere-se àquele percentual de uísque que evapora dos barris de carvalho durante o envelhecimento. Lógico, tem a ver com a bebida “descoberta” pelos personagens, porém tem mais a ver com algo que ocorre na segunda metade do filme, mas que me abstenho de contar para não tirar a graça da estória.
É um filme singelo que talvez fosse lembrado como apenas mais um filme escocês sobre as dificuldades do ingresso na vida adulta não fosse pela guinada no roteiro que ocorre a partir da segunda metade da trama. O filme deixa de ser uma estória dolorosa sobre problemas sociais e jovens infratores para se tornar uma aventura no melhor estilo ‘sessão da tarde’, em que ideias mirabolantes são postas em prática e conseguem ser bem-sucedidas a não ser por um percalço ou outro.
Esse novo rumo surpreende o espectador e é nele que reside a leveza do filme, apesar de todo o non-sense das situações vividas pelos personagens. A mudança de tom e a nova abordagem da estória fazem toda a diferença no resultado final.
A trajetória de Robbie remete ao herói injustiçado que recebe um dom, que será responsável pela rendenção do personagem. Robbie consegue, usando sua aptidão recém descoberta, vislumbrar a possibilidade de sair da vida marginal e imersa em violência em que se encontrava até o momento. E, contrariando a máxima de que o ambiente molda o caráter, decide tomar as rédeas da sua vida nas próprias mãos. E, mesmo tomando um atalho a princípio - que leva o espectador a questionar se os fins justificam os meios-, livra-se do passado e dá um novo rumo à sua vida junto à sua nova família.
O filme não é longo, e assim consegue manter o ritmo do início ao fim, sem “barrigas”. Os diálogos ágeis e ácidos ganham o espectador principalmente nas cenas em que o grupo se inicia na degustação - que apreciador já não passou por isso? ser ridicularizado ao afirmar que um vinho, cerveja, uísque tem determinado aroma ou sabor - e durante a excursão a uma destilaria, em que o uso dos kilts causa consequências desagradáveis. O elenco central, praticamente desconhecido, tem boa empatia e convence como ‘gauches’ na vida que tentam de alguma forma dar certo.
É um filme despretensioso cujo sucesso reside na ambiguidade entre drama e comédia e que se torna bem sucedido justamente por não tentar misturar os dois gêneros e ainda assim conseguir manter o estilo do diretor e não deixar de lado a crítica social.

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Posted On quarta-feira, 5 de junho de 2013 at 08:56
meteorologia: frioooo...
pecado da gula: pão de queijo
teor alcoolico: nada ainda
audio: depeche mode
video: whitechapel
Carnage (2011) - Deus da carnificina
roteiro: Yasmina Reza
direção: Roman Polanski
★ ★ ★ ★ ★
(resenha publicada originalmente no Vórtex Cultural, em 29/05/2013)
Dois casais, Penelope e Michael Longstreet (Jodie Foster e John C. Reilly) e Nancy e Alan Cowan (Kate Winslet e Christoph Waltz) encontram-se no apartamento dos Longstreet para conversar a respeito de uma briga em que os respectivos filhos se envolveram. E o encontro, comprovando o princípio entrópico, avança e degenera rumo ao caos, transformando-se na carnificina do título.
A exemplo de Who's Afraid of Virginia Woolf?, o filme é adaptado de uma peça de teatro em que dois casais estão confinados num único ambiente - casa ou apartamento. Contudo, diferente deste, em que os recém-casados Nick e Honey (George Segal e Sandy Dennis) presenciam a lavação de roupa suja do casal “mais veterano”, Martha e George (Elizabeth Taylor e Richard Burton); em Deus da carnificina, os casais parecem ter mais ou menos o mesmo tempo de vida em comum e as batalhas verbais ocorrem entre todos. Mas mesmo assim, é difícil não traçar um paralelo, já que em ambos os casais usam o conhecimento advindo da intimidade para que suas palavras causem o maior dano possível. A ironia, o sarcasmo, a acidez de algumas falas revelam que cada um conhece o ponto fraco do outro e mira ali propositalmente. Contudo, o diferencial do filme de Polanski é que as discussões vão além do relacionamento entre os casais - por exemplo, o capitalismo despudorado de Alan versus o idealismo esquerdista de Penelope.
