"Details, baby. Details." (Dil)

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 6 de novembro de 2010 at 12:19


The crying game, direção Neil Jordan

Chegou 5a.feira para eu assistir, "The Last King of Scotland", com Forrest Whitaker como protagonista, no papel de Idi Amin. Sempre que penso nesse ator, vem-me à mente o primeiro filme que me lembro de ter visto com ele, "The crying game". Talvez não tenha sido o primeiro, mas foi o primeiro em que eu reparei na atuação desse excelente ator. Sua participação no filme não é extensa, mas bastante significativa. E esse filme faz parte daquela lista de filmes que eu revejo sempre que há oportunidade.

Dos filmes de Neil Jordan, é o meu predileto. Na verdade, foi o único que me chamou atenção, o único que recomendaria se alguém me pedisse uma indicação. Não é que "Entrevista com o vampiro", "Não somos anjos", "Michael Collins" e "Valente" não sejam bons. Apenas não são memoráveis.

Difícil definir a temática do filme. O título em português (como em tantas vezes) pode dar a impressão errada sobre o tema. Mas mesmo depois de assistir é complicado dizer se é uma estória sobre amizade, amor, política, terrorismo, redenção. É uma composição disso tudo. Talvez por isso seja tão interessante e intrigante.

A estória é simples. IRA seqüestra um soldado inglês, Jody (Whitaker), que desenvolve certa amizade com o guerrilheiro, Fergus (Stephen Rea), encarregado de vigiá-lo. Mas o soldado morre e o guerrilheiro vai comunicar sua morte à namorada do soldado, por quem acaba se apaixonando. A partir daí, alguns desdobramentos incomuns ocorrem, enquanto o grupo quer convencer Fergus a participar de mais uma missão.

A atuação de Stephen Rea, em mais uma parceria com Jordan, é excelente. Quase impossível imaginar outro ator nesse papel. Whitaker está muito bem, apesar da pequena participação. Mas quem realmente rouba a cena num interpretação quase sublime é Jaye Davidson. Faz sua personagem ser encantadora, misteriosa e extremamente sensual. A certa altura do filme, o fato de que o intérprete é um homem é apenas mais um detalhe, facilmente esquecido durante a projeção.

O filme permite interpretações variadas, e certamente cada espectador opta por uma delas. Não há um ponto de vista único, uma única perpectiva. Sem dar spoilers, é arriscado tentar explicar qual é o assunto do filme, no meu entender. Não estou em cima do muro, mas é daqueles filmes que é preciso assistir para entender por que não é possível explicá-lo antes.

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“L'enfer, c'est les autres”

coded by ctellier | tags: | Posted On at 09:52

meteorologia: chuvinha chata
pecado da gula: pão com nutella
teor alcoolico: nada ainda
audio: nerdcast #234
video: the walking dead

Nunca assisti à peça de Sartre da qual faz parte essa fala, “Huis Clos” (em português, “Entre Quatro Paredes”). Mas apesar disso, penso nela bastante amiúde, nas mais diversas situações. No contexto original da peça, três pessoas vão para o inferno, no caso um aposento mal decorado com móveis velhos e não o local quente e vermelho presente no imaginário popular. Nesse ambiente, são obrigados a conviver com as diferenças, os defeitos, as manias dos outros. Convivência que culmina com um dos personagens proferindo a famosa frase: “O inferno são os outros”. Nessa fala, Sartre sintetizou um sentimento característico do ser humano: a tendência inata de nos eximir de culpa e responsabilizar qualquer outra coisa ou pessoa por nossas vicissitudes. Certamente que em muitas situações, o que nos acontece não é totalmente controlado por nossas próprias ações. Estamos, com frequência, à mercê de agentes externos. Mas assim como Sartre, acredito que assumir a responsabilidade sobre nossos atos é o caminho para conseguir a liberdade plena.

A última ocasião que lembrei dessa frase, foi ao ler uma notícia sobre o suicídio de um professor universitário. É um assunto que sempre me suscita as mesmas perguntas. O que leva uma pessoa ao suicídio? O que faz com que alguém queira tirar a própria vida? O que pode ser tão ruim para que a única solução possível seja a morte? Apesar das questões serem coerentes, há nelas embutida uma falácia. Ao formulá-las, estou pressupondo que haja uma alternativa, uma escolha. Mas na visão de uma pessoa com algum distúrbio neurológico a escolha inexiste. Não há outra opção possível. Não sou especialista, mas creio que alguém com depressão tenha a percepção alterada, de si mesmo, dos outros, do que os outros pensam a seu respeito. Acredito que exista ao mesmo tempo uma supervalorização negativa da opinião alheia em detrimento do “auto-conceito”. E essa inversão da percepção impede que o depressivo enxergue uma alternativa. “Se o que penso, o que sou, vale tão pouco, por que continuar aqui?” É a frase da peça levada ao extremo. O depressivo acaba balizando sua existência pelo conceito que ele acha que os outros têm dele.