O fato de ser uma adaptação de uma peça poderia se tornar um complicômetro. Porém, o diretor soube usar a técnica cinematográfica a seu favor, fazendo algo que no teatro não seria possível e assim direciona o olhar do espectador a seu bel-prazer. Os atores surgem em planos e contraplanos, aos pares, trio, quarteto, acompanhando, como num passo de dança, a intensidade dos diálogos. E, assim como Lumet em 12 angry men (também baseado numa peça), Polanski usa a câmera para controlar o ponto de vista do público e intensificar sua reação ao que acontece em cena. É interessante notar que o confinamento dos casais nesse ambiente deve-se totalmente ao acaso - o café oferecido na hora de ir embora, o sinal do celular que falha a caminho do elevador, entre outros pequenos eventos que fazem o casal Cowan sempre voltar ao interior do apartamento.
E já que o desfecho não é inesperado, sabe-se desde o trailer para onde se encaminha a trama, o interessante é acompanhar como isso acontece. Ver a evolução dos personagens. A civilidade e as convenções sociais sendo deixadas de lado. A polidez dando lugar à sinceridade extrema. As máscaras caindo à medida que os ataques verbais se sucedem. Situações triviais deflagrando reações desmedidades e aparentemente irracionais. A conversa, que se inicia de forma trivial, evolui de tal forma que deixa o ambiente tenso. Comentários normalmente inofensivos tornam-se o estopim para uma saraivada de reclamações e observações sarcásticas. E as protagonistas das discussões vão se alternando - casal versus casal ou um contra um em todas as combinações possíveis.
A tensão que se instaura desde o início gera até uma reação física em Nancy. É estranho lembrar-se de um filme e referenciar-se a ele por causa de uma cena de vômito. Mas a cena foi tão bem feita e encenada, tão verossímil - tem-se a impressão de sentir aquele odor acre característico - que fica difícil não citá-la. Principalmente por que é a partir daí que a situação degringola. Se o espectador fica ao mesmo tempo surpreso e chocado com a cena, o mesmo ocorre com os personagens. O vômito parece servir de gatilho para os bons modos serem abandonados enquanto todos se sentem no direito de, a partir desse momento, expressar livremente seus pensamentos.
Kate Winslet está perfeita nesta cena. Mas não apenas nesta, destaque também para o declínio do seu grau de sobriedade após alguns goles de um ótimo scotch. Aliás, todo o elenco está acima da média. Mesmo não tendo mais nada a provar, há tempos não se via Jodie Foster tão bem num papel. Numa obra em que a trama é calcada em personagens e diálogos, a excelência das atuações é algo essencial e que garante a fluidez da narrativa. O espectador consegue acompanhar, em closes e planos-detalhe, os gestos, maneirismos, micro-expressões de cada um dos atores, nuances dos personagens que seriam impossíveis de observar num teatro.
Não é o melhor filme de Polanski. Mas mesmo um filme menor do diretor consegue conceder ao espectador uma experiência cinematográfica gratificante, mesmo que incômoda. Afinal, enxergar-se nas atitudes dos personagens não é nada agradável.

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Posted On terça-feira, 4 de junho de 2013 at 13:42
meteorologia: ensolarado, mas frio :-(
pecado da gula: queijo quente, com muuuuito queijo
teor alcoolico: nada ainda
audio: queen
video: friends
Whitechapel (2010)
★ ★ ★ ★ ★
Série britânica com apenas três episódios por temporada. Seguindo a máxima "menos é mais", as séries britânicas costumam ser bem produzidas e ter bons roteiros. E esta não decepcionou. Assisti em dois dias às duas temporadas disponíveis no Netflix.
A premissa é bem interessante: um copy-cat de Jack, o Estripador começa a agir na cidade, ao mesmo tempo em que um “almofadinha” carreirista e portador de TOC assume a inspetoria responsável pela investigação do caso. Este é o mote da primeira temporada.