Ainda citando Sartre, “O importante não é aquilo que fazem de nós, mas o que nós mesmos fazemos do que os outros fizeram de nós.” Infelizmente, o suicida parece não conseguir perceber essa importância.

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Através das oliveiras

coded by ctellier | tags: | Posted On sábado, 30 de outubro de 2010 at 20:55

meteorologia: chuva... e que chuva...
pecado da gula: pão na chapa com manteiga
teor alcoolico: 2 stella artois, 1 dose de the famous grouse
audio: nerdcast #233

Através das Oliveiras (Zire darakhatan zeyton), direção Abbas Kiarostami

Assisti a esse filme há uns 10, talvez 12 anos. Gostaria de revê-lo, mas não o encontrei na lista do NetMovies, nem em lojas virtuais. Mas graças ao tio Torrent, consegui assisti-lo novamente. Apesar de pouco ter visto do cinema iraniano, o que vi sempre foi de meu agrado. E com o filme de Kiarostami não foi diferente.

Lembrava, da primeira vez que assisti, do inusitado da estória e da simplicidade e singeleza como foi contada. É pura metalinguagem. Como se fosse um documentário, é um filme contando a estória da “feitura” de um filme, desde a escolha do elenco até a direção dos atores, escolhidos entre os habitantes da cidade selecionada como locação. Durante a filmagem, é mostrado o passo-a-passo da gravação de uma única cena, repetida à exaustão, gesto por gesto, fala por fala, tomada por tomada.

O inusitado fica por conta do casal protagonista. Se, no filme dentro do filme, eles representam um casal recém-casado logo após o terremoto que atingiu a cidade, na “vida real” não são um casal apesar de o rapaz (Hossein) tentar convencer a moça (Tahere) do seu amor, implorando para que se case com ele. Percebe-se que ele erra as falas propositalmente, a fim de ter mais tempo ao lado dela, tentando retardar a separação - inevitável ao final da filmagem. É interessante como a realidade é interrompida pela ficção tão amiúde, sem qualquer cerimônia. As tentativas de aproximação de Hossein são entrecortadas pelas gravações das cenas. É poético e, ao mesmo tempo, chega a ser engraçado, acidamente engraçado.

O fio narrativo é amarrado de forma bastante imaginativa. A ausência de movimentos de câmera mais ousados ou de qualquer efeito especial demonstra que a simplicidade é tudo, reafirmando o tom documental do filme. Para se contar uma boa estória nada mais é necessário além de “uma idéia na cabeça e uma câmera na mão”. É essa despretensão que faz o filme ser tão agradável de assistir. E fica a questão, afinal é tudo ficção ou um retrato da realidade pós-terremoto daquela pequena cidade iraniana?



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Sapatilha de estimação

coded by ctellier | tags: | Posted On terça-feira, 26 de outubro de 2010 at 22:29

meteorologia: tempo estranho, frio e calor
pecado da gula: pão de queijo
teor alcoolico: 1 caipirinha
audio: nina simone

Não, o post não é sobre balé. Mesmo porque eu sou descoordenada demais pra dançar qualquer estilo, quanto mais balé. Admiro quem consegue, mas não é pra mim.

O assunto do post são as sapatilhas de ciclismo. Consideradas item supérfluo por alguns e imprescindível por outros. Certamente os que as consideram como dispensáveis o fazem por basicamente dois motivos, ou nunca usaram ou não pedalam com frequência e/ou intensidade suficiente que justifique o uso. Concordo que, pra quem só vai ao parque no domingo dar um passeio de 20 ou 30min. a uma velocidade média de 15km/h, a sapatilha é realmente desnecessária. Os que pedalam com certa frequência - mais do que um passeio dominical - mas nunca experimentaram usar sapatilha, também têm a tendência a afirmar que um tênis comum é mais que suficiente. Para os primeiros seu uso simplesmente não se justifica, uma vez que o passeio pode ser feito até calçando um chinelo ou mesmo descalço. Para os outros, basta utilizar uma ou duas vezes para que ocorra uma mudança de opinião.

Eu não tinha o hábito de pedalar, não na rua. Fazia aula de spinning na academia quase todos os dias. Justamente por esse motivo, um dos professores recomentou o uso da sapatilha. Não colocava fé numa mudança significativa. Mas fui surpreendida. E tornou-se um hábito usá-la sempre para pedalar.