Na segunda, o alvo da imitação são gângsters, os irmãos Kray. Talvez por não serem conhecidos fora da Inglaterra - eu, ao menos, nunca tinha ouvido falar deles - a temporada não tenha sido tão interessante no quesito investigativo. Mas o desenvolvimento dos personagens compensou bastante.
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Posted On quinta-feira, 30 de maio de 2013 at 14:28
meteorologia: friozinho de outono
pecado da gula: queijo quente (com muito, muito queijo)
teor alcoolico: nada ainda
audio: the corrs
video: the killing
(resenha publicada originalmente no Vórtex Cultural, em 23/05/2013)
The company you keep (2012) - Sem proteção
roteiro: Lem Dobbs
direção: Robert Redford
★ ★ ★ ★ ★
Ninguém sabe que Jim Grant foi um integrante do grupo terrorista Weather Underground. Quando uma companheira do grupo, Sharon é presa pelo FBI, sua verdadeira identidade é revelada em um artigo de jornal. Assim Jim torna-se o terrorista mais procurado pelo FBI nos EUA. Além disso o jornalista Ben, que escreveu a notícia, está no seu encalço pois acredita que existe algo mais a ser revelado sobre sua estória.
(fonte: www.cinemark.com.br)
O estopim da trama é nebuloso. Não fica muito claro qual a motivação de Sharon (Susan Sarandon) para escolher se entregar naquele momento, depois de tantos anos. Além de não ficar claro como o FBI chegou até ela exatamente no dia em que ela resolve se entregar. Sua conversa com o repórter, na prisão, dá algumas razões, mas nenhuma delas convence, nem é forte o suficiente para justificar o abandona de sua família - seu marido e seus filhos. Apesar de carregada de um idealismo meio caduco, a visão de Mimi Lurie (Julie Christie) - de continuar levando sua própria vida - é mais convincente e bem mais realista.
Não bastasse isso, alguns esclarecimentos sobre o passado dos personagens não chegam a causar suspresa. O espectador atento consegue, sem muito esforço, entender o que houve antes mesmo que Ben Shepard, o repórter vivido por LeBeouf, explique suas conclusões ao editor do jornal em que trabalha. Aliás, no que diz respeito às pesquisas conduzidas por Shepard, há outro problema no roteiro. As respostas surgem tão facilmente, que fica pairando a dúvida: “Como o FBI não tinha conseguido qualquer pista sobre o paradeiro de Grant antes?”.
Apesar da estória interessante, que lembra um pouco The fugitive (com Harrison Ford), o filme perde intensidade na segunda metade, que basicamente se resume à fuga de Grant (Robert Redford), seu encontro com antigos companheiros de grupo e sua perseguição pelo FBI. Além da estrutura encontra parceiro/obtém informação/foge antes do FBI chegar se tornar repetitiva, os eventos se sucedem muito lentamente. Em vários momentos, o espectador tem a impressão de que Grant não tem urgência alguma em chegar seja-lá-onde-for. E isso enfraquece bastante o envolvimento com a trama e o interesse pelo destino do protagonista.
E o sucesso do filme acaba se calcando quase exclusivamente na qualidade do elenco peso-pesado, repleto de figuras tarimbadas, além de Redford: Susan Sarandon, Nick Nolte, Julie Christie, Chris Cooper, Stanley Tucci. Até LaBeouf está bem como o repórter que corre atrás da notícia seguindo seus palpites e pesquisando no Google. Conseguindo aos poucos se livrar da figura de Transformer Boy, desempenha com competência a função de ser o olhar do espectador dentro da trama.
É uma pena que uma premissa tenha se perdido assim. E o que poderia ser um excelente thriller acaba sendo apenas um filme morno e um pouco cansativo.

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Posted On quinta-feira, 16 de maio de 2013 at 11:53
meteorologia:
pecado da gula:
teor alcoolico:
audio:
video:
(resenha publicada originalmente no Vórtex Cultural, em 09/05/2013)
Killer Joe (2011) - Killer Joe: Matador de aluguel
roteiro: Tracy Letts
direção: William Friedkin
★ ★ ★ ★ ★
Dirigido por William Friedkin (Possuídos e O Exorcista) e estrelado por Matthew McConaughey, Emile Hirsch e Juno Temple, o filme foi exibido no Festival de Veneza de 2011. Chris Smith, 22 anos, é um traficante de drogas azarado, mas as coisas ficam ainda piores quando ele contrata o surpreendentemente charmoso matador de aluguel, Killer Joe, para matar sua própria mãe e pôr as mãos em sua apólice de seguro de vida de $50.000. Sem dinheiro algum, Chris concorda em oferecer sua irmã mais nova, Dottie, como garantia sexual em troca dos serviços de Joe até receber o dinheiro do seguro. Quer dizer, se ele realmente receber.
(sinopse oficial - fonte: www.californiafilmes.com.br)
Este é o tipo de filme que, ao seu término, deixa o espectador na dúvida. Não dá para dizer se gostou ou não, porém não dá para negar que causa uma impressão que custa a se dissipar. O humor negro que permeia todo o filme, a sensação de conhecer talvez a família mais estúpida e desajustada da história do cinema, a certeza de ver a melhor atuação de McConaughey até hoje e uma sequência final de tirar o fôlego são apenas alguns dos elementos que fazem deste um filme difícil de descrever em palavras.
Há nudez, violência física e verbal, falta de escrúpulos e de expectativas num universo obscuro e deprimente em que as pessoas moram em trailers, com um cão ladrando acorrentado durante toda a noite, com uma tv ligada todo o tempo passando aparentemente sempre a mesma programação. E Friedkin apresenta isso logo na sequência de abertura, à noite e sob a chuva, esfregando - quase literalmente - na cara do espectador a depravação do mundo em que vivem os personagens.
A trama em que os personagens estão enredados é praticamente uma tragédia anunciada. O público assiste sabendo que algo ruim irá acontecer. E acontece. Mas acontece muito mais do que era esperado. No último terço do filme, através da expressão truculenta e insana de Killer Joe, Friedkin parece se dirigir ao espectador: “Você estava esperando violência? estava aguardando a tragédia? Então, agora aguenta aí.” E o espectador não é poupado de cenas cada vez mais perturbadoras, daquelas que dão vontade de desviar o olhar.
A estória é bem estruturada, apesar de simples. Mas a força está mesmo nos personagens, complexos e bem desenvolvidos. Apesar do aparente exagero nas tintas, a ótima performance do elenco torna-os totalmente verossímeis. Há Chris Smith (Emile Hirsch), o jovem traficante, totalmente gauche na vida, que já foi expulso de casa pela mãe, por tê-la agredido. Seu pai, Ansel Smith (Thomas Haden Church), tão bronco e ignorante, cuja preocupação maior ao conversar com a atual esposa sobre a filha caçula é não esquecer o dinheiro para a cerveja. Sua irmã mais nova, Dottie (Juno Temple), ingênua e totalmente alienada da realidade ao redor, cujo corpo adolescente é um misto de inocência e sensualidade. Sua madrasta, Sharla (Gina Gershon), uma quarentona enxuta (?), habituada a usar o corpo e o sexo para conseguir o que quer. E, finalmente, há Joe Cooper (Matthew McConaughey), o assassino de aluguel, detentor de um código de ética próprio e muito, muito educado. Mas educado de um modo assustador. A própria Dottie lhe diz: “Your eyes hurt” (“teus olhos machucam). Contido, tem-se a impressão de que a qualquer momento ele irá surtar. E surta. E o mais assustador é que quando ele surta, apesar de parecer descontrolado, percebe-se que suas ações não são impulsivas, que ele ainda é senhor de seus atos. Enfim, uma atuação sem precedentes de McConaughey, que consegue revelar aos poucos a psicopatia do personagem.
E dessa mistura entre humor negro e insanidade, emerge uma comédia de erros de tons mórbidos que causa um estranhamento no espectador mas que valida toda a excentricidade do filme.

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