Com a inauguração da Ciclovia do Rio Pinheiros, cuja entrada fica a poucos minutos da minha casa, adquiri uma bike e me acostumei a pedalar lá sempre que possível, em geral, 3 a 4 vezes por semana. Primeiro, porque pedalar é sempre divertido. Segundo, para incrementar minha performance na corrida, estimulando outros grupos musculares que não os utilizados nos meus treinos habituais. E a primeira coisa que fiz com a magrela, antes de sair pra pedalar, foi trocar os pedais por um par daqueles com presilhas para os taquinhos da sapatilha.

Faço parte da parcela de ciclistas que considera a sapatilha indispensável. Melhora a postura na pedalada já que os pés ficam corretamente posicionados no pedal. Elimina a preocupação com a possibilidade do pé escapar do pedal, durante um sprint ou subindo uma ladeira. E já tinham me falado que aumenta a potência da pedalada, minimizando o esforço. Anteontem confirmei empiricamente essa afirmação. Ciclistas amadores, como eu, têm o hábito de apenas empurrar o pedal para baixo ao pedalar. Parece um pouco óbvio, já que pedalando sem sapatilha, é o único movimento possível. O que a sapatilha nos proporciona é a possibilidade de “puxar” o pedal para cima na segunda fase da pedalada, uma vez que ela está presa a ele. Domingo, na ciclovia, ao voltar da Vila Olímpia, o vento estava soprando contra. Mas não era uma brisa, era um vento forte. E manter a velocidade da bike estava bem difícil. No meio do caminho, já estava com as pernas cansadas de tanto fazer força no pedal. Quase desistindo e já pensando em descer da magrela e voltar andando, achei que talvez puxar o pedal ajudaria um pouco. E não ajudou um pouco, ajudou muito. Aliás, diminuiu o esforço quase pela metade. Como qualquer equipamento, saber usar, ou melhor, saber fazer uso completo dele faz toda a diferença.

O modelo que eu uso é esse aí da foto. É o que chamam de sapatilha tipo tênis. O taquinho fica "embutido" no solado, permitindo andar a pé normalmente. Diferente das demais, em que o taquinho é saliente e se é obrigado a andar quase como um palhaço a fim de evitar escorregar e/ou tropeçar.

Eu, que já gostava de pedalar usando sapatilhas, não vejo outra forma possível além dessa. Lógico que, como tudo, tem seus inconvenientes. Atire o primeiro taquinho o ciclista que nunca levou um tombo por não conseguir soltar a sapatilha a tempo. Eu já tomei dois. Pior que o incômodo da queda é o mico de tombar feito uma árvore morta, totalmente sem ação enquanto o chão se aproxima. Mas faz parte. O benefício compensa. E não é um raladinho no joelho que vai me fazer mudar de idéia.

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District 9

coded by ctellier | tags: | Posted On segunda-feira, 25 de outubro de 2010 at 20:52

meteorologia: tempo indeciso.. fez frio, fez calor, fez frio de novo
pecado da gula: x-tudo
teor alcoolico: 2 stella artois
audio: nerdrops #66
video: lost season 06

District 9, direção Neill Blomkamp

Havia lido algumas críticas bastante favoráveis ao filme e a premissa me pareceu bem promissora: uma raça alienígena que chega à Terra como refugiada que, apesar de absorvida pela sociedade, é vítima de manifestações intensas de xenofobia e segregação social. E, pasmem, a nave extraterrestre não está sobre New York, Washington ou qualquer outra capital americana. Ela paira sobre a maior cidade da África do sul, Johanesburg. Óbvia referência à política de apartheid que vigorou no país durante anos, o filme nitidamente coloca os aliens como representantes das minorias subjugadas às classes dominantes. Há também referências aos campos de concentração nazistas, à limpeza étnica, aos guetos, às condições subumanas a que se sujeita grande parte da população de países do Terceiro Mundo - ver adultos e crianças aliens catando comida no lixo é chocante. Só pela capacidade do roteiro suscitar tais referências já é um grande mérito do filme.

Apesar de toda a temática social do pano de fundo, o filme não é um drama denso. É ficção científica de qualidade, com direito a cenas de ação e tiroteios. E consegue ser bastante verossímil no estilo narrativo escolhido. A exemplo de outras produções - The Blair Witch Project e Cloverfield, por exemplo - o filme convence bem no formato de pseudo-documentário (descobri que se chama mockumentary). Conseguiria se passar facilmente por um desses documentários da Discovery ou da National Gegraphic. A fotografia com paleta desbotada e "seca" dá o tom de realismo necessário. Apesar de em alguns momentos ser utilizada uma montagem convencional, o que não chega a enfraquecer muito a narrativa.

O elenco desconhecido dá conta do recado, apesar de alguns deslizes perdoáveis. Destaque para o protagonista, Sharlton Copley como Van De Merwe, que consegue dar ao personagem todas as nuances de caráter, que vão se modificando no decorrer da estória.

Despretencioso em sua concepção, revela-se uma grata surpresa. Realmente muito bom.
Vale a pena assistir.

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